Introdução

 

Tec Lado é um homem de meia idade, inubo e introvertido. Enxadrista proeminente está se preparando de maneira árdua para um torneio importante. Prestes a sofrer um colapso nervoso é aconselhado pela empresa (Noverbs) que o patrocina, a descansar uma semana numa estação de águas quentes, Xáguas. Ao chegar lá, logo no primeiro dia tem um destempero. Desgarra da turma do pacote turístico e se põe a percorrer a cidade e estradas de moto-taxi, transporte usual na região. A partir daí começa a viver situações estrambóticas. Alucinações provocadas pelas águas das termas, uma paixão repentina por uma moça do lugar... chega até a ser envolvido no assassinato de um político local (Xerxelino).

Atormentado pelo delegado que não o deixa em paz, que ameaça não deixá-lo sair da cidade, procura com a ajuda da garota esclarecer a terrível maranha. Percebe que a região tem forte influência dos descendentes das pioneiras, as três Terezas. Descobre também como a saga dessas três mulheres que fundaram a cidade é curiosa, únicas sobreviventes de um desastre que liquidou um antigo povoado que se chamava Felizcidade. Esse fato redundou num provérbio muito conhecido:

“Três Terezas Não Têm Fim, Felizcidade Sim”.

O que se conta é a aventura de um enxadrista que apeia em um mundo eivado de ambientes e personagens estúrdios, diferentes ao dos tabuleiros, rainhas, bispos... peões....




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Tristeza nao tem fim,
Felici dade sim
(
A felici dade e como a gota
De orvalho numa peta la de flor
Brilha tranqüila depois de leve oscila
E cai como uma lagri ma de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusao do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou de jardineira
E tudo se acabar                                           na quarta-feira

 

Tom Jobim




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Quarta feira

 

      Em qualquer viagem de férias sempre há nuances imprevisíveis.

Principalmente se você vai sozinho para Xáguas, uma pequena cidade isolada do resto do mundo por um grande rio. Uma pessoa ao meu lado no avião até comentou que o vilarejo estava no lado errado da formi-dável serpente de águas turvas que se perdia no horizonte.

      Depois do rio ainda voamos ainda um bom pedaço até avistarmos alguns predinhos coloridos no meio do nada.

      Desembarcamos em um saguão enorme, claramente desproporcio-nal às funções a que se destinava. Eu e as pessoas que viajaram comigo pertencíamos a um pacote de viagem e como tal fomos levados disci-plinadamente para o aparatoso Hotel Grã Xáguas. Este ficava em um lugar isolado, distante seis quilômetros do centro da pequena cidade.

      Já nas primeiras horas me irritei ao perceber que todas as atividades do grupo turístico eram planejadas e cronometradas. Comecei também a reparar que meus companheiros de viagem eram em sua maioria casais de velhinhos que andavam de mãos dadas e que logo se aboletaram na grande piscina de águas efervescentes do hotel. 

      Pouco a pouco, no primeiro dia, a rígida programação do pacote turístico provocou-me uma intensa sensação de aprisionamento. Entrei em pânico. Fui à portaria pedir para cancelar a viagem, voltar.

     −Não é possível − respondeu  o gerente − O avião só virá daqui a uma semana, na quarta.

      Comecei então a reclamar exaltado, xingar. Perguntei como sair dali, ir para qualquer lugar.

    −Posso chamar um táxi  − ele respondeu − Ou  o senhor pode sair por ai de moto-táxi, há sempre um, parado em frente ao hotel.




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Quinta feira

 

      Viajar de moto-taxi tem suas vantagens, é simples e rápido contanto que você não se importe com o fedor do motoqueiro e do capacete que você é obrigado a usar.

      Pedi ao rapaz da moto que me levasse ao centrinho mais próximo, em Xáguas. Viajando em alta velocidade pela estrada deserta me senti liberto das amarras. Tanto as que me sufocavam na metrópole donde eu tinha vindo, como as que me ameaçavam no pacote turístico. Quando estávamos quase a entrar na cidadezinha, o motor começou a falhar.

    −Acabou a gasolina...− ele disse − Mas... fica tranqüilo que chegare- mos lá.

      Como dali para frente havia um declive, foi controlando a máquina com as pernas e de fato, conseguiu me deixar na cidade.

      Durante o percurso tiramos os capacetes e conversamos. Chamava-se Aníbal, recém formado em uma profissão relacionada com as coisas da natureza. Enquanto esperava uma colocação fazia bicos como moto-queiro. 

      Deixou-me numa pracinha triste e desfolhada. No centro da praça havia um totem com a inscrição: Três Terezas. Puxei conversa com a primeira pessoa que encontrei. Perguntei o significado daquele nome, Três Terezas,

   −Essa cidade no passado chamava-se Três Terezas, depois mudaram o nome para Xáguas.

      Perguntei a razão do nome antigo, Três Terezas.

   −Quem melhor poderá responder essa pergunta é o Stanislaw. Mora na última casa desta rua.

 

      Stanislaw me recebeu com cordialidade, ofereceu-me limonada e bolo de mandioca. Sentamo-nos em duas redes paralelas e entabulamos gostosa conversa. Entre outros assuntos contou-me uma crendice disseminada na região




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“Bem perto dali existiu uma maravilhosa cidade em que viviam três lin-das moças, Tereza Cristina, Tereza Maria e Tereza do Céu. Nessa bela comunidade havia uma perene paz e alegria, todos seus habitantes eram absolutamente venturosos. Porém um dia aconteceu um cataclismo ter-rível, a cidade foi completamente destruída. Todos os que moravam lá morreram tragicamente. Menos as moças, elas se salvaram. Tempos de-pois, fundaram essa cidade que agora se chama Xáguas. As Terezas e seus descendentes tornaram-se importantes pioneiros em nossa região”.

      Terminado o relato ele ficou me olhando fixamente com um sorriso maroto. Perguntou-me:

    −Você conhece aquela música do Tom Jobim que diz: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”?

   −Quem não conhece...

   −Pois é,  fiz uma brincadeira...

      Nesse momento ele começou a rir e só continuou a falar com muito esforço:

    “Três Terezas não tem fim, Felizcidade sim”.

      Sacudia-se todo com as gargalhadas.

  

      Continuamos a prosa em um laguinho que havia no fundo do quin-tal da casa. Stanislaw tinha uma conversa divertida, ficava evidente que seu esporte preferido era brincar com palavras.

      Aproximou-se a boiar junto de mim:

   −Não sei não, mas dizem que essas histórias envolvendo as Três Terezas são verídicas. Essa que vou lhe contar é da Olga, filha da Tere-za Cristina, uma das sobreviventes do cataclismo.

      Mergulhei e quando voltei à tona pedi:

    −Conte-me...

      Fez a mesma careta marota:

“Olga era a moça mais linda nos primórdios desse povoado. Casou-se, um par perfeito. Mas logo nas núpcias percebeu que havia algo de errado com o seu marido. Ele armava o mastro, comparecia, mas não finalizava. Para ela estava tudo muito bem, mas ele, nada. Tentaram mil sacanagens, nada. A coisa ficou mais séria quando ele começou a  faltar




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ao trabalho. Não podia sair de casa com a barraca armada! Olga resolveu então consultar uma famosa sexóloga (atividade muito ousada para a época) que estava visitando a região. Fez a pergunta e a espe- cialista, depois de pensar um pouco, perguntou:  −Quais são as três coisas que ele mais gosta? −Eu mesma, meu rebolado e nossa cachorrinha −  respondeu a moça. −Faça o seguinte − aconselhou a estúpida doutora: −Deite o homem de costas, sente-se em cima dele, rebole e faça latidos iguais ao da cachorrinha. Em casa fizeram tudo direitinho, não adiantou. Olga voltou na sexóloga que insistiu: −Você tem que latir muito, muito mesmo. Nessa noite o casal ficou horas praticando a receita até que... Aconteceu! Foi uma festa! Daí em diante viveram felizes para sempre.”

     Quando terminou, Stanislaw começou a ter espasmos que o faziam rodopiar espirrando água para todo lado. Conseguiu conter o riso e continuou:

   −Sabe qual é o desfecho que inventei para essa história?

   −Não, qual é?

   “Olga bole em pica dura, tanto late que até cura”.

  

      Ainda por um bom tempo demos boas risadas banhando-nos no la-go que tinha o charme das águas borbulhantes, típicas da região.

      Por fim, despedi-me do meu simpático anfitrião e fui perambular pela cidade. Voltei à pracinha, avistei um boteco no lado oposto.      Atravessei a praça e sentei-me em uma mesa da calçada do “Bar Formoso”, e fiquei a observar um cenário em que nada se movimentava.

      A emoção inédita da viagem em alta velocidade na garupa da moto ainda estava muito viva. Agravadas pelo sol candente do meio dia, vieram-me à mente estranhos pensamentos:

 

“A maneira natural do homem se movimentar é com as pernas, individualmente, ninguém carrega ninguém a não ser a cria, mas isso é outra história... Quando você quer parar, para, pular pula... Afastar-se de quem está com você, diz, vou por aqui e você? Realmente a pé se tem


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liberdade, sobre rodas não. Pará-las é complicado, virar, dar marcha à ré (de bicicleta e moto nem pode) tudo é um sufoco. A invenção da roda, pensando bem trouxe mais problemas do que benefícios para a humanidade. Talvez uma prova disso é que os veículos não progridem, são praticamente os mesmos há cinqüenta anos. Diriam alguns que até regridem, relembrando os ônibus com motores a gasolina silenciosos e super confortáveis da década de 50... Tudo começou errado com as bigas, charretes e diligências. Quem inventou a roda deveria antes ter pensado numa ferramenta que fosse o prolongamento de nossas pernas, como o são para nossas mãos, o martelo, a enxada, a moto-serra, o controle...”.

  

      Sai das minhas reflexões sentindo muita fome. Dirigi-me ao homem que estava atrás do balcão e pedi uma garrafa de vinho e duas inde-fectíveis coxinhas.

      Já terminava o vinho quando de repente vi uma figura deslizando de patins em minha direção. Depois de alguns escorregões, aproximou e sentou-se ao meu lado.

      Não acreditava no que estava vendo. Era um sujeito idêntico a mim. Mesma cara, mesma roupa, tudo igual. Um clone. Estendi a mão pensando que fosse um espelho. Era carne e osso.

      Reagi com espanto:

   −O que é isso? Quem é você?

      Parece que não me escutou, aparentava muita ansiedade:

   −Preciso muito lhe mostrar esse projeto − disse apressado.

      Estava com um canudo de onde tirou uma enorme folha de papel

vegetal que começou a desenrolar.  Estendeu a folha na calçada:

    −Está vendo? É um ovo, colocando o polegar no visor ele se abre como um ovo de páscoa, dentro há uma poltrona, o visual é o de uma avestruz sem o pescoço e a cabeça. Você entra, digita as coordenadas do seu destino, o veículo estica as duas pernas, anda, corre, pula, desviando-se dos obstáculos. Não é preciso estrada, ruas, nem nada. Trilhas irão se formando naturalmente... Não é uma grande idéia? Não é uma grande idéia?




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      Fixei meu olhar em seus olhos, ele repetia a mesma frase como um boneco. Pareceu-me olhar para mim mesmo... Pensei:

    −Esse cara é um maluco total, não sou eu mesmo, ele é outro, é um bobo. Isso está parecendo coisa de ficção científica... Sei que o problema de robôs muito complexos é a fonte de energia e outras coisinhas... Esperaremos ainda muitos anos para esses sonhos vingarem...

      Abri os olhos como que saindo de um sonho. O clone tinha desa-parecido. Corri para dentro do bar e sentei-me em outra mesa perto da janela até refazer-me do susto.

      Olhei em torno, não havia ninguém no bar, só o homem atrás do balcão. Ouvia-se somente o barulho de um besouro colorido corço-veando contra o vidro da janela. Os objetos como que flutuavam na quentura da tarde que se iniciava.

  

      Hora de espantar essas coisas estranhas que estavam acontecendo, criar juízo e voltar para o hotel. Acertei a conta e pedi para chamar um táxi, ou moto-taxi, o que houvesse.

      Quase em seguida um ronco suave anunciou uma bela motocicleta. A silhueta de quem a dirigia denunciava uma mulher. O capacete não me deixava ver seu rosto, mas minha imaginação projetou uma Juliana Paes. Estou com sorte, pensei, cheiro de mulher sempre é bom.

      Seguimos viagem. Na estrada deserta, bem juntinho da motoqueira, quando meus pensamentos tomavam rumos fantasiosos, avistamos um grande painel com os dizeres:

    “Fora com a floresta e os animais silvestres, eles vão acabar com o nosso oxigênio”.

      Senti um solavanco quando a minha choffeuse acelerou resmun-gando impropérios.

      Mais adiante, floresta densa nas margens, topamos com uma figura destoante naquele lugar. Um homem de barriga saliente, paletó e sa-patos lustrosos. Dava ordens a vários outros vestidos com uniformes vermelhos portando moto-serras. Paramos, a moça desceu da moto e


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caminhou com raiva em direção deles.  Não entendi a discussão que se seguiu. Só escutei quando o homem gritou:

   −O que você acha que essas coisas respiram, imbecil!

      Quando retornamos à estrada senti que ela tremia, nossa velocidade aumentou muito. De repente paramos novamente.

   −Só vou até aqui. − falou, com a voz abafada pelo capacete. − Além é perigoso.

   −Por que?

   −Por aí dominam pessoas ligadas à coprofagia da cúpula.

      Nesse momento perdi a paciência.

   −Por aí eu já percebi que é o caminho errado. O hotel é certamente é na direção oposta. Não sei o que há com você, mas me parece de-sorientada, desorientada como toda mulher na estrada...

      Ela estava nervosa, revidou:

    −E você, seu velho devasso! Pensa que não percebi você se achegando em mim na moto? Pensa que já não estou sabendo do chilique na portaria do hotel? Aqui na região as novidades andam depressa!

      Em nenhum momento consegui ver seu rosto por causa do capacete. Mas estava mesmo furiosa, deu a entender que ia avançar sobre mim. Foi nesse momento que escutei o barulho de um ônibus, “Xáguas”.    Não hesitei em embarcar.

 

      No ônibus, eu era o único passageiro. Escolhi uma poltrona na parte traseira, abri a janela e respirei fundo. Homem visceralmente ur-bano estava inebriado e ao mesmo tempo assustado com os aconte-cimentos que se sucediam. Tentava decifrar o comportamento da moça quando o ônibus parou. Escutei um vozerio, pela janela vi que eram os homens das moto-serras a embarcar os equipamentos. Entraram e ocuparam todos os acentos. Um deles ficou de pé, a me encarar. 

      Resolvi parar de me preocupar, dar outro rumo aos meus pensamentos. Ia esquecer tudo, voltar para o hotel e me enquadrar como turista disciplinado. Desviei minha atenção para a paisagem.




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      O cheiro forte da vegetação cortada recentemente me levou relem-brar uma ocasião em que estava lendo em um jornal, um artigo sobre ecologia, para minha tia já bem velhinha. A certa altura ela me interrom-peu e perguntou:

   −Tec, como você acha que vai ser o mundo daqui a cem anos? 

      Ao mesmo tempo havia um sorriso em seu rosto que parecia dizer: “Vou saber disso antes de você”. 

      Embalado no que estava lendo respondi:

   −A vegetação vai invadir as ruas restando somente trilhas. Também invadirá as casas. Virão junto aves, onças, macacos, bichos preguiças, insetos e tudo o mais, coabitando harmoniosamente com os humanos. Ao ouvir a minha resposta ela ficou com um sorriso petrificado. Refletiu longamente, ela que foi educada com idéias que pregavam insolação máxima contra os micróbios, recém descobertos...

  

      Uma súbita freada espantou minhas recordações. Saíamos da estra-da e paramos ao largo de um aglomerado de meia dúzia de edificações, um vilarejo.

    –Ponto final, gritou o motorista!

   −Não pode ser! − exclamei − Estava escrito que o destino era Xáguas!

   −Nada disso, o chefe mandou encerrar aqui. 

      Não adiantou reclamar, a ordem era definitiva. Lá estava eu novamente fora do meu roteiro, desgarrado num lugarzinho que parecia o fim do mundo. O meu primeiro impulso foi entrar em um boteco e tomar mais uma garrafa de vinho, mas a presença de uma grande quantidade de besourinhos coloridos zunindo em torno de mim me fez mudar de idéia. Continuei por ali na esperança de encontrar um táxi ou moto que me levasse para Xáguas.

      Mas a moto que veio em minha direção não tinha intenção de me levar a lugar algum... A motoqueira ao passar olhou para mim e fez aquele gesto que significa “foda-se”. Soltou as duas mãos do guidon para fazê-lo. Com isso, perdeu a direção e trombou com um grande bambuzal na beira da estrada.  É ela pensei.




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      Esperei na vilinha mais um pouco, mas por fim cheguei à conclusão que se quisesse chegar a Xáguas teria que ir a pé mesmo. Depois de andar muito avistei os subúrbios da cidade. Entretanto ainda restavam os seis quilômetros até o Hotel. 

      Lembrei-me de pedir ajuda ao Stanislaw, afinal eu tinha visto um carro em um baldio ao lado da casa dele, quem sabe daria para des-colar...

 

    −Você aqui outra vez, seu nome é mesmo...?

    −Tec Lado

    −Tenho uma outra história ótima para lhe contar, vamos para as redes, o tempo nos pertence...

    −Mas eu preciso voltar para o Hotel...

    −Nada disso, é uma história sobre as Terezas, você não pode perder, essa é sobre a Tereza do Céu!

      Não houve jeito, tive que escutá-lo:

 

“Tereza do Céu atribuiu sua salvação do cataclismo a forças divinas, tornou-se muito religiosa e fez uma promessa: Levaria uma galinha de presente ao Papa. Trabalhou muitos anos para juntar dinheiro, escolheu sua galinha mais bonita e embarcou em um vapor. Depois de muitas peripécias conseguiu entregar a oferenda. Voltou triunfante a Três Terezas, foi recebida com festa na cidade. Por sua vez o Papa, muito paciente e bondoso, deixou que a galinha vivesse no palácio, a andar pelos corredores e aposentos. Porém com o tempo a galinha ficou com um estranho hábito de bicar o calcanhar do santo homem. (ele usava sandálias). Aonde ele ia, ela ia atrás, bicando-lhe os calcanhares. Certo dia estava o pontífice a descer uma escada com a galinha no seu pé, bicando, não se conteve. Deu-lhe um tremendo chute, a ave foi parar longe, morta”.

      Previa que o Stanislaw ia acrescentar um final apoteótico na história. Não falhou:

    “De degrau em degrau a galinha enche o Papa!”.

      Dessa vez ele ficou roxo, engasgado com as próprias risadas.




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      Aproveitei a situação para lhe pedir as chaves do carro a qual ele me entregou ainda sem poder falar, atolado nas gargalhadas.

  

      A tarde já findava quando parti todo contente no Fiat 147, bege, 1979 em direção ao Hotel. Logo estaria em meu quarto tomando um bom banho, cumprindo o papel de um turista comum, protegido das intempéries do mundo exterior. Depois de ter certeza da direção a se-guir ganhei a estrada. Calculei chegar ao Hotel com tempo para alcançar o horário do jantar. Talvez depois veria televisão. À noite, com um bom sono, encerraria aquela quinta feira maluca.

      Todavia,  não demorou muito,  comecei a ouvir um barulho... Logo depois o carro pifou. Conhecia o problema, era o trambulador. 

      Ao descer do carro vi uma placa com uma seta: ”Newxáguas 1Km”. Resolvi ir. Andei até chegar a um belo portal e ser recebido por uma moça que me pareceu uma hostess do lugar. Impossível não reparar em suas magníficas pernas. Expliquei da maneira possível o meu problema. Precisava de um trambulador.

    −Não se preocupe − ela disse −Venha comigo.

      Seguimos por uma vereda ladeada por casas pequenas, mas de apa-rência sofisticada. O chapeuzinho do uniforme, a pesada maquiagem, longos cabelos caídos cobrindo parcialmente o rosto, impediam-me de ver com nitidez a fisionomia da minha acompanhante.

      Falava com a entonação monótona dos guias:

    −Esta cidade, Newxáguas, foi construída por Tereza Cristina. Foi encomendada a um famoso arquiteto que projetou tudo... 

    −Essa rua não tem largura suficiente para um automóvel − inter- rompi.

      Ela continuou como se não tivesse me ouvido:

    −Tereza Cristina é neta  e  homônima  de uma  das  sobreviventes do

cataclismo.  Ela é filha de Olga que foi casada com um político famoso de quem herdou imensa fortuna. Prédios e galerias em Copacabana, hectares na Barra.

      Pensei comigo mesmo... Ela deve ter sido a “princesinha do mar” em Copacabana.

   −Por que estamos dando tantas voltas? − perguntei.

   −A cidade, Newxáguas, foi projetada assim... É para melhor apreciar a paisagem... Sei lá...  Logo falaremos com a prefeita...

   −Você trabalha há muito tempo aqui?

   −Não, só hoje. Vim substituir.




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      Depois de algum tempo de caminhada pelas trilhas ajardinadas avis-tamos uma grande edificação de cor preta, sem janelas. No topo, um heliporto com um helicóptero.

    –É a “Fábrica" − disse a moça sem mais explicações.

      Sua voz, sua presença, trazia-me forte impressão de já conhecê-la...

      Anoitecia quando chegamos a uma praça com um prédio impo-nente. Um grande letreiro em néon piscava: “Cine Newxáguas”.

No saguão, Tereza Cristina, a prefeita, nos recebeu com um vestido marrom que ia até aos seus pés. Ostentava uma pele de raposa nos ombros. Foi logo dizendo:

    −Gostou da cidade? Considero-a minha, mandei fazê-la. Aqui tam-bém funciona a prefeitura. Tudo é meu, o cinema é meu, os habitantes são operários da minha fábrica...  Faço questão que eles assistam aos filmes programados. Tomou fôlego e continuou:

   −Não são bem-vindos em Newxáguas, veículos, jornal ou televisão. Provimentos, tudo é feito pelo meu helicóptero. Ao mesmo tempo em que falava, fazia gestos teatrais:

   −Já mandei buscar seu trambulador, você dormirá no sofá da sala de espera. Antes, porém, terá que assistir ao filme dessa noite.

   Quando ela se afastou fiquei achando que o acaso jogara-me dentro de uma opereta. No entanto, o cartaz que estava na minha frente com a programação era bem real:

                                            Quinta: “Big Bus 1976”.

                                             Sexta: “Linda de Morrer”.   

                                             Sábado: “Os Idiotas”

                                             Domingo: “Adeus Meninos”

                                             Segunda: “Não haverá sessão”.  

                                             Terça: “Cantando na chuva”  

                                             Quarta: “A programar”. 




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   −Virei-me para a hostess que ainda estava ao meu lado:

   −Com qual critério a prefeita escolhe esses filmes?

      Ela encolheu os ombros.

   −Sei lá, ouvi dizer que ela fez um curso em alguma cinemateca quando morou fora daqui...

   –Vamos, vamos entrando − gritou a manda-chuva da qual pendia a pele da raposa balançando como a querer atacar os retardatários. A sala estava lotada, pessoas simples, alguns de chapéu. Não vi pipoca em lu-gar algum. 

     Já que iam me arranjar o trambulador, achei melhor seguir as ordens. Despedi-me da minha guia e entrei na sala de exibição.  Não me arre-pendi. Dei boas risadas com o filme e depois até dormi bem, embora em lugar muito estranho.

 

Sexta feira

  

      Amanheci recomposto. Ao meu lado um carrinho de chá com um belo café da manhã. Também um pacote com o trambulador e... um papel com a conta. Trambulador... Pernoite... Café... Tour... Cinema... Total... Só o cinema era grátis. Havia uma toalete ali do lado, me arrumei e depois me servi. Terminava quando a figura ameaçadora da chairman apareceu:

   −Bom dia... Pode acertar comigo mesmo, também cuido das finanças aqui do lugar...

      Depois que paguei a conta ela me convidou para conhecer outras dependências do prédio. Depois de um longo corredor entramos em uma sala repleta de monitores.

   −Está vendo?  Daqui controla-se tudo. Veja seu carro quebrado na estrada.

   Aproximei-me e vi. A estrada, as esquinas e ruas da vila, o perfil lúgubre da fábrica e o seu interior. Dezenas de máquinas aceleradas, montanhas de pacotes e caixas.




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   −O que fabricam? − perguntei.

   −Santinhos, bonés, camisetas, calendários, enfim todo o material necessário para propaganda política... Forneço para milhares de políticos em todos os paises.

      Não resisti em pensar uma piada... Santinho com boné?  Ao mesmo tempo tive uma idéia, perguntei:

  −Seria possível uma carona no helicóptero para uma cidade maior ou até mesmo para São Paulo?

      Ao responder ela fez uma expressão facial apropriada a uma grande atriz:

   −Isso está parecendo suborno ou corrupção, acho melhor você ir logo para seu automóvel...

      Na saída, no portal da cidade, estava um moto-taxi como que a me esperar. Tomei-o. O perfume e a linda moto não me deixaram dúvidas. A hostess e a motoqueira eram a mesma pessoa. A mesma pessoa que tinha me mandado “se foder” No minuto que durou o percurso não nos falamos. Ela me deixou perto do carro e foi embora.

 

      Não me lembro como consegui trocar o trambulador, mas me lem-bro bem que ao chegar ao hotel fui direto conversar com o gerente. Queria voltar para São Paulo de qualquer jeito. Ele reiterou que não era possível, só se eu fosse por terra... Não recomendava, era muito com-plicado...

   −É preciso atravessar o rio, requer muito tempo. O seu pacote ter- mina quarta feira, agüente até lá − aconselhou.

      Somente restaram retirar-me para o quarto e me preparar para expe-rimentar as famosas águas do lugar. Sem alternativas, logo estava me deliciando na piscina do hotel, nas águas que vinham das profundezas, embora talvez do inferno...  De repente uma voz assustou-me:

   −Por acaso o senhor  não é o Vice-Govern...

   −Não, sou Tec Lado

   −Sou o pastor Jonas de Metrópolys... Vou lhe contar uma coisa, Tec... Tec Lado, não é?... Recebi um chamado!... Eu era um famoso cirurgião 

   Para ler toda  história vá ao retângulo "INTEGRA", acima, no lado direito.




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plástico,  larguei tudo, estou doando meus bens, me transformei em pastor, pregando de cidade em cidade...  Recebi o chamado!

      Sem se fazer notar outro homem aproximou-se e entrou na conversa:

    −Estou achando que também recebi um chamado... Tenho 12 postos de gasolina também em Metrópolys. Larguei tudo, estou estressado,  vim para cá descansar...

    –É o chamado! − bradou o pastor − Estão vendo! É o chamado! Dinheiro, poder e sexo. Ai está o mal! − continuou o pastor.

      Mergulhei, fui aflorar do outro lado, no bar aquático. Precisava de um drink:

    −Me faz um dry Martini bem seco −  pedi − Não esqueça da azeitona!

       O garçom me olhou completamente aturdido.

       Ele não sabe o que é, pensei, ninguém mais toma gim nesses lugares. Contaminado pela mania do Stan de brincar com palavras, imaginei uma resposta a um pedido de um drink...

    −Gim? Fiz, não faço mais.

      Tive então que me conformar com a também indefectível caipirinha. Fiquei sozinho na borda da piscina, corpo imerso nas águas efervescentes, a rememorar tudo o que tinha acontecido desde a minha chegada. Tentei justificar para mim mesmo o destempero que me fez tresmalhar pelas estradas. Lembrei-me das histórias do Stanislaw e... Principalmente da motoqueira, da sua presença, da qual eu ainda estava fortemente impregnado.

   −Nem vi direito o seu rosto − pensei em voz alta.

      Como a música caipira espalhada no ambiente estava muito alta, atrapalhando meus pensamentos, pedi ao barman para abaixar ou mudar o som. Este, muito solícito, a compensar o coquetel não servido, me levou até uma geringonça instalada num canto do bar. Explicou:

    −Tem 20 mil músicas, é por ordem alfabética, pode escolher. É só apertar o botão.

      Escolhi rapidamente, letra A, Adriana Calcanhotto... Letra B, Billie Holliday... Apertei os botões e fui me deitar numa espreguiçadeira.




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      A música dessas cantoras causou uma atmosfera constrangida no ambiente. Incomodados, os velhinhos começaram a se retirar, que também já era hora do almoço. Estava quase cochilando quando come-cei a ouvir... Cazuza! 

   –Essa eu não escolhi!  − exclamei:

     Fui até ao bar indagar.

  −Foi a motoqueira que passou por aqui que escolheu essa, disse o garçom... Ela veio trazer uma encomenda para um hóspede...   Deixou um bilhete para o senhor. Abri, estava escrito:

 

A + B = C

Obs. Reparou que não há crianças na cidade de Newxáguas?

    

      Reagi perplexo:

    −Essa garota é onipresente, o que será  que ela está pretendendo, que eu me preocupe com criancinhas?... Também fazendo brincadeiras infa-mes com letras, será que isso é uma doença na região?... Eu vim aqui para descansar, repouso absoluto, além disso, estou com muita fome!  De fato, não podia sobreviver com coxinhas e caipirinhas por isso re-solvi almoçar no restaurante do Hotel.

      Fui para o quarto, tomei um banho. Quando estava me arrumando, ao olhar no espelho, achei que havia algo errado na minha cara. Não dei importância, caprichei nos trajes para combinar com os outros comen-sais e fui. Sentei-me à mesa e percebi alguns olhares de soslaio. Lem-brei-me da pergunta na piscina: “Você não é o Vice Governador?” Vieram-me umas caraminholas: “Sozinho nesse lugar com cara de político, talvez imaginem que sou foragido de algum inquérito...”.

      Quando o garçom aproximou-se displicentemente, pedi uma garrafa de vinho. Imediatamente ele mudou a postura. Se aprumou cheio de sorrisos, ofereceu várias marcas. Fez pose quando ofereceu a prova, sempre atento a ver se olhavam. Os velhinhos olhavam. Jovem, pro-vavelmente era a primeira vez exercitava o que apreendera alhures.

      O vinho era bom, o prato servido muito melhor, um delicioso fran-go na guabiroba. Quando eu terminava a sobremesa, doces em calda, ele apareceu. O clone. À minha frente e desta vez vestido com uma fan-tasia de arlequim.

    –O que você está fazendo aqui! Quem é você! Quem é você! − falei quase a gritar.  

   −Quem é  você? 




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      Como resposta o arlequim pulou para cima de uma mesa e começou a recitar e cantarolar fazendo mímicas que acompanhavam os versos:

                 

                            “Qual é a identidade

                              Dessa face que carrego         

                              Podendo a qualquer momento          

                              Travesti-la indolor?                                  

                              Será me mostrando no espelho        

                              Que me corta por inteiro       

                              Consigo saber o disfarce          

                              Que fímbria me prende a vida?"

   

      Cantarolava pulando de mesa em mesa rindo e fazendo caretas. Le-vantei-me furioso quando reconheci os versos que tinha feito aos 15 anos:

   −Para! Para!  − Gritei.

      Como um flash, vi meu pai assistindo aquilo... Artista...  Vergonha...

   −Para!  Desgraçado!

      Mas ele continuava e repetia cantarolando “Qual é a identid...”. Onde será que o miserável tinha desenterrado esses papéis perdidos no tempo?  Quando ele passou por mim  lhe atirei a garrafa de vinho. Com toda a força. O clone desapareceu, a garrafa espatifou-se no chão. Como não havia mais ninguém almoçando, só estavam presentes o garçom e a gorda cozinheira que viera tentar colher mais um elogio para

 




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para seu frango na guabiroba. Os dois acorreram à mesa assustados e solícitos.

   −Pode deixar que limpamos.

Agradeci, me desculpei e já estava saindo quando ouvi:

   −Senhor, senhor!

      Virei-me, era o garçom. Ele pôs as duas mãos na cintura a requebrar e sorrir. Disse:

   −Um senhor tão charmoso, porque está estressado?

      Tentei achar alguma motivação para permanecer no hotel, mas uma inquietação me dominava. Sentia uma necessidade de costurar de algu-ma maneira os acontecimentos que se sucediam comigo. A cidade esta-va distante do Hotel e como o carro do Stan pifara mais uma vez, resol-vi ir até o centrinho de Xáguas a pé mesmo, seis quilômetros.

      Depois de andar um bom pedaço, sol forte, parei em um bar com mesinhas na calçada. Sentei-me e pedi um refresco de fruta da região.   Enquanto esperava observei um grande saco de lixo, cheio de livros, jogado ao chão perto donde eu estava. À minha pergunta, o dono do bar, que se apresentou como Simenes, atencioso e humilde, explicou que eram espólios de um velho médico que morrera a pouco, aos 103 anos.

      Peguei um dos livros ao acaso, falava sobre os malefícios da imaginação excessiva, exacerbada. Das confusões e descaminhos que causava... impedindo às vezes até uma vida normal... Folhas carco-midas... Poções...  Ungüentos... Sangrias. Folhei outro, “Medicina forense...” Fotos de aberrações, um homem com um pênis que chegava quase ao joelho, quando tinha ereção desmaiava. A legenda informava que ele morreu bem jovem. Um capítulo sobre o defloramento, como devia ser o exame. Grandes lábios, pequenos lábios, vários desenhos.

      No último capítulo do livro havia uma foto cuja legenda explicava que aquele era o corpo ideal para uma mulher saudável. A página retra-tava uma jovem nua, naquela pose clássica com um jarro nos ombros. Matutei de como o autor conseguiu a foto na época, teria adquirido-a numa viagem à Paris?... ou encomendado secretamente num “stúdio”,




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talvez na rua São Bento em São Paulo, depois muitas peripécias?  Fechei rapidamente o livro quando uma moto parou bem junto a mim.

  

      Ela estava na minha frente. Delicadamente tirou o capacete colo-cou-o sobre a mesa. Sacudiu os cabelos lisos e negros. Os olhos leve-mente oblíquos, o nariz perfeito, os lábios grossos e rajados, os dois vincos em cada lado do sorriso transmitiram-me uma simpatia defi-nitiva...

   −Você me deve um monte de explicações − fui logo dizendo.

   – O que você quer saber?  − ela respondeu.

   – Porque errou o caminho...  e aquela história da região perigosa? 

   – Queria lhe mostrar o cartaz − respondeu − e também o que está acontecendo com nossas matas...  Depois fiquei nervosa na discussão com o Xerxelino e não sabia como lhe explicar por que tínhamos que voltar. O que me ocorreu dizer foi aquela frase que a gente vê em filmes, “Só vou até aqui! Além têm Kings-kongs!...” Ou qualquer coisa assim...

   −Essa não! Quem você pensa que eu sou para ficar me mostrando cartazes e moto-serras?

   –Você está sozinho no hotel − respondeu, com um olhar bem doce         −Parece um turista importante, não é o vice-governador...?

   −Não, sou somente Tec,  Tec Lado.

      Ela continuou:

   −Soube da garrafa de vinho quebrada, está tendo visões?

   –Como sabe disso?

   −Têm acontecido com alguns turistas, é a água que vem das profun- dezas. Mas ninguém comenta. Pode prejudicar o turismo.

   −Ah! O clone... Mas, isso não é da sua conta... Explica-me o bilhetinho na piscina, A+B=C, ridículo!

   −Não gostou da brincadeira.?

   −E o que significa você como recepcionista em Newxáguas?

      Ela se ergueu da cadeira e ordenou-me:

   −Suba na moto, vamos dar um passeio.

 




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      Novamente na estrada. De qualquer maneira ela poderia me levar onde quisesse. Depois de algum tempo entramos numa estradinha de terra quase sumida.

   −Chegamos − disse.

      Estávamos frente a uma construção meio escondida pelo mato,  parecia um bunker. Vi bem perto a silhueta negra da fábrica com o contorno do helicóptero no seu topo.

    −Mas esse lugar é  a  Newxágu...  Não cheguei a completar a frase. Uma figura saiu das sombras e se aproximou arrastando uma das pernas.

    –Esse é meu primo Mariano, ele é surdo mudo − disse ela −  vai abrir o portão.

       Atrás de uma dupla porta de aço estava um grande volume que o moço começou a desembrulhar. Um automóvel!

    −É um Bentley 1955, disse ela, nunca andou. Está como saiu da fábrica. Meu tio e depois meu primo só fizeram isso na vida, conservá-lo. Após rodear o carro extasiado não resisti e entrei. Estava tudo impecável. Abri a porta-luva e peguei o manual. Mariano fazia sinais repetidos para que eu ligasse o motor. Dei a partida, ecoou o rugido maravilhoso dos seis cilindros, “4887cc”. Transmissão automática.

   −Vamos, disse ela sentando-se ao meu lado. Tinha tirado o macacão, estava com um vestido de seda, coral, rosa e branco, justo.

    –Vamos −  respondi e acelerei.

      Com os pistões a esmurrar suavemente as bielas, bronzinas e ma-nivelas, ganhamos a estrada e deslizamos ao crepúsculo, envoltos nos detalhes luxuosos do automóvel e no adágio de Albinone que vinha do poderoso rádio de ondas curtas. Perguntei o nome dela.

   –Tereza −  respondeu.

     Tive a maior convicção nesse momento de que nunca antes havia freqüentado o paraíso.

     Rodamos bastante, ela foi me indicando alguns desvios até chegarmos a um lago onde a água borbulhava rebrilhando com a luz do farol do carro.

 




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      Descemos, ela rapidamente tirou a roupa e mergulhou. O autor do livro forense que vi lá no bar do Simenes, se ainda fosse vivo, teria que substituir a foto da mulher com o jarro... se visse o que eu estava vendo.

Não demorei em ficar nu e também me atirei na água fervente. Pouco me importava se aparecessem um, dois, ou mais clones, todos aproveitariam os momentos maravilhosos que eu estava a viver.  Empós deitamo-nos no gramado que circundava o lago.

      Embalado na música “Body and Soul” (Django), que soava no rádio do automóvel, contei a ela um trecho da prosa que tivera com o Stan.

   −Foi assim, Tereza, a pergunta que ele me fez no meio das inúmeras histórias e piadas que me contou:

    “Responda-me Tec, você está com uma bela mulher e terá que escolher entre morder os seus pentelhos ou beijar sua bunda, só tem essas duas possibilidades, não vale responder, os dois, e nem outra coisa, é uma ou outra, o que você faria?”. 

   −E o que você respondeu?

   −Vou lhe mostrar...

   –Velho devasso! − ela gritou entre risos. 

      Bem mais tarde, quando comecei a me vestir o clone apareceu. Estava nu e cantarolava, imitando uma criança ranheta:

    –O carro não é seeeu, a mulher não pode ser suuua, Princesinha está esperandoooo!  Dei um chute no ar, ele desapareceu.

    –Vamos falei,  vamos devolver esse automóvel que ele não é nosso.

      O vidro do carro estava embaçado as emanações das águas. Ela escreveu com o dedo:

 T + T = T

     

      Gentilmente o primo de Tereza, Mariano, havia colocado um lanche no carro o qual devoramos famintos.

      Na volta quase não nos falamos como que a saborear as lembranças recentes sob o céu estrelado. Largamos o carro com o primo que cuidaria de tudo. Em seguida Tereza com sua moto me deixou no hotel.        

 




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Sábado

 

      No dia seguinte, de manhã reclamei com o garçom a qualidade do café do hotel. A maioria dos hospedes misturava-o no leite e não percebia que ele era intragável. Reclamei também das execráveis caixinhas de manteiga gelada. O moço desculpava-se com trejeitos, fiquei sabendo seu nome, Rosalindo. Mas a minha maior preocupação naquela manhã era devolver a caranga do Stanislaw na qual consertei um fio solto. 

      Percorri os seis quilômetros que separavam o hotel de Xáguas, atravessei a cidade e percorrendo os arredores, fui até o fim da rua da qual me lembrava vagamente. Simplesmente não havia mais casa nenhu-ma.  Nada, só um terreno vazio delimitado por uma cerca. Uma folha de jornal tremulava enroscada no arame farpado. Peguei-a e li. 

     “Morre Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) jornalista e humorista criador da famosa coluna Festival de Besteiras que Assola o País”.

      Procurei a data, 29/09/68.

      Deixei o carro no lugar onde deveria estar, afinal ele também era um carro fantasmagórico. Tomei o único táxi passava por ali para voltar ao hotel, um velho gol chacoalhante que fedia como se tivesse recebido mil vômitos de fim de festa. Reparei que o motorista tinha um ferimento grande na testa. Perguntei como tinha se machucado. Ele contou:

   −Minha mulher estava passando roupa, eu me aproximei sem fazer barulho. Em riste, agarrei -a por trás. Ela assustou-se e deu com o ferro na minha testa. Doeu pra burro doutor e eu ainda tive que agüentar muita gozação... Sabe doutor, a moral que os meus colegas lá do ponto arranjaram para essa história?  “Quem com o ferro fere com o ferro será ferido” − concluiu, dando uns guinchos a guisa de risadas.

     

      Quando chegamos ao centrinho de Xáguas resolvi descer em qualquer lugar, pois o motorista insistia em fazer um “tour”. Também



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não estava mais agüentando o cheiro do automóvel. Na verdade o que eu queria, ansiava, era encontrar Tereza.

      Desci e fui por uma rua toda embandeirada com ofertas de roupas colocadas em cavaletes nas calçadas. A maioria eram camisetas com fra-ses que se pretendiam engraçadas, com duplo sentido. As lojinhas se su-cediam em fileira que parecia interminável.

      A certa altura entrei em um salão atraído por um vozear. Um ho-mem se apresentava em um tablado para uma platéia repleta. Como cenário, uma faixa com uma foto e os dizeres: “Vote em Xerxelino”.

      Fui me aproximando e tive uma surpresa. Reconheci o barrigudo que vi na estrada comandando os serradores. Era ele quem discursava:

   −Alguém aqui sabe quem é o político no qual votou nas últimas elei- ções? Com sinceridade, detalhes da pessoa, sabem?

    –Nãaao! −  Respondeu a platéia.

    –Pois então, quero criar o Currículo Obrigatório, sabem o que é isso?

    –Nãaaao!

      O orador que era o próprio Xerxelino que prosseguia cada vez mais inflamado:

   –Vou propor, vai se chamar Cubrig... O Cubrig é um livreto relatando toda a vida do candidato, desde que nasceu, fotos, certidões negativas, percalços, façanhas, idéias, tudo pesquisado e assinado, impresso em gráfica do estado, com código de barras!

      Palmas!

    −Milhaaares de Cubrigs... Seria a única propaganda permitida... Faixas, por exemplo, dava caaaana!... E quem paaaga os Cubriiigs?... O próprio candidato quando eleito, descontado no salário!... O estado financia, o candidato paaaaga!... Vão acabar as irregularidades!

      O povinho escutava hipnotizado o palavreado exaltado quando de repente soaram tiros! Imediatamente se acendeu um pânico geral. Uma correria.

      Enquanto o povaréu corria fiquei parado, abismado, vendo o Xerxelino cambalear e projetar-se em minha direção. Tombou aos meus pés. Ao mesmo tempo em que tudo aquilo acontecia espocaram flashs... Alguém estava fotografando...

 




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      No corre-corre que se seguiu, entra e sai, uma das camisetas expos-tas nas calçadas voou e caiu sobre o rosto do morto cobrindo-o. Nela estava escrito:   "Se já deu a bundinha, dê uma risadinha".

      Os esbarrões do pessoal que corria apavorado não conseguiam des-viar meu olhar daquele corpo ensangüentado. Continuei ali paralisado durante algum tempo.

  

      O lugar já estava vazio quando sai do aturdimento e fui para a rua Na calçada, um homem fardado me abordou:

   −Compareça na delegacia depois do almoço. Não deixe de ir! − Deu as costas e afastou-se.

      Logo adiante vi Tereza com a moto me esperando.

   −Você está em todo lugar, todo tempo? – perguntei.

   −Tec essa cidade é pequena e você já viu a potencia da minha moto... venha almoçar comigo.

      No pequeno edifício colorido, entrei primeiro, ela foi pela garagem. Sua casa era uma quitinete entupida de plantas, mas agradável no pequeno espaço disponível. Durante o almoço, ao som de Helena Meirelles, enquanto comíamos ovos fritos com arroz branco, banana assada e um refresco regional, ela  perguntou:

   −Agora estou esperando suas explicações. Por que um senhor tipo assim...Um turista distinto... Sai assim pelas estradas desgarrado da turma do Hotel?...

     Mudei de assunto:

   −Você conhecia o Xerxelino?

      Ela apontou o garfo em minha direção:

   −Maldito Xerxelino, mereceu morrer. Aproveitava-se de um cargo importante na estatal do meio ambiente para dilapidar as florestas aqui da região... Dizem que ele tinha um trauma de infância provocado pela visão da morte da mãe.

   −Que trauma é esse, como ela morreu?

   −A história que contam é que no único dia que fez frio aqui em Xáguas  ela vedou totalmente o quarto onde ela e o filho dormiam. A casa era atulhada de plantas, inclusive o quarto. O menino atribuiu às




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plantas a asfixia da mãe. Dizem que ele ficou traumatizado, por isso quando criança provocou muitas queimadas, depois, como adulto promovia desmatamentos. Era sua vingança.

   −Que coisa mais maluca − eu disse − vai ver que tem relação com a outra história biruta, a história das três Terezas...

   −E tem... muita... A mãe de Xerxelino era a Céuma, filha da Tereza do Céu, uma das sobreviventes do cataclismo que destruiu a Felizcidade...

   −Tereza do Céu, a que fez a oferenda da galinha...  − falei.

   −Essa mesma. Depois que voltou da Europa começou a fazer curas, virou milagreira. Pioneira aqui na região, ficou muito rica, dona de muitas terras. Teve dois filhos, Dorceu e Ceuma. Ceuma era a mãe do Xerxelino. Dorceu vive nos arredores.

   −Essa estatal da qual  Xerxelino era alto funcionário, como se chamava? − perguntei.

   −Noverbs.

      Ao ouvir o nome Noverbs senti um arrepio...

   −O que houve? Perguntou Tereza, curiosa.

      Levantei-me afastando as samambaias, avencas e malangas. Alcancei o terraço. Respirei fundo a contemplar a paisagem de Xáguas, uma grande quantidade de lagos e piscinas entremeados de casas e predinhos. Já refeito, reiniciei a conversa tentando saber mais coisas a respeito do Xerxelino, das três Terezas... . 

      Tereza desconversou:

   −Não está na hora de você ir à delegacia?

  

      Depois de algum tempo lá estava eu sentado na frente do delegado:

   −De onde você é, olho azul?

   −Sou de São Paulo.

   −Galego, galego paulista! − exclamou − Está vendo esta foto Polaroid aqui? 

    –É... Sou eu... .

    –Suas mãos não aparecem, mas sua posição é de quem estava segurando uma arma perto da vítima.




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    –Eu... não...  − .Balbuciei pego de surpresa...

      O delegado não me deixou continuar:  

   −O que estava fazendo no comício?... E por que está andando pra todo lado com essa menina, Tereza... é a garota mais bonita da cidade, não queremos que aconteça nada com ela...

      Aquelas perguntas tão inesperadas me deixaram completamente inibido, não conseguia tomar a palavra...

   −Qual a sua ligação com a Noverbs? – Perguntava ele com voz forte e desagradável.

   −Essa estatal me patrocina − respondi.

    –Afinal, o que você faz na vida galego?

    –Eu...Vou disputar o próximo campeonato mundial...

      O homem aparentava nervosismo:

   −Afinal qual é o seu trabalho?

    –Sou enxadrista profissional.

    –Enxadrista?

 

      Fui dispensado sob a condição de não sair da cidade Agora, além do pacote eu tinha um imbróglio. Andei os seis quilômetros até o Hotel amaldiçoando aquele homem que se apresentava como autoridade. Prepotente e machista, um verdadeiro filho da puta.

      No meu quarto eu ainda com esses pensamentos arrumava-me para o jantar, quando música de Maria Callas cantando “L'amouur est un oiseau rebelle” inundou o hotel. Um barulho de chaves na porta, eis que Tereza entra no quarto. Acercou-se esbaforida, cheia de perguntas:

    −Como foi na Delegacia?  Já corre boato na cidade que você é... enxadrista... Conta direito essa historia.

   −Deixa pra lá... .

   −Essa não, se você não é o Vice-Governador... tem que ser alguém. Tem que me contar!

      No decorrer de nossa conversa que se seguiu, transmudou-se em uma figura tão maternal que me fez derramar em confidências.

  




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      “Contei-lhe que principiei a jogar xadrez aos quatro anos. Que com quatorze já era mestre internacional. Entretanto, a partir daí comecei a cometer distrações incríveis, entrei em depressão, abandonei o jogo. O acaso me levou a ser artista gráfico. Artista! Tenho muita habilidade pa-ra desenhar, embora deteste fazê-lo. Ganhei a vida por muitos anos com isso. Fiz artes plásticas, participei de exposições de vanguarda... Até uma instalação ousei, uma pilha de réguas T e tira-linhas, toda lam-buzada com cola benzina... Foi depois desse evento que comecei a fazer análise. Minha analista me convenceu a voltar ao Xadrez. Lentamente recuperei as minhas habilidades e voltei aos tabuleiros... agora vou disputar o campeonato mundial...”.

   – De quem é esse retrato na cabeceira  da sua cama −  ela perguntou.

   −Duchamp, meu ídolo!. 

   −Duchamp, não conheço...

  

      Estávamos sozinhos no quarto, seu corpo próximo ao meu provocou-me desejos... Eu disse:

    −Faz de conta que eu sou Duchamp e você uma linda escultora chamada Maria, então eu a beijaria assim...

   −Preciso ir... devolver a chave − esquivou-se − o chefe do serviço do Hotel é irmão de uma conhecida, não posso demorar.

      Queria beijá-la, tinha tantas perguntas a fazer, mas ela se foi.

  

      Antes de sair para o jantar me olhei demoradamente no espelho. Estava cada vez mais intrigado com as mudanças na minha fisionomia...

      Depois da refeição notei um grupo alvoroçado de hóspedes em frente ao restaurante. Procurei saber do que se tratava, vi um cartazete que convidava os turistas para uma excursão à cidade de Newxáguas:

      * Passeio na exótica vila Newxáguas.

      * Toda construída em estilo Art Deco.

      * Uma cidade onde não entram automóveis.

      * A grandiosa fábrica e seu heliporto.

      * Visita à valiosa coleção de obras de arte de dona Tereza Cristina.

      * Com direito a uma sessão de cinema.

 




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       A moça que organizava os eventos estranhou a minha presença, pois era a primeira vez que eu participava dos passeios aos atrativos da região. O tour foi uma reprise das minhas andanças com Tereza naquelas paragens. Só a galeria da cidade eu ainda não conhecia, as obras de arte eram realmente de fazer cair o queixo. Impressionistas, surrealistas, principalmente artistas da escola Art Deco.

      Ao passarmos pelo cinema afastei-me do grupo e fui me sentar ao lado de uma mulher, habitante do lugar. Devia ser uma operária da fábrica. O filme em cartaz, “Adeus meninos”, tinha como cenário um colégio de meninos, administrado por padres beneditinos. A maioria dos atores eram crianças. As cenas que via fizeram-me lembrar do bilhetinho da Tereza: “Reparou que em Princesinha não há crianças?”. Sussurrei à senhora ao meu lado:

   −Onde estão seus filhos?

      Sussurrei várias vezes e nada. A mulher ficava impassível.

       Já estava a me distrair com o filme quando observei que ela fazia gestos com os dedos. Disfarçadamente apontava para a tela na qual a todo o momento apareciam crianças, padres e o colégio, um internato.Tentei decifrar o que ela queria comunicar, mas um foco de luz ofuscou-me e desviou minha atenção.

      O lanterninha fez sinal para que me levantasse. Mais curioso do que obediente, fui andando na direção que ele me indicava. Depois de um longo corredor entramos em um belo salão com uma grande piscina de mármore em seu centro. Nenhum mobiliário, apenas uma cadeira em sua borda.

   −Sente-se − ordenou mais do que pediu a prefeita Tereza Cristina.

      Ela estava com o corpo imerso na água borbulhante e fumarenta. Ao seu lado outra mulher:

   −Essa é  minha amiga carioca.

      Estavam nuas.

    –Você outra vez aqui! Informaram-me que não estava com sua turma, que perturbava as pessoas na platéia. O que é? Veio bisbilhotar?

  −Faço parte do grupo de turistas − respondi.

 




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    −Não parece... o que mais quer ver?... os habitantes moram em lindas casas, não há problemas de trânsito, ninguém vê televisão, são bem providos e vão ao cinema todos os dias...

      Sem dúvidas, aquela era uma situação grotesca. Não sabia o que dizer. Fui mais ridículo ainda, dizendo por impulso:

    −O Xerxelino foi assassinado...

      Ela e sua companheira se entreolharam com uma risadinha.

   −É melhor você ir embora .

      Quando me dirigia para a saída escutei ela falar:

   −O Xerxelino era um político com grandes idéias...

      Olhei para traz e vi a duas se abraçando e dando gargalhadas.

  

      Ao sair me perdi em corredores labirínticos e fui parar na galeria onde fiquei bastante tempo admirando os quadros. Quando finalmente cheguei à rua percebi que o filme já tinha terminado e o ônibus não estava mais lá. Mais uma vez estava fora do esquema do pacote turístico. Sozinho em um lugar estranho, envolvido em um assassinato e ainda por cima apaixonado!  Assaltou-me outro destempero. Corri pelas ruas de Newxáguas a gritar:

  −“Isso é uma mentira, essa cidade é cenográfica, tudo é uma farsa”.

      Chutei portas, paredes e portões, toquei campainhas. Em uma das casas uma pessoa me atendeu:

   −Vamos entrar, por favor...

      Era um ambiente simples e acolhedor. Chamou minha atenção um quadro belíssimo encostado na parede, meio escondido pelas cortinas. Como há pouco eu havia admirado um com a mesma linguagem na galeria, vi que era uma obra  de autoria de Tamara Lempicka. Chamou minha atenção também o empenho do casal em desviar meu interesse pelo quadro.

   –Sente-se, fique a vontade, disse a mulher, acabamos de chegar do cinema, aceita café com mentirinhas? Fiz as bolachas hoje mesmo.

      Apresentaram-se, ele se chamava Deolindo e ela Rosa. Não sei se foi o clima da cidade que me influenciou, mas pareceu-me um casal saído dos filmes americanos da década de 60, pais de hippies, perguntei:

 




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   −Seus filhos já estão dormindo?

   −Não temos filhos −  responderam.

      Em seguida comentaram o filme recém-assistido. Em determinado momento, sem assunto, fiz outra pergunta:

   −Souberam da morte do Xerxelino?

      O homem respondeu:

    −Xerxelino, um político com grande idéias, sabe o que ele  estava  planejando?

    −Não... .

   −Um sistema para eliminar a ignorância na região, baseado em três coisas que deram certo por aqui... Futebol, Silvio Santos e Cursinho... é assim... Uma cartilha básica... Exames periódicos para o povão realizados em estádios de futebol. Prêmios para os aprovados...Casas, automóveis, eletrodomésticos...

   −E os cursinhos? − perguntei.

   −Brotarão como cogumelos... − respondeu.

      Como a conversa já estava me irritando, interrompi:

   −Como faço para voltar ao Hotel?

   −Eu lhe levo no meu carro− disse ele.

      Ante a minha surpresa explicou:

    −Sempre dá-se um jeitinho de atravessar as regras da prefeita... Andamos até a margem da estrada e entre folhagens chegamos a um barracão com vários carros. No caminho até Xáguas ele me perguntou se tinha gostado de Newxáguas.

   −Não tem televisão, jornal, rádio... Vocês não ficam fora do tempo presente, fora da realidade?

   −O que você denomina realidade − respondeu Deolindo − sabe, realidade é meu corpo, minha casa, meu trabalho...

   −Mas esse negócio de obrigar a ir ao cinema é demente −  insisti.

   −Sabe, esse negócio de cinema é uma esquisitice da TC...  Nós chamamos a Dona Tereza Cristina assim, TC... é como nas seitas, o templo, se a gente não vai, pega mal... sabe... o que ela gosta mesmo é de ficar com as meninas que manda buscar no Rio de Janeiro. Outra coisa que ela ama é a coleção de obras de arte. Herdou a coleção do pai,




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o político, marido de Olga. Ele as comprou a preço de banana na dé-cada de 50...

      Estávamos no centro da cidade de Xáguas e paramos no único sinal que existia na cidade. Percebi que Deolindo, como outros habitantes da região, tinha orgulho daquele cruzamento, sentia-se num lugar que pro-gredia.

   −Admiro muito o  Xerxelino − continuou a falar  − Um político com grandes idéias, sabe de outra coisa que ele estava bolando antes de ser baleado?

      Antes que ele começasse eu disse:

   −Um viaduto de madeira, barato e rápido de montar,  para acabar com todos os cruzamentos do mundo?

   −Como adivinhou! −  Exclamou espantado.

 

      O sinal abriu, prosseguimos, o cidadão não parava de falar e eu não mais o escutava Esqueci por um momento o Xerxelino e fiquei a ima-ginar a instituição de um prêmio para o primeiro homem que bolasse uma maneira rápida e barata de eliminar os cruzamentos... não foram as grandes recompensas que incentivaram grande parte das descobertas, invenções e façanhas?  

      Voltei a pensar no Xerxelino. Na extraordinária coincidência que foi a morte aos meus pés de um dos diretores da estatal que me patro-cinava. De como a Noverbs programou e pagou minhas férias, era essa a razão da minha presença naquele Hotel situado no fim do mundo... terra do Xerxelino. Repisei o que Tereza havia me contado sobre ele. Que estranhos liames levaram o cérebro daquele homem comandar desmatamentos criminosos ao mesmo tempo em que se apresentava como um político idealista? Quais seriam as outras taras que transitavam naquela personalidade doentia?

 

      No hotel, quase madrugada, ainda havia gente na piscina, alguns comendo com o corpo dentro d’água. Estava com fome, troquei-me e fui para lá. Perguntei ao garçom o que tinha para comer.

   −Empadinhas de camarão, informou.

 




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   −Do atlântico ou pacífico?... − perguntei − estamos exatamente no meio do continente. 

       Ele não entendeu, pedi a porção de mini-coxinhas, não havia op-ção. Xerxelino não me saia do pensamento... O planeta ideal para o finado seria como uma bola de bilhar com todo o oxigênio só para ele...

      Depois de ficar um bom tempo na piscina fui para o quarto. Antes de deitar, fui ao espelho novamente. Já tinha me olhado várias vezes, na tentativa de entender o que estava acontecendo com a minha fisi- onomia.

      Foi ai que ele apareceu outra vez. O clone. O rosto exatamente igual ao meu só que agora cabeludo e com uma barbicha. Trajava uma calça boca larga e camisa estampada. Suas unhas estavam sujas de tinta. Fe- dia. Acenava com o bloco de notas do hotel e uma esferográfica na mão. Perguntou:

   −Quer desenhar comigo? Com a mão direita ou esquerda? Eu desenho com uma e você com outra, que tal?

      Respondi:

   −Vai embora seu merda, cai fora!

      Ele continuava:

   −Deixa disso, você ainda é do departamento, não adianta disfarçar,  vamos ver quem desenha  mais rápido?  Pode ser o rosto daquela mu- lher esquisita, a mulher do cinema. Pode ser?

      Tentei arrancar a folha do bloco, mas ele foi mais rápido.

   −Vou mostrar pra todos que você ainda desenha, onde você quer publicar, meu chapa?.

     

     

      Joguei-me em sua direção, mas ele atirou a folha pela janela e sumiu.

      No mesmo instante a campainha tocou. Abri a porta, quem estava na minha frente era o garçom do restaurante. Com os lábios pintados de batom vermelho:

    −Escutei gritos, o que está acontecendo?

 




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     Resmunguei:

   −Está tudo bem...

      Rosalindo hesitou um pouco antes de me mostrar um buquê de flores que escondia nas costas:

   −A Tereza mandou lhe entregar.. Tem um bilhete... Estou vindo de uma festinha, passei aqui para lhe entregar... 

      Abriu os braços com uma expressão preocupada:

   −O senhor precisa se acalmar... O que está havendo?

      Deu uma requebrada e se foi. Li o bilhete:

 




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“São flores do cerrado, da Fruta do Lobo. Te pego amanhã às 9 horas no hotel. Boa noite”.

      Flores púrpuras com detalhes amarelos. Coloquei-as em cima da cama. Festinha... Era o cúmulo sentir ciúmes de uma garota que conhecera há três dias...  Muito mais nova do que eu...  Mas estava com muito sono. Deitei-me e dormi entre as flores do guará.

 

Domingo

 

      Logo cedo me avisaram que o moto-taxi já tinha chegado. Pontual-mente lá estava a Tereza com sua garbosa máquina vermelha ronro-nando em frente do hotel. Senti um tremelique quando a vi, mesmo de macacão e capacete enxergava-a muito linda.

      Seguimos pela estrada até uma bifurcação que terminou em um pre-dinho pintado de rosa e azul. Entramos num salão com mesas redon-das, um pequeno palco e um balcão grande, um bar. Cheirava a ressaca. Uma mulher vestindo um peignoir semi aberto no corpo nu apachor-rava-se perto da janela. Aproveitava uma réstia de sol.

    −Mas isso é um puteiro! − exclamei.    

    −Respeito, esse é o american-bar da Lurimar, o melhor da região,  − ela disse − fique calmo, não trabalho aqui, viemos para conversar longe de enxeridos.

      Logo em seguida a própria Lurimar, parenta de um amigo de Te-reza, toda salamaleques, trouxe o café da manhã. Bolo de fubá com café e leite tirado naquele dia de vaquinhas que eu via ao longe, através da janela.

     Tereza queria saber os detalhes de minha visita à cidade de Newxáguas. Quando acabei de contar ela falou:

   −Mas você foi perguntar das crianças de Newxáguas justo para um casal que não tem filhos?

      Em resposta eu disse que estava curioso por saber a razão dela me querer interessado no que acontecia em Newxáguas ou não sei mais


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aonde. Achava que ela é quem devia estar a par do que estava acon-tecendo com criancinhas ou plantas naquelas paragens... Tereza cortou minha argumentação:

    −A mulher indicou na tela uma cena passada num internato de me- ninos?

   −Isso mesmo, entendi que o filho dela deve estar em algum colégio parecido...

   −Há um falatório que diz que há um internato aqui na região... Tec, não sei aonde... É que você não sabe ainda, mas eu estou a muito pouco tempo aqui. Estive fora desde muito nova, só voltei a Xáguas depois que terminei a faculdade.

  −Que faculdade você fez?− perguntei.

  −Engenharia ambiental. Prestei concurso para uma empresa estatal e agora estou esperando o resultado. Enquanto isso eu faço bicos como moto-táxi, recepcionista, o que aparecer.

     O som melequento de um bolero cantado por Tânia Alves se mistu-rava ao cheiro de ressaca.

   −Para que estatal você prestou concurso? − continuei perguntando.

   −A  Noverbs − ela respondeu.

   −Mas o Xerxelino era da Noverbs, você ia trabalhar para esse ho- mem?

   −E você, não é financiado pela Noverbs?

   −Mas eu nem sabia da existência do Xerxelino...

      Enquanto conversávamos a mulher que estava ao fundo, perto da ja-nela, fazia poses sensuais cada vez mais exageradas. Olhava-me fixamente, vibrando a língua de maneira exímia e ao mesmo tempo abria o peignoir e se mostrava. O toque do celular de Tereza veio no momento oportuno:

    −Estão chamando-me para uma corrida − ela disse.

    −Você trabalha mesmo como moto-taxi? ... Não acredito...

      Ao irmos para a motocicleta continuamos a falar sobre o Xerxelino. Fiquei sabendo que ele pertencia à diretoria da Noverbs em Metrópolys, mas passava a maior parte do tempo na região. Sua função era vinculada à preservação da natureza... entretanto usou sua autoridade para encobrir os desmandos que fazia, ou seja, justamente o contrário. Na


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sua ousadia chegou até a bolar aquela placa que vimos na estrada... Um letreiro que podia ser eletronicamente alterado ao sabor de seus delí-rios... Há pouco tempo licenciara-se para fazer campanha política... 

      A certa altura da nossa conversa ela insistiu e me convenceu a ir até a residência do Xerxelino em Xáguas. Explicou que a casa estava sem ninguém desde a morte dele. Não me disse como arranjou a chave, mis-teriosamente ela parecia capaz de tudo conseguir na cidade.

      Outra vez bem juntinho de Tereza na moto, meus pensamentos voejaram em torno dela. Perguntava a mim mesmo o que uma bela mulher como aquela estava fazendo naquele fim de mundo... Poderia estar passeando com um cachorrinho em Ipanema ou fazendo compras  em algum lugar badalado...

 

      O lugar onde Xerxelino morava quando vivo era uma casa antiga, pintada de azul escuro. Tinha o estilo das casas que têm a entrada aos rés da rua. A porta rangeu quando entrei em um corredor que desem-bocou em uma sala impecavelmente limpa, apinhada de bibelôs. Em toda parte, anões, corujas, anjinhos, toalhas-de-mesa rendadas, sofás revestidos de veludo... Um detalhe exótico... as cortinas eram pretas!

      Andei pela casa, esquadrinhei vários cômodos. Aparentemente não havia nada que combinasse com a personalidade psicótica que atribuíam ao homem.

      Voltei à sala e sentei-me em um sofá. Depois de algum tempo, olhando distraidamente a parede à minha frente, notei que a disposição dos enfeites delineava um contorno. Uma porta disfarçada!

      Atravessar aquela porta foi como sair de um filme colorido e se embrenhar em um, branco e preto. Muito pó, uma escrivaninha antiga, umas poltronas ensebadas, estantes com objetos e papéis. Pisei em um isqueiro, um isqueiro japonês do tempo da segunda guerra. Casualmente sabia que se tivesse à inscrição da ocupação americana valeria uma fortuna, ele tinha. Remexi a estante, estava repleta de livros e recortes de jornais.

      Tudo relacionado com queimadas e exploração da madeira das flo-restas. Catálogos de moto-serras. Num catálogo sobre painéis de men-


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sagem variável, encontrei o esquema daquele letreiro que eu e Tereza vimos na estrada.

      Deixei os papéis e olhei para cima. Sobre mim, pendurada no teto estava uma serra gigante, daquelas que são manejadas por duas pessoas. Dava a impressão que ia cair a qualquer momento sobre meu pescoço.

      Numa gaveta da escrivaninha encontrei um caderno com anotações minunciosas. Números quantificando espécies e árvores abatidas. Atrás de mim, num canto, um painel forrado com fotos da Claudia Ohana nua, ostentando o famoso matagal. Que incoerência, pensei...

      Mas o que mais me interessou foi um computador. Liguei-o, abri os arquivos. Havia relatórios, discursos, pastas com centenas de idéias e um... Blog. Ele tinha um blog! O nome do blog era “Fogo Ardente”, assinava “Galhardo”. Pesquisei mais, achei a cópia de uma mensagem publicada por uma mulher indignada. Esta senhora escreveu em seu blog:

“Já está se tornado conhecido na Internet um blog assinado por um tal de Galhardo. Esse indivíduo se vale da linguagem já meio estabelecida nos blogs nos quais predominam anotações e registros da vida diária, desabafos sinceros. Pois bem, o sujeito vale-se dessa linguagem para insidiosamente inserir relatos de desejos sexuais perversos, taras abo-mináveis. Está causando pânico entre as mulheres blogleiras”.

      Desliguei o computador e só então vi uma porta-retrato colocado ao seu lado. A foto parecia ser de um padre. Li a dedicatória: “Ao meu sobrinho Xerxelino, do tio Dorceu”.

      Puxei pela memória e me lembrei da conversa em que Tereza me falou sobre Tereza do Céu. O retrato exibia o Dorceu, irmão de Céuma, filho de Tereza do Céu, a milagreira, uma das sobreviventes da infausta Felizcidade!  O que teria acontecido com ele?

      Continuando a remexer nas gavetas encontrei um diário com várias páginas dedicadas a uma inusitada teoria. Eram várias folhas cheias de cálculos tentando demonstrar ser impossível o papel higiênico entupir privadas. Havia alguns depoimentos de famílias que jogaram papel nos vasos por mais de 60 anos e não os entupiram... Prometia Xerxelino,


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que se eleito, criaria uma lei proibindo aqueles odiosos baldinhos de papéis com merda.

      Mais à frente ele contava coisas da sua infância. Interessaram-me uns trechos que assim diziam:

    “Em Xáguas, quando eu era menino, a zona ficava perto do largo da igreja, quase ao lado da casa do padre. À tardinha, as prostitutas saiam para a rua e escarrapachavam-se nos bancos da praça. Ficavam por pelo menos uma hora, tomando ar e sol. Para mim e minha turminha era hipnotizante espiá-las escondidos atrás dos arbustos do jardim. Mulheres semi despidas, quase todas muito gordas usando roupões  coloridos”.

      Mais adiante, outra confidência:

    “Quando eu tinha oito anos, eu e meus dois amigos inseparáveis inventamos uma brincadeira que talvez nenhuma outra criança no mundo tenha feito. Era assim: A televisão ainda não tinha chegado em Xáguas de maneira que o jardim da cidade à noite ficava cheio de gente. Os rapazes passeando numa direção e as moças em outra, contrária. Caminhavam em torno do jardim, na maior paquera. Nós três então andávamos junto com os homens... Apostávamos quem teria coragem de se atirar de encontro às moças na direção daquilo que ficava na altura de nossas cabeças. Tinha que meter o nariz ali mesmo, senão não valia... escolhíamos de preferência uma bem grandona e tchaaa... Para elas éramos somente meninos destrambelhados. Para nós uma aventura indescritível. Fizemos isso durante um bom tempo, nunca ninguém desconfiou de nada”.

      Fechei o caderno, ergui meus olhos,  bem na minha frente estavam os maravilhosos pentelhos da Cláudia Ohana...

 

      Resolvi levar o diário emprestado, intuía que ele poderia me ser útil futuramente.  Quando ia saindo vi um bilhete amarfanhado no chão. Só dava para distinguir duas palavras “tintas e colégio”. Parecia evidente que uma escola fazia parte da estranha teia de acontecimentos em que eu havia me atirado como uma mosca.




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      O centro da cidade ficava perto dali, fui andando a pé. Ocupavam-me os pensamentos a lembrança da mulher no cinema a me indicar a cena das crianças no colégio, o internato. Se havia na região um colégio com essa característica, qualquer habitante do lugar saberia me infor-mar. Entrei em uma sorveteria, uma menina atendeu-me.

    −Quer experimentar nosso sorvete especial?

      Ao mesmo tempo me mostrou uma estampa de uma guloseima enfeitada.

      A manhã já ia alta, deu uma fominha, vi uma plaqueta meio escondida: picolés de frutos do cerrado: curriola, jatobá, mutamba, araticum, brejauba, cagaita, taperabá, murici, guabiroba, buriti, pequi, mangaba, bacuri.

   −Esses picolés − falei − Quero experimentar...

      Mas ela insistia:

   −Nosso sorvete especial, uma delícia.

   −Não, eu quero experimentar um desses...

   −Espere um pouco que eu vou chamar o gerente.

      Veio lá do fundo um sujeito feio, foi logo falando:

   −Não vai experimentar nosso sorvete especial, só tem aqui...

      Quando já estava desistindo dos sorvetes lembrei-me de perguntar:

   −Não há por aqui um colégio tipo internato, talvez  padres...?

      Vi uma expressão de desagrado nos olhar dos dois.

    −Não quer experimentar nosso sorvete especial?

      Fui até onde estavam os picolés e consegui pegar dois, apesar da menina me seguir, insistindo para que eu experimentasse o sorvete especial.

      Joguei o dinheiro no balcão e saí apressado. Na rua li os sabores: curriola e cagaita. Andei até o único ponto de ponto de táxi da cidade. Tinha um banco onde me sentei e devorei os dois picolés.

      Um dos choferes sentou-se ao meu lado. Olhando bem para ele, re-conheci o mesmo motorista que havia me atendido anteriormente. Ain-da estava com o curativo na testa. Ele também me reconheceu e puxou conversa:

   −Bom esse picolé né doutor, como é seu nome mesmo?

   −Tec Lado −  respondi.




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   −Por acaso o senhor não é vice-govern...

   −Não, sou Tec Lado, enxadrista −  respondi antes que ele terminasse a pergunta.

   −Uai, enxadrista,  precisa ter cabeça né doutor, sabe que eu tenho um filho assim... Com seis anos ele já ensinava até pra professora, é um me-nino bonito precisava ver, olho azul assim como o senhor.

      Enquanto falava, levava a mão à testa apalpando o ferimento.

    −A mãe ficava elogiando dia e noite doutor, todo mundo elogiava, a cidade inteira elogiando, uma alegria pra gente doutor, o doutor nem imagina...

      Os olhos do homem se encheram de lágrimas. Em seguida balbu-ciou emocionado:

   −Uma tristeza  − doutor.

   −O que houve? −  Perguntei.

   −De repente o menino começou a ficar triste, andava pelos cantos, não fazia mais nada, a gente pedia ele concordava mas não fazia. Nem sapatear, ele antes dançava pra mãe, a mãe elogiava, ela ficava louca de contente quando ele fazia isso... Nem matemática, doutor, ele era bom nisso... Ele sabia tudo...

   −Mas o que aconteceu? − perguntei curioso.

   −Acho que foi a inveja doutor, ele não agüentou a inveja doutor, tenho certeza que foi a maldita inveja...

   −Onde ele está agora? − perguntei.

   −Ele foi para o internado, foi para o bem dele.

   −Que internato é esse? − perguntei ansioso...

      Fomos interrompidos por um grito, era alguém  querendo o táxi.

   −De licença, doutor,  preciso trabalhar.

      Fiquei sem a resposta e com os papéis das embalagens dos picolés na mão, curriola, cagaita... Outro táxi apareceu logo em seguida.  Pedi que ele me levasse para o meu hotel, o hotel Grã-Xáguas. Passei pela portaria refletindo que ninguém na ficção imaginaria férias como aque-las que eu estava a viver. Envolvido em um assassinato, alucinações, gente e lugares bizarros, paixões... Principalmente uma grande paixão...


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Quando Tereza me convidava para subir na moto eu ia como um zumbi gosmento sem pensar em mais nada...

     

      Parei perto da piscina e observei aquele pessoal entretido no esforço de mostrar para si mesmo e para os outros que estava extraindo todas as migalhas do passeio almejado. Como na ficção científica, me senti vivendo em duas dimensões. Uma era a realidade de Xáguas com Tere- za e tudo o mais. Outra era a dos turistas em torno de mim, irreais, como que levitando. Eu atravessara uma barreira e estava sofrendo as conseqüências.

  

      Fui ao quarto, me troquei, voltei à piscina onde  Jonas, o pastor,  aproximou-se sorrindo. Será que sabia do assassinato do Xerxelino?

   −Olá, Tec ! − você não é mesmo o Vice- Governador...?

   −Não, não sou! −respondi com veemência.

   −Viu o que está acontecendo, Tec?

   −Aonde?

   −Os escândalos na cúpula de Metrópolys...

      Estávamos somente com a cabeça fora d’água e ele me olhava espe-rando uma resposta... Com todo meu tempo tomado pelas andanças malucas, estava por fora do noticiário... Fiz um gesto qualquer concor- dando, ele continuou:

   −Nós cidadãos, cheios de dúvidas, hesitamos até em escolher a cor da cueca a vestir de manhã... Aí vem um sujeito, sobe em um lugar mais alto e proclama: “Vou acabar com a fome e a ignorância!”. Muitos ficam deslumbrados. O sujeito fala “vamos”! O pessoal vai...

      Continuou empolgado:

    −O homem vê seguidores, então ele pensa, isso é ser rico, agora vou ser rico!  − Fez uma pausa para respirar e deu um sorriso:

    −Escute Tec, hoje eu estou inspirado, vou tomar nota de tudo o que falei...  O que você faz na vida Tec?

    −Sou enxadrista, eu era artista, mas larguei tudo pelo xadrez, recebi um chamado... Duchamp é meu ídolo!

      A água em torno de nós dois se tornou mais quente e borbulhante...




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   −Tec, eu também recebi um chamado!

   −Pastor, você já me contou que recebeu um chamado, eu  já sei... Mas quero lhe perguntar uma coisa, está sabendo que o Xerxelino foi assassinado?

   −Quem é Xerxelino?

      Era evidente, ele não sabia. Uma mulher gorda aproximou-se de onde estávamos:

   −Ninguém é santo!...  Não é pastor?... Não é verdade o que estou dizendo?... Ninguém é santo!

      Deixei os dois se falando e me afastei até o bar. Pedi uma caipirinha e fiquei observando aquela gente na piscina, gente tentando tratar as mazelas na água cheia de bolhas... Tudo parecia feio e sem sentido. O inferno deve ser assim, concluí...

  

      Ele me abordou quando sai da piscina, o clone. Desta vez estava de paletó e gravata, bigode, foi logo perguntando:

    −Quando você vai apreender a agir como uma pessoa normal?

      Pôs a mão sobre meus ombros:

    −Qualquer pessoa em seu lugar teria telefonado para amigos, advo- gados, alardeado sua situação para os outros hospedes, enfim, tomado providências cabíveis na situação. Você tem que seguir os trâmites le-gais, em vez de andar atrás dessa moça, nem sabe direito o que está procurando, acho que está embriagado com essas terezas e xerxelinos...

      Tentei me esquivar, mas o clone continuou quase gritando nos meus ouvidos:

    −Acorda meu, você é turista, não tem nada a ver com o que acontece nessa cidade...

      Tentei afastá-lo com um gesto, mas ele continuou falando:

    −Você não é mais artista...

      Tapei os ouvidos, ele foi desaparecendo, quando entrei no quarto já tinha sumido. O horário do almoço já estava para terminar, tinha que me apressar para me arrumar e chegar ao restaurante a tempo.

      Servi-me no bufê de uma iguaria que na plaqueta se intitulava, “cestinhas de mandioca e frango caipira com pequi” e me sentei à mesa.   


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Incontinenti alguém se sentou a minha frente... Tereza. Também se ser-vira e estava linda, de calça jeans e camiseta branca.

      O garçom Rosalindo veio todo sorridente me trazer o vinho. Ele e ela aproveitaram para trocar beijinhos e cochichos, aparentavam grande intimidade. Depois que o garçom se foi ela me encarou e disse:

   −Está surpreso por me ver aqui?...

     Olhou em volta, deu uma gargalhada e perguntou-me:

   −Reparou naqueles turistas?

      Só então corri o olhar pelas mesas. Algumas poucas estavam ocu-padas por casais de velhinhos.

      Completamente nus!

    −É o efeito das águas... −explicou−  Finja que está tudo normal... Tem que disfarçar pra não prejudicar o turismo...  Vez ou outra acon-tece um contágio coletivo, você sabe melhor do que eu como é... Logo passa...

      Pegou a minha taça de vinho e experimentou um gole. Perguntou:

    −O que descobriu na casa do Xerxelino?

    −Por que está tão empenhada em me fazer descobrir coisas?

      Como resposta, lançou um olhar que desestabilizava meus elétrons. Obrigou-me a responder:

    −O que vi lá foi  a  toca de um grande maluco... Encontrei também um bilhete que se refere a um colégio...

    −Ficou ansiosa e apertou a minha mão:

    −Dizem que há um internato de crianças na região...  Há também um falatório sobre uma escola que existiu na Felizcidade... que foi destruída pelo cataclismo...

      Enquanto falávamos um casal, pelado, passou rente a nós e nos cumprimentou.

      Pessoas nuas em ambientes formais, uma cena até familiar na ficção, nos surrealistas, mas chocante na vida real. Contudo, o que mais me assombrava era o fato deles estarem se coçando o tempo todo. Sim, os turistas estavam nus e a se coçar, principalmente o saco e a boceta... Coisa tão espantosa atiçou minhas caraminholas. Fez-me refletir que o homem é o único animal que não pode se coçar livremente, os outros


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animais até lambem suas partes sossegados, sem que ninguém se inco-mode. Na minha infância tivemos uma vizinha que coçava a região dos pentelhos. Fazia isso na nossa frente, minha tia dizia que ela era apa-rentada com o capeta...

      Tereza percebeu-me distraído e repetiu:

    −Dizem que havia uma escola no lugar onde ocorreu a catástrofe que destruiu a Felizcidade...

    −O que você disse?

    −Acorda Tec, há uma história sobre um colégio interno no centro do cataclismo, vamos até lá ver se tem alguma coisa?

      Naquele momento percebi que jamais conseguiria ser um turista bem comportado.

   −Vamos − concordei.

      Quando nos levantamos a cozinheira gorda aproximou-se da nossa mesa e perguntou:

   −Gostaram da cestinha?  

      Rosalindo  também se achegou sorrindo a apontar para o saco do velho que estava em pé a nossa direita:  

   −Gostaram do cestão?

   

      Estávamos outra vez na estrada! Uma rodovia que seguia para o norte de Xáguas e terminava em parte alguma... Foi o que ela me disse... Andamos por uma hora mais ou menos até onde o caminho começou a ficar esburacado, o asfalto foi desaparecendo. Depois só havia terra, buracos e morrotes. Com grande dificuldade, por causa do mato e co-tos de árvores, chegamos à borda de uma grande cratera.

   −Aqui é o tal do epicentro do cataclismo, foi aqui que ele caiu − ela falou −Foi aqui que o meteorito caiu...

     Olhei para ela incrédulo:

   −Onde ele está, esse meteorito?

   −Os belgas o levaram − ela respondeu.

   −Como, os belgas, que coisa mais absurda, como podem ter levado embora um meteorito, de que jeito?




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   −Eram cientistas que estavam por aqui a pesquisar as águas bor- bulhantes... Sobreviveram e levaram o meteorito para a terra deles... É o que diz o povaréu...

   −E você acreditou? Nunca ouvi maior disparate...

      Nesse momento tive o impulso de agarrá-la e beijá-la, mas ela se esquivou. Tropecei numa pedra que rolou descobrindo uma pequena lata, dessas de bolachas, toda amassada.

      Ao abri-la me deparei com objetos e papéis, um espeque para o jogo de finca, búricas, um imundo e roto alfabeto pornográfico antiguís-simo. Havia também um esboço de carta... “Querida mamãe, espero que você venha me buscar estou com muitas saud...”, figurinhas, uma foto do time do palmeiras, W. Fiume, Oberdan...Um programa de cinema... Paulette Goddard, cromos esfrangalhados de pin-ups, uns cartões com a inscrição “vale um ponto bom...”.

      Tereza estava encostada em mim, pedi:

   −Se me deixar beijá-la ganhará um ponto bom...

   −Um ponto bom é muito pouco...

      Dizendo isso se esquivou novamente. Quase rolei para dentro da cratera. Enquanto eu limpava o pó da minha roupa ela perguntou.

   −Será que o menino dono desses guardados se salvou do cataclismo?

   −Não sei −respondi − O que imagino é que essas coisas só podem ser de um menino de São Paulo. Provavelmente ele estava passando férias por aqui quando aconteceu alguma coisa...

   −E o colégio?

   −Um colégio interno nesse fim do mundo na década de quarenta, não é possível.  Se houve um colégio aqui, o colégio e o menino viraram pó... não foram só as três Terezas que se salvaram?

  −Um menino devasso − ela brincou olhando o calendário.

     Não sabia bem por que, mas eu estava ficando irritado:

  −Sabe de uma coisa? Acho que esse negócio de Felizcidade é uma grande besteira, o que talvez devia existir aqui era uma vilazinha muito mambembe onde as pessoas eram felizes e infelizes conforme o mo-mento. As três Terezas devem ter escapado pisoteando todo mundo e por falar em Terezas você por acaso não é parente de uma delas?




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      Não deu tempo dela responder. Vimos poeira e barulho se apro-ximando e logo um off-road amarelo parou perto. Um homem moreno e forte veio em nossa direção. O Delegado.

    −Já tá na sacanagem, galego? O que veio fazer com a moça aqui? Já soube que esteve na casa do Xerxelino, você está muito folgado... Toda hora se metendo onde não é chamado...

    −Mas...

    −Não tem mais nem menos. A moça volta na moto dela e você vem comigo.

  

      Na delegacia quedamos eu e o homem da lei em uma sala despida, onde havia uma mesa com duas bandeiras atrás e uma cadeira no lado oposto na qual fiquei sentado.

      Permanecemos em silêncio um longo tempo, o delegado assinando papéis e eu olhando para um retrato dele na parede lateral. De repente ele levantou a cabeça e me perguntou:

   −Gostou do retrato? O que acha da moldura? Fiquei uma manhã in-teira à disposição do fotografo para conseguir essa foto. Foi o Xerxelino que indicou esse fotógrafo. Veio de Metrópolys. Grande cara o Xerxe-lino, cheio de idéias...

   −Mas o Xerxelino não era um depredador de florestas, um incen- diário? −redargüi.

      Desenhou-se no rosto do delegado uma expressão de sarcasmo:

   −Foi por isso que o matou?

   −Eu não matei ninguém, acho que está disseminada nessa região uma mania de falar disparates. Não matei ninguém, nem conhecia esse ho-mem, vim passar uns dias de férias aqui em Xáguas, sou um turista.

   −Você,  galego, veio para cá como convidado da Noverbs, pensa que não estou sabendo?  Talvez você estivesse imaginando que o Xerxelino ia cortar seu financiamento e resolveu dar cabo do infeliz...

      Dito isso o delegado levantou-se da cadeira e largou os papeis que estava assinando. Mudou completamente a expressão do rosto. Afável, convidou:

   −O expediente termina agora, vamos dar uma mijadinha?




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      Fomos ao banheiro da delegacia e mijamos juntos, eu terminei pri-meiro e lavei minhas mãos vigorosamente, como para me livrar de uma sensação sinistra. Depois que fechei a barguilha, ele perguntou:

   −Porque lavou suas mãos?

      Respondi que sempre lavava depois de mijar, o homem olhou feio:

   −Pois eu não lavo − respondeu − essa bobagem de lavar as mãos de- pois de mijar eu não faço, meu pinto é mais limpo que o seu nariz, é mais limpo do que quase tudo que há por aí...

     Como comentário dei uma risadinha, ele não gostou:

   −Tá abusando hein, galego...Cuidado!

      Ao sairmos para a rua, na calçada, ele convidou-me para um café-zinho. Andando até o bar da esquina passamos por uma lan house fechada, com uma placa “passa-se o ponto”. Perguntei a razão da falta de computadores na cidade, no hotel não tinha, não vira em nenhum lugar, só o do Xerxelino.

      Ele pôs a mão pesada no meu ombro e mais sarcástico do que nunca, falou:

   −Então confessa que esteve  na casa do Xerxelino...

      Deu uma gargalhada e em seguida respondeu à minha pergunta:

   −Estamos maneirando com os computadores aqui na cidade... O po-vo ficou cismado com o que aconteceu com a Shirley...

   −O que houve com ela?

   −É uma moça aqui da cidade, ficou alterada por causa da Internet... Teve que ir se tratar no Rio...

   −Por causa da Internet?

   −Ela era vidrada em blog, sabe o que é, não é?... Ficava o dia inteiro no computador, acessava um blog e clicava todas as indicações. Em cada blog fazia o mesmo, não tinha fim, além disso, não parava de chupar umas balinhas estrangeiras. Nunca consegui entender o que eram essas balinhas e como vieram parar nesta cidade...

     

      Terminamos o café, falei “vou por aqui e.o senhor...”. Tratei de me afastar rápido em direção ao orelhão da pracinha. Minha idéia era tele-


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fonar para o meu advogado. Consegui com dificuldade a ligação e con-tei a ele, resumidamente, o que estava acontecendo comigo.

      Ele conteve a custo as risadas para conseguir me responder:

   −Tec, meu campeão, relaxa Tec, você foi aí para descansar. Controle sua imaginação, andou matando alguma mosca Ha! Ha! Ha!... Teve muita sorte em me encontrar. Estou saindo de viagem para a China, se segura ai campeão, fica calmo, lembre-se que logo a imprensa vai estar de olho em você. Fez uma pausa e falou sério:

   −Tec Lado, recomendo que você não deixe sua imaginação atrapalhar suas férias... Desculpa-me, mas eu tenho que sair correndo agora, au revoir, aproveita bastante! Desligou.

  

      Desolado, desabei em um banco da praça. Sentia intensamente a sensação de estar absolutamente sozinho no centro do continente em um fim de tarde ensolarado. O cenário em torno de mim me pareceu muito triste. Fiquei a reparar no que havia ao redor, os bancos, o coreto, a igreja. Nenhuma obra de arte ou pelo menos uma tentativa, qual seria o motivo? Será que nunca nasceu um artista por aqui? Todos aqueles dias, em Xáguas, não vi uma construção significativa, sequer uma pequena estátua, um mural, nada. Até mesmo as plantas esquálidas da praça eram arranjadas de maneira desleixada. Argumentava para mim mesmo a necessidade de uma lei que obrigasse um certo número de obras de arte para cada cidade...

      Um casal de velhinhos esbaforidos sentou-se ao meu lado. A mu-lher limpava o suor a todo o momento, estava muito aflita.

   −Perdemos o ônibus do tour – lamentava-se − Extraviamos, e agora, o que vai ser de nós? 

      O velho pedia que ela ficasse calma, mas ela continuou chorosa:

   −Estivemos na casa das compotas, íamos para o shopping dos suvenires e agora, que faremos?

     Chorava no ombro do marido.

   −Calma meu bem, calma − afagava o homem − tudo vai dar certo...

 




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      Eu também, igual a eles também estava extraviado, aliás, acho que sempre estivera extraviado na vida. Senti um aperto no coração, olhei em torno, nem sinal da minha motoqueira...

      Não demorou muito, o ônibus do tour parou rente a calçada. Pró-ximo a nós. O chofer sorridente gritou:

   −Hei!  Estão perdidos, querem ir para o shopping?

      O casal embarcou todo alegre, aproveitei e fui também. Chegando no tal shopping me deparei com uma profusão jamais imaginada de quinquilharias. Ônibus e mais ônibus descarregavam ininterruptamente turistas que circulavam disciplinadamente por entre as prateleiras abar-rotadas de anjinhos, anões, garrafinhas, tudo o que se possam imaginar como suvenires. Parei em um pequeno balcão onde ofereciam degus-tação de cachaças regionais. Depois de experimentar várias, perguntei para a moça que me servia:

    −Onde é o colégio, o internato?

      Ela deu uma risadinha, respondeu:

    −O que é internato?

      Falei para mim mesmo, mas em voz baixa:

   “Não existe mais internato, isso é uma loucura, nem sei o que estou procurando....”  Perguntei quase gritando:

   −Quem matou o Xerxelino?

      As pessoas que estavam por ali olharam espantadas...

   −Quem matou Xerxelino? − repeti gritando..

      Um homem que devia ser gerente se acercou...

   −É um turista... Está se sentindo mal...

     Uma velhinha falou:

   −Conheço ele, está no nosso hotel,  vi ele na piscina!

   −Tudo bem, tudo bem...  Tentou acalmar o gerente.

      Continuei aos gritos:

    −Quem matou Xerxelino?...

      A balconista me abanava vigorosamente com uma revista. A expressão dos circundantes era de comiseração.                                                          

     Uma voz se destacou entre as pessoas que me rodeavam:

   −Com licença, sou médico... Com licença...




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      O médico fazia parte do grupo de turistas. Era um velhinho magro, encurvado, grosso bigode, parecia o Grouxo Marx.

   −Com licença, venha comigo, vou examiná-lo.

      Segurou meu braço e caminhou em direção a saleta que o gerente lhe indicara.

   −Acalme-se senhor, bebeu, está muito nervoso, o que aconteceu? É assim... Uns gargalham, outros agarram mulheres, esse parece que se imagina envolvido em mortes...Vamos, meu senhor... Vamos, acalme-se...

      Entramos na salinha, eu ele e o gerente, eu ainda murmurava:

   −Quem matou o Xerxelino....

      O médico abriu a jaqueta e mostrou uma porchete a qual estava cheia de remédios:

   −Vou receitar um remedinho, é amostra grátis... Ele vai se acalmar... Ele vai tomar esse comprimido de amostra grátis, vai logo dormir...

      Estenderam-me no chão do escritório, sobre um tapete artesanal decorado com um desenho de um lobo guará. Mergulhei em um sono profundo.

 

      Acordei com Tereza ao meu lado que tentava me erguer:

   −Acorda Tec, levante-se, precisamos ir.

   −Levantei-me cambaleante, logo estávamos na moto vermelha, es- trada afora sob um céu fulgurante. Nem perguntei pra onde. Como das outras vezes entramos por desvios, estradinhas e trilhas. Nosso destino foi uma grande casa enfiada na mata cujos belos detalhes eram realçados pelo intenso luar.

      Fomos entrando numa sala repleta de estantes com livros. Depois de atravessá-la chegamos a um escritório. Teclando em um computador estava uma velhita, seca, em cujo rosto só se via dois enormes olhos verdes.

      Antes de entrar na casa, Tereza havia me dito que eu ia ter uma grande surpresa. Quando nos aproximamos da velha senhora Tereza se tornou solene e encenou uma apresentação:




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   −Tec Lado, essa pessoa que está na sua frente é nada mais, nada me- nos, do que a  Dra. Tereza Maria, uma das sobreviventes da lendária ci- dade de Felizcidade.

      Ante minha expressão interrogativa ela continuou:

    −Essa é minha avó, Tereza Maria.

    −Fique a vontade em minha casa − disse a senhora −   Aqui não há barulho de trânsito, mar ou cachorros, só às vezes um guará uiva por perto. Mas, não se preocupe, ele vai logo embora... Continuou:

    −Devem estar com fome, na cozinha tem uma canja que o Rosalindo trouxe agora pouco do hotel.

      Enquanto Tereza foi se trocar, sentei-me ao lado nossa anfitriã e perguntei:

   −Como era a Felizcidade?

   −Eu era muito nova quando houve a tragédia, mas sei que lá o povo não glorificava a pobreza, a pessoa podia até não ter roupa, andava de tanga ou nu, mas exibia o corpo garboso, sorrindo. As casas mais hu-mildes eram disfarçadas com fachadas mimosas. Orgulhavam-se dos que eram ricos, não havia inveja, portanto não havia pobreza... Você acreditou?... Você acredita mesmo que existiu essa tal de Felizcidade?  

      Finalizou o relato com uma tremenda gargalhada, depois ficou séria e desviou o olhar:

   −Veja,  Tereza já está pronta.

      Toda linda, com um vestido “vintage” da avó e jóias:

   −Vamos jantar? − ela me convidou.

      Enquanto nos deliciamos com a canja, Tereza contou mais sobre sua vó.

      Contou que sua avó, depois do cataclismo, ficou sob os cuidados das outras duas Terezas que eram bem mais velhas. Na escolinha re-gional, destacou-se tanto que mandaram-na estudar em Metrópolys. Especializou-se no estudo das funções específicas das regiões do cérebro. Resumindo, tornou-se uma consagrada cientista. Ao se apo-sentar, mandou construir essa maravilhosa casa onde continuava sua pesquisa. Teve só uma filha, que morreu quando Tereza nasceu.




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      Com mais de 75 anos, vivia sozinha. Rosalindo, o garçom do res-taurante, nos horários livres, limpava a casa e trazia a comida.

  

      Quando terminamos a refeição, em um breve silêncio, escutei um ruído de borbulhas. À minha pergunta Tereza explicou que como toda casa na região, aquela também tinha um lago no quintal. “É só fazer um furo. Depois do bafo de enxofre, a água vem aos borbotões”.

      Convidou-me para tomar um banho. Mais uma vez esqueci os efei-tos que aquelas águas provocavam em mim, as aparições, o clone...

Ficamos nus e mergulhamos. Com nossos corpos mergulhados, a teoria de Elaine Morgan se comprovou definitivamente. Pelo menos foi isso o que pensei na ocasião. Lembrei-me com intensidade da cientista que ba-talhou a vida inteira defendendo a idéia de que descendemos de ma- cacos que viviam na água.

      Ali estávamos, pois, dois macacos despidos, bichos sem pelagem rabeando sensualmente. Eu mais do que nunca, um macaco ancestral, a tentar e ora conseguindo morder e lamber o fruto que se oferecia e fugia em espasmos que turbilhonavam a água efervescente. Não trocaria por nada aqueles momentos que estávamos a viver mesmo sabendo o que viria depois... os delírios... o clone.

  

      Mais tarde ele apareceu. Quando eu estava sozinho na sala a folhear um livro que peguei ao acaso ele materializou-se, dessa vez triste e refestelado na poltrona a minha frente.  Recitou em voz baixa olhando-me nos olhos:

                   Apresento-me sem nenhuma sobrevida

                   À coisa vital que se impõe.

                   Em meu bolso um poema amarfanhado

                   Só um o que foi feito à vida toda.

 

                   Apresento-me assim, sem mais valia.

                   À tela em que a cena é projetada.

                   No meu ensaio, que é de gestos convenientes.

                   Nenhum se enquadra no roteiro conivente...




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    −Tec, está falando sozinho? Tereza sacudia-me com força    Acor -da Tec,  vovó está perguntando!

   −Quem é você,  o que faz? − perguntava a velha senhora  − Qui est toi?

      Aquela voz rouca que me argüia se juntou a uma estranha música vinda de algum lugar da casa.  Ela estava de costas para sua mesa de tra-balho atulhada de papéis, e objetos em desordem. Ao seu redor um imenso computador. Ainda não ouvia o que ela perguntava, agora mi-nha atenção estava perdida nos detalhes do escritório e se fixou em uma caneca com estampa do Picasso. Havia uma bandeirinha dentro da ca-neca com um símbolo vermelho que a distância não me deixou distin-guir com nitidez.

   −Quem é você − ela continuava a perguntar.

      Respondi pausadamente:

   −Sou Tec Lado, enxadrista.

   −Enxadrista! − virou-me as costas e resmungou:

   −Pode-se ganhar a vida com isso? − Sabe quanto eu tive que batalhar para chegar até onde eu cheguei?

      A neta veio em meu socorro:

   −Tec é um grande enxadrista vovó.

      Tereza percebeu que eu olhava com insistência para a caneca, pe-gou-me pelo braço e me levou até perto da estante:

   −Está vendo essa bandeirinha aqui?  Parece propaganda política, mas não é, leia o que está escrito.

     Uma bandeirinha branca com um símbolo vermelho: Internato 3T. Interrogava-a com o olhar quando o celular dela chamou. Tereza aten-deu e me passou o aparelho:

   −O delegado quer falar com você...

  

   −Alô?  É o galego?... Escuta aqui cara, você não tem nada o que fazer aí, cai fora já, deixa a cientista em paz, larga da moça cara, vai pro hotel e fica quietinho lá... Desligou.

   −Bem... Acho melhor eu ir embora...




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      Ela segurou meu braço:

   −Antes que você vá, quero lhe mostrar uma coisa.

      Passamos por um corredor e vimos por uma pequena vigia um la-boratório onde havia centenas de gaiolas com gatos! Sim, todos amare-los, quase idênticos entre si.  Tereza explicou:

   −É tudo digital, ela controla tudo no computador.

   −Mas para que é essa pesquisa?

   −É para... Não sei... Sei lá...

      Ouvimos o chamado de uma buzina de moto.

   −Pedi para o Rosalindo vir, vai lhe levar, o hotel fica pertinho daqui.

      O Rosalindo me esperava montado em uma pequena motocicleta. Um sujeito interessante, fora do trabalho sempre usava batom.

      De fato, o hotel ficava muito perto dali, entretanto o tempo do percurso foi suficiente para por alguma ordem nas coisas que eu agora estava sabendo. O tal do Internato tinha conexões com Tereza Cristina em Newxáguas, a pista foi a mulher no cinema. Relacionava-se também com o Xerxelino, a evidência era aquele bilhete que achei no chão. E agora, por último, com a cientista Tereza Maria, qual a razão da bandeirinha? ...3T... As Três Terezas...

  

      No hotel, na piscina, apesar da quase madrugada ainda tinha gente. Uma das pessoas que estava na piscina era o pastor. Este quando me viu, chamou:

   −Hei! Tec. Chega aqui... Quero falar com você...

      Como eu ainda estava com fome resolvi me trocar, mergulhar e tomar uma caipirinha acompanhada das mini-coxinhas. Quando já esta-va na piscina o pastor aproximou-se:

   −Como está a política Tec? 

   −Completamente por fora do mundo virtual,  penetrado nos mean- dros da realidade misteriosa de Xáguas respondi outra vez com um gesto que podia significar qualquer coisa

      Fez uma cara de sofrimento e desatou a discursar:

   −Tec Lado, eu estive refletindo em cima das palavras que eu lhe disse outro dia e tive novas idéias, ouça essa... Muitos pobres pensam que as


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pessoas só ficam ricas sendo desonestas. Se um deles adquirir poder terá que viver perto do luxo, achará natural ser desonesto...

      Só então reparei que ele já devia ter tomado muita cerveja. Estava se equilibrando precariamente em cima de uma bóia. Continuou:

   −Tec Lado, poder, dinheiro e sexo, é ai que está a perdição, eu prego isso.... Tec, recebi um chamado, doei tudo o que tinha... Poder, dinheiro e sexo, essa é a perdição...

  

      Fui para o quarto e fiquei esperando o clone aparecer. Tinha caído na piscina, isso com certeza invocaria a sua presença. Mas, desta vez não veio, ainda bem.

     Tomei um banho e ao fazer a barba,  frente ao espelho, meu rosto me assustou muito! Estava ficando diferente! Tentei me acalmar e pen-sar em outra coisa.

     Deitei-me e estranhamente, em vez de meditar nas Terezas e seus mistérios, me lembrei de uma blogueira enxadrista que conheci pouco antes de viajar. Ela insistiu durante meses pedindo que eu jogasse com ela pela Internet. Afinal, quando concordei, a todo o momento inter- calava as jogadas com frases como “você vai me comer minha rainha”, “não me come minha torre... ai... ai... ai e outros suspiros”. O template do blog dela era um tabuleiro com peças cor de rosa e vermelhas cheios de fadinhas posando nas torres ou agarradas aos peões. Daí as lembranças foram para a história que o delegado contou, da blogueira que foi internada... Imaginei essa blogueira escrevendo todo dia durante meses a fio sem nunca receber um comentário, sequer uma visita... O registro de visitas que fica no fim da página estava sempre no 1, no 2 ou no 3... Eram acessos que ela mesma fazia... e isso acontecia apesar dela visitar centenas de blogs diariamente deixando em cada um deles meigos, calorosos até frenéticos elogios. Será que fora essa a razão de seu desequilíbrio? Em seguida meus pensamentos desviou-se para os arquivos do blog do Xerxelino, o qual imaginei nu frente ao com-putador, babando ao teclar frases melosas de aliciamento, infiltrando-se entre moçoilas, dissimulado com palavras como “lambida” e “penu-gem...” O dia tinha sido infernal, logo adormeci...




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Segunda Feira

     

      Aquela segunda feira seria um dia típico de turista. Preenchido cer-tamente com passeios a lugares pitorescos e brincadeiras na piscina. Não faltariam as visitas às lojinhas de doces e souvenires...

      Mas não seria um dia assim para o turista Tec Lado. Na mesa do café da manhã estranhei uma grande manteigueira repleta de manteiga salgada amarelinha na temperatura ambiente em vez daquelas abo-mináveis caixinhas geladas.  Também na mesa, bem visível, uma plaque-ta “visite a nossa cozinha”.   Rosalindo, o garçom, explicou enfático:

    −Gentileza da cozinheira.

       Em seguida perguntou, fazendo trejeitos óbvios:

    −Viu a placa? 

      Terminado o café fui à cozinha, onde a moça gorda me esperava. Logo ao entrar chamou-me a atenção duas garotas com os seios desnudos, atarefadas a picar verduras. A cozinheira percebeu meu estranhamento e pediu para não reparar. Disse que suas ajudantes eram aborígines e em seguida, inquieta, tentou me explicar a comida que estava preparando.

   −É uma empada que leva frango e dezenas de outros ingredientes... Uma delícia, afirmou.

      Continuando a conversa logo apareceu a pergunta que já estava se tornado habitual para mim:

   −O senhor não é o Vice Govern....

   −Não, sou Tec. Tec Lado, turista apenas.

   −Meu senhor...

      Ela começou a chorar elevando ao rosto o avental sujo de temperos:

   −Tenho muitas saudades do meu filho, tem os olhos iguais aos seus...  Estou muito preocupada com ele, parece que está acontecendo alguma coisa lá no colégio...

   −Seu marido não é um  chofer de praça que machucou a testa?




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   −É, como sabe...

   −Eu conheço seu marido, ele me falou de seu filho. Onde está seu filho?

   −No Internato 3T.

   Onde fica esse Internato?

   −A oeste, a alguns quilômetros daqui, estou muito preocupada, estão dizendo que estão acontecendo coisas lá.

     Quando me preparava para perguntar a ela mais detalhes do lugar, adentrou esbaforido na cozinha um dos porteiros do hotel:

   −Senhor, senhor, o moto-taxi que chamou urgente já chegou!

      Eu não tinha chamado moto alguma, só podia ser Tereza. A cozi-nheira me olhou súplice:

   −Quem sabe... Tereza lhe ajuda a chegar lá...

  

      Montei na moto e bem agarrados rodamos até aquele bar no qual pela primeira vez vi seu rosto. O bar do Simenes. Sentamo-nos na mesma mesa. O saco de livros não estava mais lá, mas algum engra-çadinho tinha arrancado a página com a foto do homem de pênis des-comunal e pregado na parede do boteco. Uma voz chorosa com sotaque gaúcho vinha de algum rádio nos fundos do bar.

   −Lupicínio Rodrigues − identifiquei.

     Tereza cochichou:

   −O Simenes anda sofrendo por causa da mulher dele...

      Conversamos sobre o caso da cozinheira. Quando lhe contei onde devia ser a localização do colégio ela respondeu que devia ficar perto do lugar onde paramos naquela vez em andamos por lá, além do lugar onde estavam as moto-serras.  Quase chegamos ao lugar naquele dia.  Insistiu que precisávamos ir até esse colégio.

   −Mas Tereza, eu não quero, não preciso me envolver com essas coi-sas  Basta-me ficar perto de você.

      Sua resposta foi um olhar que me convenceu que eu já era um personagem do enredo que se desenrolava nas vísceras de Xáguas.

   −Foi você quem matou o Xerxelino?

   −Não, claro que não, o que tem a ver uma coisa com outra?




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   −Então, do que está com medo?

   −É claro que estou com medo, não há regras, falta lógica, não estou entendendo o que se passa aqui e acho que você não me conta tudo o que sabe...

   −Como eu lhe disse antes, estou há pouco tempo nessa cidade...  Mas, desde que cheguei vejo coisas bem estranhas... Se lhe contasse que há uma placa na estrada “abaixo as plantas e animais silvestres, estão acabando com nosso oxigênio”, você acreditaria? Se eu dissesse que há por aqui uma cidade em que os habitantes são pressionados para irem ao cinema todo dia você acreditaria? Seu advogado acreditou no que você disse a ele?

   −Mas eu não tenho nada com tudo isso.

   −Tem sim, você saiu do pacote, se envolveu, não tem volta.

      Fomos interrompidos por um enorme automóvel que se afocinhou subindo a calçada. Derrubou mesas e cadeiras. Um cadillac preto e reluzente estancou rente a minha perna. O chofer desceu, contornou e abriu a porta.

      Emergiu do carro um homem alto e magro trajando uma roupa preta com detalhes roxos, colarinho de plástico branco e um boné. Um boné branco com um símbolo vermelho, 3T. Dentro do carro, três gatos amarelos, me olhavam atentos. O homem foi para os fundos do bar.

   −É o padre da foto na casa do Xerxelino! − Exclamei.

   −Ele veio buscar as compotas, explicou Tereza, vem todas as segun- das feiras desde começou essa mania de doces em calda na região, essa fabriqueta lá nos fundos foi a pioneira.

   −Quem é ele? O Dorceu?

   −Sim, ele é o Dorceu!

 

      Sem dúvida uma figura impressionante aquele homem com quase dois metros de altura. Quando voltou carregava potes de compotas enrolados na parte da frente da batina a qual ficava levantada deixando entrever as botas. Botas que rangiam quando ele atravessou apressa-




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damente o boteco.  Silencio total até o cadillac ir embora atropelando mais algumas mesas e cadeiras.

      Dorceu existia, estava vivo, o filho de Tereza do Céu uma das sobreviventes do cataclismo, a lendária mulher que atravessou o oceano atlântico com uma galinha.

      Tirei os olhos da mancha vermelha com que ele marcou o chão ao deixar cair um vidro de compota quando passou por mim e os fixei em Tereza:

   −Então é esse o Dorceu? Ele vive lá no internato? Se você sabia porque nunca me contou?

 

    −Há muitas histórias nessa cidade, é tudo muito nebuloso, a gente não sabe de tudo − ela respondeu. − Muita coisa que você precisa ver e saber se quiser ir embora  e me deixar − emendou fazendo cara de choro...

      Continuei  olhando para ela meio pasmo. Evidentemente, lidar com Tereza em nada se parecia com um jogo de xadrez... Linda e ilógica.

      A música do Lupicínio continuava a tocar e emoldurava aquela ce-ninha que ela fazia. Cena que não durou muito porque aquele era um dia de prejuízos para o Simenes. Desta vez foi a o jeepão amarelo do Delegado que trombou com as mesas e cadeiras que ainda estavam de pé. Também parou bem pertinho de mim:




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   −Galego, você me aporrinha Galego, larga da moça cara, sai daqui cara, é a ultima vez que  vou avisar!

      Passou por nós e adentrou o bar chamando o Simenes, pedindo uma cerveja. Depois, com o copo na mão, o insistente homem da lei distraiu-se a olhar de perto a foto do rapaz do pênis colossal. 

      Aproveitamos para fugir. Na pressa não colocamos os capacetes de maneira que podíamos conversar. Trocamos idéias de como ir a tal escola e chegamos à conclusão que seria melhor eu ir sozinho. Chegaria lá em um táxi, me apresentaria como um pesquisador interessado em métodos de ensino, qualquer coisa assim. Também concluímos que o melhor taxista para me levar seria evidentemente o homem que tinha um filho no colégio.

  

      Numa cidade pequena e quente como Xálguas onde a modorra como que cristaliza o cenário, não foi difícil encontrar o marido da cozinheira deitado no banco dos taxistas. Ele demonstrou constra-ngimento com a perspectiva de se aproximar dos domínios do Dorceu, mas a preocupação com o filho fê-lo concordar.

      O velho carro naquela manhã de calor intenso fedia como nunca. Quando passamos pela placa que indicava a entrada para Newxáguas vimos uns papéis dispersos pelo caminho. Paramos para ver o que era.

Partituras de músicas, “Siboney”...“Lacumparsita...” J’atendrai... Smoke gets in your eyes...”.

      O chofer ponderou:

   −Provavelmente  pertencem aos músicos da orquestra que vai tocar em Newxáguas. Deixaram elas caírem ao descer da van para ir a pé até lá.   Todo mês, na primeira segunda feira a prefeita oferece um baile...

      Mais adiante passamos pela incrível placa do Xerxelino: “Abaixo a floresta e os animais silvestres, eles estão acabando com nosso oxi-gênio”. O cartaz estava lá, firme e impávido, mesmo depois da morte do homem.

      Durante a viagem aproveitei para perguntar ao chofer sobre a história do cataclismo, queria saber se ele sabia alguma coisa a respeito do meteorito... Dos belgas.

 




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   −Bem doutor, o povo fala muita coisa, tem muita lenda a respeito, já faz muito tempo... Doutor, naquela época aqui tudo era deserto de gente. Felizcidade era um acampamento dessa gente que quer outra vida... Outro jeito de viver... Acho que eram naturistas, sei lá... Viviam isolados, doutor... Muitos dizem que andavam pelados, mas eu não acredito... . Tem a história do meteorito, doutor, mas tem gente que conta outra coisa...

   −Que coisa?

   −Corre que havia estilhaços de bomba por lá.

   −Estilhaços? Então foi uma bomba?

   −Dizem  que um avião, B vinte não sei o que, largou a bomba e de- pois caiu... Acho que era um avião americano extraviado da guerra, doutor, falam também que um dos pilotos se salvou e andou por ai com as Terezas, parece que o gringo era belga, um cara grandão com mais de dois metros de altura...

   −E os restos do avião?

   −Não se sabe não doutor, um fala uma coisa outro fala outra , quem vai saber....

      Estávamos chegando perto do nosso destino. Como que prenun-ciando acontecimentos malinos o céu de repente se fechou com nuvens. A manhã que estava ensolarada escureceu e uma chuva forte começou. Com o limpador do pára-brisa quebrado, prosseguimos com grande dificuldade, na estrada que se tornara estreita e tortuosa...

      Penamos durante algum tempo, mas de repente as nuvens se foram e o céu voltou a ficar claro.  Quando a mata rareou topamos com uma placa, “Internato 3T”.  Daí para diante como não havia mais caminho, fomos por um gramado que se estendia até um casarão acinzentado. Rodamos até perto de uma meninada que jogava futebol. Foi quando a bola com que jogavam correu para baixo do carro e estourou.

      Apeamos e um dos meninos veio correndo em nossa direção. Sem mais nem menos pespegou um violento chute no meu saco e saiu cor-rendo.

      Com uma dor infernal comecei a me ajoelhar devagarzinho. Ouvia a voz do chofer zunindo nos meus ouvidos:




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   −Machucou doutor... que coisa doutor... tá doendo doutor... o menino deve ter 13 anos... nessa idade... 13... eles são terríveis... é uma idade maldita, doutor...  bem fazem os índios que mantém os diabinhos dessa idade no cercado doutor...

      Daí em diante não ouvi mais nada, desmaiei.

      Ao acordar eu estava em um grande sofá puído, num ambiente com teto abaulado. Um grandalhão numa cadeira giratória me olhava a sorrir. Indubitável, aquele homem era o Dorceu.

    −Onde estou? − perguntei
   −Em uma super-fortaleza voadora B 29   ele respondeu.

      Incrível, eu estava dentro de um avião invadido por trepadeiras, cipós e samambaias.

      Dorceu levantou-se e estendeu as mãos mostrando-me o cenário que ficava ainda mais estranho com sua figura a arrastar pelo chão a batina preta. Falava-me com voz troante:

   −Esse avião caiu no fim da segunda guerra. Eu o descobri quando criança. Era meu refúgio. Minha mãe, a milagreira, me obrigava usar batina e a rezar, rezar horas a fio, ou então eu tinha que ajudá-la nos milagres... Depois que fez aquela viagem a Europa virou curandeira... Eu fugia para cá, ficava lendo, remendando o avião, está vendo essa bomba, foi a que sobrou, veja como brilha, eu a lustro todo dia...   Aquela metralhadora ainda funciona é uma browning 12,7 mm... A torreta é ativada por controle remoto... Dizendo isso ele acionou a arma que disparou uma rajada e nos inundou com fumaça e com o chilreio dos pássaros da mata em torno.

      Eu sabia que certos donos de colégio são meio excêntricos, mas aquele extrapolava todas as linhas divisórias.

      Ao contrario de mim, que ainda amargava o saco inchado e dolo-rido, ele estava excitado, não parava de falar:

    −Aqui é meu escritório, continua sendo meu refúgio, quando eu não estou mais agüentando os meninos,  venho para cá.

      Puxou-me pela camisa:

    −Venha aqui, na cabine de comando, venha aqui −  disse ele − Sen-ta no banco do co-piloto, está vendo aquele prédio cinza?




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    −É o meu colégio, o internato 3T.

     

 

      Através das janelas quebradas do avião em ruínas vi o prédio do colégio. Situado no centro de uma grande clareira impecavelmente ajardinada. Havia também campinhos de futebol e piscinas. A aeronave sinistrada estava na borda da mata, bem atrás do casarão. Dorceu continuou falando:

   −Está vendo isso aqui?

      Mostrou uma foto em que tripulantes posavam ao lado do avião. Está vendo, esse aqui é o belga. Os outros morreram na aterrissagem forçada, só o belga se salvou. Estavam no norte do continente, volta-riam para casa, mas houve alguma anomalia na bússola...  Caíram aqui, desfizeram-se de uma bomba antes de cair, a outra não deu tempo... Esse belga era meu pai, eu não o conheci...   Depois do acidente, o belga, desnorteado, vagou por aí e encontrou-se com as três sobre-


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viventes.  Juntou-se a elas, as três Terezas. Viveu com elas um bom tempo. Tiveram filhos. Eu e Céuma, filhos de Tereza do Céu e Olga, filha de Tereza Cristina... A outra Tereza, a Tereza Maria, era criança ainda.

      Percorremos o interior do avião e ele foi me mostrando objetos... Restos de material bélico... Foi então que percebi um menino sentado na mesa do navegador, cabeça baixa, escrevendo.

   −Esse é o menino que lhe chutou, ele vai copiar cem vezes o artigo 19 do manual do colégio, o artigo que diz em dez linhas que não se deve fazer o que ele fez, são  mil linhas, ele vai apreender... Senti o gos-tinho da vingança, pois meu saco ainda doía demais, mas também senti dó do garoto. Saímos para o gramado e olhei para trás, o bombardeiro ainda mantinha a silhueta ameaçadora apesar de roto e semi coberto pela vegetação.  

      Dirigimo-nos apressadamente em direção ao prédio, mal podia acompanhá-lo:

   −Vou mostrar-lhe o internato, disse.

      Logo ao entrarmos no casarão vi uma plaqueta onde estava escrito “Quem não é casto não é macho”.

      Acenando para a placa Dorceu explicou:

    −O mais difícil aqui é controlar a libido da molecada.

      Andamos por um corredor comprido com várias portas a deixar entrever pelas bandeiras, classes com alunos. Entramos em uma delas, imediatamente todos os alunos se levantaram. O professor que coman-dava a sala cumprimentou-nos com reverência. Não deixei de reparar, acima do quadro negro, em outra placa, a mesma frase. “Quem não é casto não é macho”.

   −Como vão os trabalhos? − perguntou Dorceu ao professor.

   −Vão bem, doutor Dorceu...  Hoje é o Marcos que é o presidente. Ao palanque, Marcos!

      Um menino de mais ou menos 13 anos, bem arrumado, cabelo em- gomado, veio até o tablado frente à classe e começou a discursar.




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   −Cidadãos do meu pais! Jamais permitirei a palavra pobreza no meu governo, pobre é uma palavra que designa fracos e invejosos, no meu governo todos serão ricos e vaidosos, todos ser...

      Dorceu pegou-me pelo braço:

   −Vamos deixá-los, o que achou?... Tenho 220 meninos aqui...  Quero que sejam grandes políticos...

      No fim do corredor havia outro, transversal, onde tivemos que parar para dar passagem a um bando de garotos vestidos com roupões.

Andavam em fila, arrastando chinelinhos.

   −Estão indo para o banho − disse Dorceu − Jamais ficam nus entre eles, se trocam debaixo dos roupões...

     Nesse corredor vi mais uma placa. “Quem não é casto não é macho”.

   −Quando a fila dos meninos terminou de passar, Dorceu observou:

   −Eles tomam banho de água fria, nesse lado da região não tem águas medicinais.

      Prosseguimos, entramos em outra classe. As crianças cantavam em coro desafinado: “Marina morena você se pintou /Não pinte este rosto que é...”.

    −O que é isso? − Interrompeu Dorceu aos gritos − Quem mandou cantar? Não está no programa!

    −É que eles estavam muito inquietos, foi para acalmá-los, explicou o professor daquela classe.

   −O que é isso? Daqui a pouco estarão dançando ou discutindo o drama das mulheres da conchinchina, nada disso, chame um menino e mande-o apresentar uma idéia para melhorar a situação nesta região!

      O professor pediu que um deles se apresentasse no tablado.    

   −Nesse calorão... − Começou a discorrer o garoto.

      Pigarros, risos...            

      Titubeante ele continuou:

    −Aqui nesse lugar, com esse calor, seria bom as cidades começarem com uma cozinha...

      Risos...




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   −Sim! Uma enorme cozinha para todos os habitantes, seria a única parte coberta...  Em volta todo mundo ao relento, nus, trabalhando como atendentes de telefone, em computadores, ciência, propaganda, essas coisas...

      Risos. Mais vaias... Dorceu interferiu:

    −E se chovesse nobre pequeno deputado, como ficariam os apa- relhos?

   −Seriam a prova d’água, diretor...

      Gargalhadas e vaias...

   −Que nota você daria para ele Tec? − perguntou Dorceu.

   −Acho que só merece quatro porque esqueceu dos banheiros

      Saímos da sala, ele colocou a mão no meu ombro:

   −O que achou Tec, criatividade, idéias, eles serão grandes políticos...  os homens amam o poder por que lhes passa a sensação de criar, a criação é a única coisa que dá felicidade ainda que momentânea... Está vendo esse lugar aqui?

      Mostrou-me um cubículo debaixo de uma escada, escuro, com uma portinhola.

   −Outro dia uma mulher entrou escondida no internato, veio até aqui e se ofereceu. Fizeram fila, foram nove antes que descobríssemos, o restante da turma ficou sabendo, ficaram ensandecidos, você não ima- gina o trabalho que deram...

   −E... a moça?

   −Uma retardada, deitou aqui, abriu as pernas na maior alegria...

      Dorceu estava muito agitado, não parava de falar. Parecia que alguma coisa o perturbava demais.

   −Você deve estar curioso para saber por que me visto assim, não é?

   −Não...

   −É uma marca, diferencia, ajuda , você se sente eleito, não vê que os presidentes, prefeitos, com raras exceções, são esquisitos, um bigo- dinho, um cacoete... Você deve estar com fome, não é? Vamos chamar o pessoal para o almoço.

      Fomos até o pátio onde findas as aulas e o banho, os garotos aproveitavam o intervalo.




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      Dorceu trilou um apito que tirou do bolso, imediatamente entraram em fila.

   −Vamos para o refeitório que hoje tem bife de fígado!

   −Não.. .Bife de fígado não... − murmurei.

      Entramos em silêncio no refeitório e cada aluno ficou em pé perto de sua cadeira, em mesas compridas, num grande salão. Ao ouvirem mais um apito recitaram em coro: “Quem não é casto, não é macho!”. Só então puderam se sentar. Sentamo-nos também eu e Dorceu numa mesa que ficava em cima de um tablado dominando todo o ambiente. Olhei com horror para o enorme bife de fígado que estava no meu prato. Enquanto reunia toda as minhas forças para tentar comê-lo co-mecei a reparar que os bifes desapareciam rapidamente dos pratos dos meninos. Observando melhor vi que eles jogavam os mesmos disfar-çadamente para debaixo da mesa.

      Aproveitei uma distração de Dorceu e fiz o mesmo. 

      O homem da batina cada vez parecia mais nervoso, olhava toda hora para os lados, preocupado. Não parava de falar:

   −Tec você me acha um homem bonito? Quem é mais bonito, eu ou você?

      Ainda bem que ele não me dava tempo para responder àquelas per-guntas malucas, continuava falando:

   −Tec, quem é mais bonito, eu ou você?... Deve ser você, anda pe-gando aquela menina, Tereza, estou sabendo...  Olho azul... Acho que você é um come-quieto... Pensa que eu não sei que eles jogam os bifes para debaixo da mesa?...Isso já virou uma tradição aqui no internato, desisti a muito tempo de impedi-los, esses moleques... Eles que passem fome como sempre no dia do fígado...

      Ausentei-me da conversa e passei os olhos pelo refeitório. Ali não havia 220 meninos, talvez uns 150, onde estariam os outros?

      Já estávamos na sobremesa, uma banana e fatia de marmelada, quando Dorceu aproximou seu rosto junto ao meu e falou com voz pausada:

   −Tec, faço questão de comer junto com os meninos mas eu sou um homem muito, muito rico, viu minha Ferrari? É azul, vou lhe mostrar...


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È zero, zerinho, encomendada... Minha mãe era a Tereza do Céu, a milagreira, tinha muitas terras, as águas borbulhantes... Tenho muitas terras, tenho as águas, as Terezas pegaram tudo isso aqui para elas... Eu herdei...

      Como eu já percebera, Dorceu, paroxístico, emendava um assunto com outro, não parava de falar:

   −As mães choramingam, a cozinheira do Hotel Grã Xáguas vive res- mungando, com saudades, mas eles acabam mandando os filhos para cá, quem não quer que seu filho seja um político famoso, muitos até não pagam, eu subsidio....

      Terminado o almoço, com mais um apito, os alunos repetiram “Quem não é casto não é macho”.

      Quando alcançamos o pátio, Dorceu se distraiu agitado e afastou-se sem dizer palavra, deixando-me plantado, sozinho. Esqueceu-se de me mostrar a Ferrari.

   −Surgindo do nada o chofer do Cadillac, aquele que eu vira no bar por ocasião da derrubada das mesas, aproximou-se:

   −Seu Dorceu mandou levá-lo ao hotel.

      Fomos até uma passagem que dividia o casarão em duas alas. Ao atravessá-la vi uma pequena placa com uma seta: “Artistas”.

      Continuamos, o grande carro negro estava estacionado mais ao lon-ge nos esperando. Disse para o chofer:

   −Rapaz, espere um pouco que estou muito apertado!  Repetindo que precisava ir ao toalete corri para a entrada onde tinha visto a plaqueta “Artistas”. Ao entrar, imediatamente senti um forte cheiro de benzina.

      Segui por um corredor que também conduzia às salas de aula e en-trei em uma delas. Não havia carteiras e sim umas doze pranchetas, algumas quebradas. O barulho de uns três radinhos de pilha ligados ao mesmo tempo, misturados a gritos e risadas, aturdiu-me momenta-neamente. Na primeira prancheta um menino espalhava cola benzina com a palma da mão. Passava e repassava a cola em uma prancha com indizível deleite.

      Aproximei-me de outra mesa e vi que um outro desenhava com-pulsivamente a letra “D”.  Ao seu lado havia dezenas de esboços da


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mesma letra. Nesse momento um vidro de tinta nanquim espatifou-se em cima do “D” respingando pra todo lado. Entre os berros que o acontecimento provocou, um dos meninos tirou uma guitarra que estava debaixo da prancheta e começou a dedilhar freneticamente.

 

   creso

 

      Na confusão tentei sair dali e tropecei em um dos coelhos que cor -riam assustados pelo chão da sala. Cai, me levantei e alcancei o cor-redor.

      Mais à frente entrei em outra porta. Nessa classe havia uma bal-búrdia pior. Os meninos aparentavam estar em uma assembléia, libelando contra alguma coisa. Gritavam e chutavam os móveis.

      Evitei que me vissem e tratei de dar o fora. Voltei apressado para o pátio e fui em direção ao carro.




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       Sentei-me no banco traseiro do carrão, me servi no bar do mesmo de um dry Martini e suspirei aliviado. Jamais em minha vida pensara que reviveria o horror de estar em um departamento de arte. Era real, eu tinha tropeçado em um coelho!

      Com certeza, no momento em que estive lá, os meninos estavam exercitando os enlouquecedores e necessários fundamentos do desenho das letras da família Ariel.  Especificamente a letra "D", seria o D de Dorceu? O que será que iriam fazer com o grande caractere colado com cola benzina numa prancha vermelha?

 

 

  

       

     

      Bebi um gole do drink e relaxei no confortável banco de couro. Sentia-me saído de uma façanha. Como se tivesse realizado uma missão encomendada pela minha rainha. Sobretudo saciado uma grande curio-


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sidade. Refleti que em relação aos meus problemas com o delegado, aquilo tudo que eu tinha visto por enquanto não significava quase nada. Entretanto, havia o nervosismo do Dorceu... e a mixórdia da criançada não era normal. O que será que estava acontecendo?

      O chofer interrompeu meus pensamentos:

   −O seu Dirceu falou que é para deixar o senhor no hotel. Disse que não quer vê-lo mais pelas bandas do colégio.

      −Fale para o senhor Dorceu ir à merda! − respondi.

      Tomava mais um gole quando vi Tereza acenando junto a janela. Pilotava sua moto, emparelhada com o carro. Fez sinais que pareciam indicar algum acontecimento mais a frente. Depois acelerou e sumiu no horizonte.

      Continuei minhas reflexões. Em parte o Dorceu tinha razão em me mandar ficar quieto no hotel. Afinal eu era um sujeito de meia idade pertencente a um pacote turístico. O mínimo previsto era que me com-portasse como tal.

 

      O interior refrigerado do carrão contrastava com o sol que reber-verava no asfalto.

      Subitamente paramos. Na nossa frente estava uma moto caída e ao lado um corpo.  Meu coração disparou! A moto vermelha! Tereza! Será que estava machucada? Desci e fui aos pulos acudir. O chofer me acompanhou. Assim que nos aproximamos o motoqueiro se levantou e começou a me empurrar de encontro ao automóvel...

   −Vamos! Vamos... Depressa...

      Como sempre, era Tereza exercendo sua vontade avassaladora. Empurrou-me para o volante e mergulhou no banco ao lado. Como o motor estava funcionando, ela desprendeu o freio de mão e enfiando a perna entre as minhas, pisou no acelerador. Só me restou controlar o carro.

      Foi assim, mais uma vez, que ela me fez me apossar de um auto- móvel que não era meu.




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     Contra ou a favor das minhas expectativas, lá estava eu novamente, dirigindo um carrão luxuoso ao lado de uma linda mulher.Olhei para ela:

   −Pra que tudo isso, você está maluca?

      Ela respondeu:

   −Tudo não vai se acabar na quarta feira?

      O som do carro tocava a música do Jobim.

    Eu estava com grande dificuldade para olhar a pista, pois Tereza tinha se livrado do macacão e estava descalça com as coxas a mostra. Quase olhando para os dois lados ao mesmo tempo, perguntei:

   −Vai deixar a Harley novinha abandonada na estrada?

 

creso

 

   −Xáguas fica do lado de cá do rio, desse lado não há problema, você não percebeu o estilo da grande autoridade do lugar?

  −O Delegado?

   −Isso mesmo − ela respondeu − aqui nessa região de Xáguas o homem toma conta de cada palmo...




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   −Então você agora pode me dizer para onde vamos... e o que vai acontecer se ele me pegar com esse carro roubado...

   −Risonha, fingiu que não me ouviu:

   −Tec Lado, sabe que sua cara está mudando? Que coisa estranha, o que está acontecendo?

   −Não sei, estou mais bonito?

   −Ela mudou de assunto novamente:

   −Tec Lado, é esse mesmo seu nome? Que esquisito...

      Não conseguia conter o riso... Soltou uma gargalhada... Por que não Mony Thor?... Nick Mouse? −  Não se agüentava de tanto rir...    Continuou:

   −Você é mesmo enxadrista? Como é ser enxadrista?

      Não continha as gargalhadas. Batia os pés no painel, desnudando mais ainda as lindas coxas.

 

  Creso

  

   −Meu avô, Lado, nasceu na Croácia, Tec por que ia ser Ted e erraram na hora do registro....

   − Ela não parava de rir:




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   −O que você fala pra sua mulher... Meu bem... Vou trabalhar...   Arruma-se e sai para jogar xadrez?

      Contorcia-se de tanto rir...

    −Sou solteiro... Nunca me casei... Agora chega de galhofaria e me diga o que vamos fazer com esse carro, para onde vamos?

      No momento, por mágica, a música no rádio do carro era outra vez Body and soul com o Django. Entremeava-se felicidade à minha aflição. Sentia-me deslizando como uma pluma ao sabor do insólito.

      Mas nesse filme cuja estrela era a minha companheira ali do lado não havia intervalos. Inopinadamente tive que frear. Um lobo guará atravessava a pista.

   −Esse bicho não sai só de noite? − perguntei.

   −Atacam de dia também −  respondeu com um sorrisinho malicioso.

      Parados no acostamento ficamos um momento em silêncio.  Perguntei:

   −Que idéia essa de pegar o carro, que faremos com ele?  Daqui a pouco, Delegado, Dorceu, sei lá mais quem estarão atrás de nós...

    −Você não está gostando? − vamos passear mais um pouco, deixa- remos o carro no bar da Lurimar. Lá eu arranjo alguém para devolvê-lo.

   −Para quem gosta de aventura você é a companheira ideal.

      Com a chuva da manhã, a estradinha que levava até ao “american bar” estava muito barrenta. Aquele carrão não era feito para andar nela. Atolou. Acelerei, nada, afundava cada vez mais na lama. Como a boate não estava longe, Tereza foi buscar ajuda. Voltou acompanhada de umas sete garotas vestidas sumariamente. Animadas, entre risos e brin-cadeiras resolveram cantar uma música funk enquanto empurravam o automóvel.  Quando desatolou, encarapitaram-se nele. Foi muito difícil chegar até a casa porque uma delas subiu no capô colocou sua bunda despida prensada de encontro ao pára-brisa. Era a mesma mulher que me provocara da outra vez em que estive no lugar.

   −Essas mulheres estão muito assanhadas − disse Tereza quando apeamos  − vamos para a casa da minha avó que fica bem perto daqui.

      Fomos a pé por uma trilha que atravessava o pasto das vaquinhas da Lurimar. No caminho nosso assunto ficou parado nas façanhas da avó.


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Tereza reiterou não saber do que se tratavam as pesquisas. Também estava curiosíssima, principalmente de uns dias para cá, pois a cientista parecia-lhe intensamente descorçoada... Desesperada mesmo... Ansiava saber o que estava acontecendo com a doutora.

      Já no meio da tarde chegamos à casa. À casa de Tereza Maria, única das três naturistas ainda viva, sobrevivente da tragédia que abateu o povoado de Felizcidade. Fomos entrando pela sala até o escritório no lado oposto. A velhinha debruçada no computador, ativa no que estava fazendo, não percebeu nossa presença.

      Curvamo-nos para cumprimentá-la e nesse momento invadiram-me caraminholas. Naquele breve instante, fiquei a imaginar, que na inexo-rável luta pela sobrevivência, quarks e glúons se uniram a rodopiar formando prótons e nêutrons que também se juntaram agregando ele- trons... Uniões essas que resultaram em átomos. Esses, cada com seu jeito se compuseram em moléculas as quais a continuar na alucinada ambição de sobreviver, seduziram-se entre si. Ao fazerem isso, for-maram células que se transmutaram para formar os lindos seios que entrevi quase por inteiros...

      Quando ela movimentou-se para se levantar e aquelas peças balan-çaram, me lembrei e acreditei mais do que nunca em uma notícia que li num jornal, notícia esta que versava sobre uma pesquisa que provava que a revolução industrial começou exatamente na época em que foi inventado o sutiã... Ou seja, o homem só começou a trabalhar de verdade quando deixou de olhar para o movimento das tetas das mulheres.

     

      Depois de saudarmos a velhinha, Tereza falou de maneira enérgica:

   −Vó, o Tec faz questão absoluta de conhecer sua pesquisa.

   −Meu trabalho é uma pesquisa envolvendo cérebros. Uso gatos como cobaia, são as melhores cabeças... para chegar ao que pretendo... Agora fale-me de você, como consegue sobreviver jogando xadrez?

   −Uma estatal, a Noverbs me patrocina, tenho também alguma renda.

   −O Xerxelino trabalhava na Noverbs, abominável figura... Conheceu o Xerxelino?




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   −Sim e não.  Ele morreu bem junto a mim.

   −Foi você quem o matou?     Perguntou muito séria.

      Ficou pensativa ao ouvir a minha negativa:

   −Pois eu gostaria de tê-lo matado....

      Resolvi insistir:

   −A senhora não pode me dizer o objetivo de sua pesquisa?

      Ela deu uma gargalhada que achei meio macabra, respondeu:

   −É uma pesquisa relacionada a cérebros,  induzo estímulos nos mio- los das cobaias. Estes estímulos variam infinitamente combinando in-tensidades dirigidas a três regiões. Tudo é feito digitalmente, a dis-tância, através desse computador. A alimentação dos animais é feita automaticamente. A manutenção, uma vez por mês o pessoal da uni-versidade de Metrópolys vem até aqui... Agora chega... Está escutando a música? Bela Bartock, estranha não é?

      Deu outra gargalhada, dessa vez achei mais sinistra.

   −Você gosta dessa música que está ouvindo?... Quase ninguém gosta... Agora, diga-me, como é ganhar uma partida do computador? O adversário humano sempre pode errar, mas o computador... Qual é a emoção?... Conta pra nós...

      Outra gargalhada ecoou na sala misturada aos acordes arrepiantes da música que parecia vir das profundezas...

      Interrompi momentaneamente as perguntas e enquanto Tereza se ausentou, me sentei em um sofá. Esforçava-me para lembrar de onde eu conhecia a música de Bela Bartock. De maneira sofrida, aos poucos, aflorou à minha mente a figura remota de um tio. Minha mãe mandava-me visitá-lo ocasionalmente quando eu era criança. Nessas ocasiões ele me obrigava a ouvir Bartock, dando a entender que se deliciar com aqueles acordes estranhos refletia um fino gosto musical. Lembrei-me também que esse tio era ligado a militâncias baseadas em idéias utópicas... Recordações vieram aos borbotões: Aquele lema “Quem não é casto, não é macho” parecia piscar como um letreiro em néon nos meus miolos. Ouvira essa frase na casa dele...  Será que o passado estava me assombrando nesse lugar perdido no meio do nada, Xáguas?




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      Voltei a teimar com a doutora:

    −Mas qual resultado a senhora pretende com tais experiências?

    −Tornar os gatos grandes jogadores de xadrez...

       Depois dessa resposta debochada ficou claro que ela não queria responder.

      Abandonei a sala e forcei a porta do laboratório. Foi mais fácil do que pensei, ela cedeu. Percorri o corredor entre as gaiolas e então pude observá-las com mais vagar.  Os gatos eram todos amarelos, belos animais. Em suas cabeças, mal dava para ver, havia três minúsculos pontinhos reluzentes, certamente os receptores dos estímulos acionados pela cientista.

      Porém o que mais me chamou minha atenção foi a quantidade de gaiolas vazias, um grande relaxamento no ambiente, detritos e papéis espalhados pelo chão...

      Também pressenti uma câmera seguindo meus movimentos...

      Tudo passava a impressão de que o laboratório tinha sido alvo de vandalismo. Se fora isso mesmo o acontecido, deveria estar registrado pela câmera, conclui. Peguei ao acaso um dos papéis que estavam no chão. Nele havia um manuscrito, pretensamente um poema:

 

               Esse gato que anda macio por esse mundo

               É um gato previsível que tem o que eu tenho

               Corpo, movimento, fome, queixa, sono profundo.

               No qual nos embrenhamos, no escuro comum.

 

               Desse gato eu tenho a ira, tenho pele, tenho pelo

               E sempre o desejo primeiro de viver cada momento

               Esse gato flexível tem a mesma calma que eu tenho

               A mesma serenidade, quando não estou em tormento.

       

               Iguais são nossos gemidos em gerar uma outra vida

               Tudo tão semelhante em nosso esboço primeiro

               Como se explica, seu gato, eu estar sempre a deriva 

               Penso muito, faço coisas, vou ralando esse planeta.




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      O aspecto desse papel não combinava com um laboratório de tecnologia de ponta como aquele. Certamente o manuscrito deveria pertencer à pessoa que fez aquelas estripulias. A letra não me era estra-nha... Parecia a mesma do diário do Xerxelino...  Observando bem... Era mesmo a caligrafia do Xerxelino!

 

  Creso

 

      Ao sair do laboratório dei de cara com Tereza.

   −O quê está fazendo? Como conseguiu entrar?

   −Parece que alguém esteve no laboratório e fez a maior baderna − respondi.

   −Então deve ser por isso que minha avó está tão transtornada!




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   −Acho que estou sabendo o segredo da doutora − eu disse − ao mesmo segurei Tereza pela cintura e me joguei no sofá com ela em meu colo:

     −Acho que ela está manejando a mente dos gatos para torná-los animais de guarda... Animais para servirem de segurança... Silenciosos, sorrateiros ao pular no pescoço do agressor...  os dentes na jugular... Certeiros com as garras nos olhos do oponente... que arma terrível...

   −Completamente errado − a moça redargüiu −  para chegar a esse resultado, outro seria o caminho, talvez relacionado com a genética.  Desconfio que a jogada é outra... aumentar a capacidade mental dos gatos.... e depois dos humanos...

 −Pessoas turbinadas − brinquei.

   Sorrindo aproximamos-nos da cientista. Devia ter ouvido nossa con-versa, pois deixou de lado as gargalhadas sombrias, tornou-se séria e por fim revelou o que ansiávamos saber:

      Explicou pacientemente que, através de infinitas tentativas desco- brira uma região do cérebro a qual estimulada de uma certa maneira, tendia a se expandir adquirindo maior complexidade... Conseguira um acréscimo muito pequeno nos gatos, mas vislumbrava imensas possi-bilidades nos seres humanos.

   −Imaginem uma pessoa com grande talento para a matemática sendo manipulada para aumentar essa habilidade em 10, 20 ou até 30 por cento?

      Ficamos ainda um bom tempo ouvindo-a, fascinados com as arre-piantes revelações, mas de repente a doutora quedou-se muda como que estuporada.

      Afastamo-nos silenciosamente. Tereza falou:

   −Tec, é melhor irmos embora antes que o Delegado apareça,

      Depois me beijando carinhosamente

   −Tec quer ir numa festinha hoje à noite?

   −Festinha, eu?    

      Pegou-me de surpresa. Uma festinha!...  Na chusma de emoções que me afligia, uma festinha!... era só o que faltava...  mas, novamente me vi diante do olhar de Tereza. Olhar que desfigurava minhas sinapses...    


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Que atitude sensata se podia esperar de um homem acuado e apaixonado? Voltei para o hotel para me preparar para a... Festinha.

      Mais tarde, no hotel, a esperar o jantar sentei-me à beira da piscina. Não pretendia me banhar, mas as águas estavam mais fumegantes do que nunca, os odores com a grife das profundezas arrastaram-me para um mergulho.

     Inexorável, entre os hóspedes que pareciam enormes bonecos de plástico a boiar ao meu redor, apareceu quem não podia deixar de apa-recer, o clone.  Não me assustava mais, deixei que falasse:

   −Tec, você não sabe dizer não, nunca diz não? Tereza leva-o para cá, para lá e agora numa festinha? Com os nativos? O que vai fazer? Beber e dizer que é enxadrista? O que você é afinal, artista? Turista? Ridículo, você não tem condições de se enturmar com esse pessoal mais novo... Festinha... É mico... Desvaneceu.

     

      No jantar, um contratempo, só havia canapés. A cozinheira faltou e tiveram que improvisar. Rosalindo, o garçom, estava excitadíssimo. Fa-zia-me olhares cúmplices e derramou vinho ao me servir. Fez uma cara estuporada ao me dizer:

   −O senhor também vai à festinha?...

   −Sim, irei na festinha.

      Depois do jantar fui para a portaria do hotel esperar. Esperar nem sabia o quê. Será que ela viria me buscar? Não demorou muito o Rosalindo passou apressado por mim dando "Xau”.

   −Não vá faltar, senhor!

      Logo em seguida chamaram-me ao telefone. Era Tereza dizendo que um táxi viria me buscar. Quem chegou foi o mesmo carro fedo-rento com aquele mesmo chofer com a testa machucada. Ao entrar no automóvel fui logo pedindo ao homem para contar mais sobre o filho dele e o internato.

   −Doutor,  o menino é muito sabido, sabido demais, levado demais também, certa vez ele atirou uma pedra e furou o olho de outro menino, uma tragédia doutor, o delegado botou ele lá numa cadeira na sala dele, aquela que tem o retrato do dele mesmo, ficou um dia inteiro


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lá, depois o Delegado me chamou, eu e minha mulher. Disse que era melhor internar o menino. O seu Dorceu garantiu que ele vai ser um grande político, o que o senhor acha doutor?

   −Quer dizer que quando você contou aquela história da “inveja”” não era bem isso...

   −É doutor, quando a saudade aperta dá uma revolta...

      Oito horas da noite e a cidade já estava deserta. Entramos em uma rua estreita e paramos em frente a um prédio de apartamentos. Já co-nhecia o prédio, era casa de Tereza.

  

      Uma festa no minúsculo apartamento de Tereza, cheio de plantas? Ao entrar na quitinete, afastando as folhagens, me deparei com quatro jovens sentados em círculo, no chão. A sala estava envolta numa pe-numbra esverdeada. Havia um silêncio profundo no ambiente. Pediram-me por meio de gestos que tirasse o sapato e me sentasse entre eles.

      Olhei cada um e reconheci o motoqueiro Aníbal, o garçom Rosa-lindo, Tereza... . Havia uma outra moça muito branca e magra, cabelos cor de palha, formato rastafari... Essa eu não conhecia.

      Ao lado do Aníbal havia varias caixinhas de acrílico transparente que ele distribuía. Elas passavam de mão em mão e cada um dos moços as observava longamente. Quando a primeira chegou até a mim, vi que continha um inseto, um pequeno besouro colorido. Olhei inter-rogativamente para Tereza.

    −São meus colegas de faculdade, ambientalistas. O Rosalindo você já conhece, essa é a Shirley, chegou hoje do Rio de Janeiro... Lembra-se do Aníbal? O cara do primeiro moto-táxi que você enfrentou?...  Aníbal trouxe-nos esses espécimes que coletou.

      Prosseguiram no ritual, silentes, como que em transe. Quando eu já estava dolorido, não agüentando mais a postura yoga, soou a cam-painha. A porta se abriu e o grandalhão do delegado entrou esbaforido:

   −Vamos acabar com essa sem-vergonhice, Tereza acende a luz. Você, seu Tec Lado, vai comigo pra delegacia e você, branquela, vai também, vamos...Vamos!




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      No caminho para a Delegacia fiquei sabendo que a moça loira que estava comigo era a blogueira que estava internada para tratamento de obsessões no Rio. Estava fugida da clínica onde fora se tratar.

      Na espaçosa e despojada sala do delegado havia agora duas cadeiras. Foi onde ficamos, eu e Shirley, sentados no fundo, de frente para o homem.

      Apesar de já ser noite alta ele permaneceu em sua escrivaninha, no lado oposto da sala.  Lia e assinava papéis, ocupação que parecia não ter fim. Na parede lateral, sua fotografia parecia maior e mais pomposa do que da outra vez em que estive lá.

      Eu e a loira começamos a conversar baixinho. Ela contou-me que também já conhecia aquela sala, o motivo foi haver tentado surrupiar um computador. Por causa desse furto teve que se amargurar naquela cadeira muitas horas, explicou-me. Falou também que por causa do in-cidente mandaram-na tratar-se no Rio, numa clínica psiquiátrica.  Ficou lá algumas semanas, mas fugiu. Viajou três dias de carona para voltar a Xáguas.

   −Mas porque você quis furtar o computador? 

      Ao perguntar, elevei um pouco a voz, o delegado levantou a cabeça e olhou feio.

   −Os blogs − ela respondeu − Os malditos blogs. Suspirou e remexeu nervosamente a bolsa donde tirou umas balinhas

   −Essa tem gosto de chope, aceita...O senhor não é o vice gov...?

   −Não, sou Tec Lado, enxadrista, turista...  Mas, aceito uma bala...

      A iluminação bruxuleante da sala ampliava o ar espectral da sua face:

   −Eu Tereza, Rosalindo e Aníbal éramos da mesma turma na facul- dade, prestamos juntos o concurso para entrar na Noverbs. Estamos aguardando a convocação.

      Ofereceu-me outra bala, essa tinha sabor de gim. Continuou:

   −Tereza e Aníbal aventuram-se como motoqueiros, Rosalindo se arranjou como garçom do hotel... Arranjaram trabalho, eu ficava sozi-nha em casa... Não tendo o que fazer, ia para o computador. Comecei a visitar os blogs e depois fiz um blog só meu. Escrevia confidências...


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Quando acabava de escrever minha mensagem diária acessava um blog, depois outro, fazia comentários, esperava os comentários, o dia inteiro, à noite, nem dormia mais... Certa vez  meu computador pifou, no de-sespero invadi a casa do vizinho e  peguei o dele...

   −E aí, o que aconteceu?

   −Nervosa, carregando o aparelho no quintal sem iluminação, tro- pecei e deixei-o cair no chão. Acordaram, acenderam as luzes. Foi uma gritaria. Vim parar na delegacia, fiquei o dia inteiro nessa cadeira... Nos dias seguintes, em casa, passei mal tive crises...

   −E agora o que pretende fazer?

   −Ela tirou outra balinha da bolsa, pensou um pouco e falou:

   −O senhor não vai acreditar mas esse mundo dos blogs é muito cruel, é como se fosse um desfile de fantasias, nas escolas de samba do car- naval, a gente capricha...  Mil lantejoulas... Depois fica esperando um elogio, uma nota, um primeiro lugar.  Nós mulheres então... que temos uma tendência para nos exibirmos, fazer confidências...

      Ela descruzou as longas pernas e puxou a saia do vestido para tentar cobri-las:

   −Foi assim, o blog acabou sendo uma obsessão para mim, acho que minhas histórias e poesias não brilham, meu blog não brilhava, ficava procurando o brilho dos outros, ia para um depois para outro, não tinha fim...

      Ficamos alguns momentos em silêncio, o delegado continuava absorto em sua tarefa. Murmurei como que para mim mesmo:
   −O que será que esse homem tanto assina?  Ela escutou e respondeu:

   −Ele é também o prefeito da cidade, presidente do clube, provedor do hospital, entre outras coisas, ele cuida de tudo em Xáguas.

      Que situação a minha, pensei, enrascado nesse homem estou fudido e meio!

   −Acho que vamos passar a noite aqui!

      Ao dizer isso ela me ofereceu mais uma balinha. Aceitei. Quando abriu a bolsa para tirá-la vi um brilho dentro da mesma. Um revólver!




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      Engraçado, o primeiro impulso foi me comportar como um menino na sala de aula. Levantar a mão e gritar: “Seu delegado a moça está com uma arma...” mas fiquei em silêncio olhando para o alto. Aquela arma não combinava com a impressão que eu tivera da turminha da Tereza, um pessoal meigo ocupado com as coisas da natureza. Um revólver!

      Será que ela pretendia assaltar alguma loja de informática, matar alguém, ou matou alguém?...  O Xerxelino, por exemplo!




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      Uma cotovelada tirou-me das reflexões. Com um sorriso malicioso Shirley apontou para o delegado:

   −Acredita você  que o poderoso ai está afim da minha pessoa?

   −Afim como?

   −Já tentou me cantar várias vezes... Até que ele é grandão...  Mas ele já chega sempre de pau duro, assim não dá... Nenhuma mulher gosta...

      Imaginei a garota atirando no delegado com o revolver, aquilo me deu arrepios, certamente eu estaria suspeito de mais um crime.

     

      O homem moreno e forte guardou os papéis e levantou-se. Por um breve momento solidarizei-me com ele até que seu vozeirão ressoou na sala:

    −Já é madrugada, vou levar vocês. Deixo primeiro o Galego no hotel  depois a Shirley em casa. Vamos!

     

      Adentrando o pátio do hotel deserto e silencioso vi uma moto vermelha parada junto à piscina. Havia pouca iluminação Aproximei-me, era Tereza nadando sozinha e nua! 

      Xáguas, uma pequena cidade em que certa pessoa se locomovia em uma poderosa e rápida motocicleta, aparentando estar em todo lugar ao mesmo tempo.

 

Creso




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      Na quase escuridão, assim que Tereza me viu assustou-se. Dessa vez não estava me esperando e nem a minha procura. Nadou rapi-damente para suas roupas na borda da piscina.  Igualmente me apro-ximei quando ela foi até a lateral da moto e abriu uma das bolsas de couro para pegar uma toalha. Nesse momento vi um brilho igual ao que vi na bolsa da Shirley.  Também um revólver. Perguntei:

   −Nua?  Não tem medo de ser vista?

   −A essa hora nada fará os velhinhos saírem de seus quartos... E vo-cês, não dormiram com o delegado?

      Não falei nada sobre as armas. Ela explicou-me que vinha sempre ao Hotel, na madrugada, tomar banho na piscina. Isso mais do que nun-ca reforçou minha desconfiança de que todos os que trabalhavam na-quele hotel eram amigos ou parentes de Tereza.

     

      Despedimo-nos e exausto fui para o quarto, mas não consegui dor- mir, pensamentos assolavam-me. Porque aquelas garotas estavam armadas? Rosalindo e Aníbal também carregariam revólveres? Uma quadrilha? Uma quadrilha de ambientalistas fanáticos?  Sentimentos  ecológicos exacerbados, um bom motivo para se cometer assassinato?   Um bom motivo para liquidar o Xerxelino, notório “serial killer” da vegetação nativa? Seguindo esse raciocínio, os quatro se tornariam suspeitos... Tereza também, uma suspeita?

      Olhei para o rádio-relógio sobre o criado mudo, quatro horas da madrugada já na terça feira.

 

Terça feira

 

      No café da manhã, Rosalindo, todo sorridente e rebolativo, trouxe-me a manteigueira. Quando se afastou me dirigi ao toalete. Sabia que no corredor adjacente havia uma porta que levava ao vestiário dos servi-çais. Sorrateiro, entrei e alcancei o armário do Rosalindo. Entre roupas e objetos descobri outro revólver.




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      Era muito intrigante. Dos quatro amigos ambientalistas, três tinham revólveres. Eram armas exatamente iguais, todas de calibre de 38, inteiramente cromadas.

      As armas de Shirley e Tereza eu vira por acaso. Naquela manhã, meu palpite foi na mosca, Rosalindo também tinha uma.

  

      Terminado o café decidi ir até a delegacia com a idéia de rever a foto que me incriminava. Também era meu intuito conversar com o Delegado, tentar saber o que ele investigara, achar uma saída para aque-la situação absurda.

      Chamei um táxi e como sempre me apareceu a charanga imunda do homem da testa machucada. A ferida nunca sarava. Logo que entrei no carro, ele me olhou espantado:

    −Doutor, o que está acontecendo com o senhor, o que houve com sua cara?

      Cobri o rosto com uma das mãos e pedi que me levasse ao centrinho de Xáguas. Ele percebeu o meu encabulamento e mudou de assunto:

    −Doutor, sabe da novidade? A dona Tereza Cristina, o doutor não vai acreditar, a própria prefeita de Newxáguas, está na delegacia...  Dizem que tem a ver com a confusão no comício do Xerxelino.

      Na cidade, quando alcançamos o largo, vi com espanto o Bentley 55 parado em frente à delegacia. O acontecimento reunia uma pequena chusma de curiosos na pracinha desfolhada.

      O chofer estava excitadíssimo:

   −Quem manda mesmo no pedaço é o delegado, não é doutor... Ima-gine só, até a prefeita de Newxáguas tem que se ajoelhar, não é doutor?

      Só tinha que concordar. Desci do táxi, sentei-me num banco da praça a observar o que acontecia. Não demorou muito o murmurejar do povinho aumentou. Dona Tereza Cristina saiu do prédio esbaforida carregando a pele de raposa nos ombros sob o sol escaldante. Entrou no carro e foi embora. Quando o burburinho amainou, atravessei a praça em direção ao prédio. Entrei e fui até a sala do delegado. Este quando me viu, agitou um papel que tinha nas mãos, gritou:




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   −Apareceu mais uma foto, mais uma Polaroid!

      Puxou-me para perto dele:

   −Está vendo essa figura de capuz aqui no fundo, desfocada? É a Tereza Cristina, ela estava no comício disfarçada.

 

 

    −Como sabe que é ela  − perguntei − não dá para ver quase nada.

    −A cara da raposa!  Não está vendo? A cara da raposa bem aqui, olha bem!

      Inconfundível, os olhinhos de vidro eram a única coisa que brilhava na foto desfocada. O grandalhão estava resfolegante, exalava um bafo desagradável. De repente quedou estático me olhando fixamente:

   −O que há com sua cara? Seu rosto está esquisito...

      Voltou a agitar a foto:

   −Você viu o carro aí na porta? A mulher está querendo impressionar, ficou puta da vida porque a obriguei a vir se explicar. Pode apostar que daqui a pouco ela manda o helicóptero sobrevoar a cidade...




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      Se fossem outras as circunstâncias aquilo se assemelharia a uma brincadeira de crianças...  Mas, não, o bafo era real, tudo era real!

    −Essa mulher tem antecedentes − continuou −  Já ouviu falar no caso dos cães enforcados? ... Há uns 25 anos atrás os cachorros da rua em que Tereza Cristina morava em Ipanema apareceram pendurados em uma árvore da esquina. Enforcados. Também havia um cartaz junto aos animais: “Morte aos cães zoeiros”. Um vigia noturno viu tudo e contou que foi ela. Nunca conseguiram provar nada. Ninguém conse-guiu explicar como ela conseguiu entrar nas casas e apartamentos, pegar os cães, trazê-los para a rua e enforcá-los, tudo isso sozinha.

   −Quer dizer que...

   −Quer dizer que agora eu tenho dois suspeitos, você e ela...

   −Mas ela tem alguma coisa contra o Xerxelino? − Perguntei.

   −Tinha, de sobra. Ela sabe que foi o Xerxelino que roubou o quadro da Tâmara não sei o quê...  Era o quadro que ela mais gostava... Também tem essa idéia do Xerxelino de obrigar os políticos a apre-sentarem currículos. Ela acha que isso que isso vai prejudicar sua fábrica de artigos para propaganda política.

      Não falei nada sobre as armas que vi com a turminha da Tereza. Para mim agora existiam cinco suspeitos, ou melhor, seis, incluindo eu mesmo... Como dessa vez o delegado me pareceu acessível resolvi pro-longar a conversa:

   −Mas por que essa suspeita sobre nós, não havia mais de oitenta pessoas naquele comício?

   −Meu amigo − ele respondeu − conheço cada centímetro da perso- nalidade de cada  habitante dessa cidade, estou sabendo quem eram as pessoas que lá estavam, o que fizeram antes, durante e depois...

      Olhou para mim e deu um sorrisinho:

   −Menos essas duas, a princesinha encapuzada e você. Veja sua pose suspeita na fotografia... Aliás, você sempre está com um jeito sus- peito... Um gesto nervoso encerrou a conversa indicando-me a saída.

  

      Ao sair daquele lugar eu não tinha mais dúvidas. As atitudes daquele homem eram capciosas e desonestas, davam–me calafrios.




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      Quando na rua, escutei um rugido acompanhado de ventania. O homem adivinhara, o helicóptero da prefeita de Princesinha sobrevoava rasante a cidade.

     

      Um calor arrasador me fez lembrar dos sorvetes. Ao procurar a sorveteria passei pelo salão onde acontecera o comício do Xerxelino. Aguçou-me a curiosidade de voltar ao lugar da tragédia. A porta estava aberta, entrei.

      No salão agora lúgubre ainda restavam no tablado os restos do cenário. Pendia frouxa a faixa “vote em Xerxelino”. Bonés, sandálias soltas espalhadas pelo chão. Parei diante da mancha de sangue a relem-brar o dia do crime. Perto estava, agora suja de sangue e rasgada, a camiseta com aqueles dizeres infames “se já deu a bundinha dê uma risadinha”.

      Um miado lamuriante interrompeu meus pensamentos. Procurei até que achei, em um vão do tablado, um gato amarelo. Tinha três pinos na cabeça!

      O gato, uma das cobaias da doutora Tereza Maria.  Não deveria estar ali, e o fato de estar, era mais uma prova de que alguma anorma-lidade acontecera com a rotina do laboratório da avó de Tereza.

      Pelo aspecto debilitado do animal deduzi que ele se encontrava há dias naquele lugar. Quando tentei me aproximar e coçar sua cabeça, rosnou e mostrou as garras. Conclui então que não seria prudente tentar levá-lo de volta às gaiolas.

      O bar no qual eu tinha tomado cafezinho com o delegado na pri-meira vez em que estive na delegacia ficava ali perto. Fui até lá, Bar Formoso, onde comprei duas coxinhas e uma garrafa de água. Pela expressão das pessoas que estavam no boteco percebi mais uma vez como era insólito um turista sozinho perambulando por Xáguas. Ainda mais comprando comida para levar para um gato...

      A voracidade com que o bichano comia me permitiu chegar perto e tocá-lo. Experimentei encostar a ponta de uma chave num dos pinos. Imediatamente ele estrebuchou e prostrou-se como morto. Tocando nos outros pinos ele voltou à normalidade.




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      Fiquei algum tempo olhando para a minha chave. A chave do meu apartamento na praça Osvaldo Cruz em São Paulo. A minha vida seria a mesma coisa quando voltasse para lá? A mesma rotina de homem solitário e obcecado pelas aberturas, gambitos e cheques-mate? Achei melhor deixar o gato onde estava e abandonei o salão.

      Embora a rua, com suas inúmeras lojinhas, estivesse toda embandei-rada com as ofertas de roupas, quase não se via ninguém por ali. Desisti dos sorvetes e resolvi voltar para o hotel a pé. Tinha tempo de sobra para alcançar o almoço. No caminho fui pensando várias coisas, entre elas, que  nem sabia ainda o nome do Delegado e que cada vez mais o enfocava como um bufo perigoso.

  

      Se eu estivesse narrando a estadia normal de um turista nas termas estaria escrevendo: “saiu da piscina, foi almoçar, depois jogou ping-pong. Leu o jornal e conversou. Logo mais foi em excursão para com-prar doces... e assim por diante”.

      Ao contrário, a história se refere à temporada que Tec Lado passou em Xáguas, dias que jamais serão esquecidos...

      Sob sol ardente foi um alívio quando alcancei o bar do Simenes que ficava, como já disse, a meio caminho do Hotel. O boteco já estava com suas mesas e cadeiras bem arrumadinhas e o Simenes atendia um ho-mem na mesa próxima a que eu escolhi para me sentar.

      Depois que o Simenes me atendeu e foi buscar um suco de mutam-ba para mim, atentei no homem que estava quase ao meu lado. Reco-nheci o Deolindo, morador da casa que me acolheu em Newxáguas. Quando me viu, acercou-se e puxou conversa.

   −Sabe quem está aqui?... O Dorceu... Olha lá o carro dele...

      Só então vi uma Ferrari azul no outro lado da rua, suja e amassada.  Estava semi-encoberta pelo muro de um baldio.
    −O que houve? Perguntei.

    −Sabe o que houve? Os meninos do internato revoltaram-se. Que-braram tudo. Dorceu teve que fugir. Foi uma zorra total, sabe, tudo


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começou com os meninos da arte, eles estão inconformados, sabe, desde que souberam da morte do Xerxelino...

   −Mas o Xerxelino, que fazia naquele internato? − perguntei.

   −Os meninos com tendências artísticas adoravam o Xerxelino.  Ele ia lá vestido com roupas extravagantes, sabe, organizava espetáculos, reci-tais, tocava junto com eles, elogiava, todas essas coisas que artista gosta, sabe... E agora o Dorceu está refugiado aqui nos fundos, na fábrica de doces, escondido, agarrado à mulher do Simenes...

      Calou-se quando o dono do bar trouxe o suco de mutamba. Quan-do a sós novamente Deolindo continuou concupiscente:

    −Você já viu a bunda da doceira, a mulher do Simenes?

    −Mas o marido não sente ciúmes, não acha ruim? − perguntei.

    −Naquele dia, sabe, que houve a derrubada das mesas, você estava aqui, não viu a intimidação que eles fizeram?

    −O  Dorceu e o delegado... O delegado está nessa também?

    −Tem muita fofoca, mas todo mundo está sabendo que o Delegado também está de caso com a mulher do Simenes...

     

      Mas, o que mais me interessava era o acontecido no colégio. Pedi detalhes e ele contou que o Xerxelino tinha participação nos negócios do seu tio, o Dorceu. Chegou a trabalhar no internato durante algum tempo. Criou, contra a vontade do tio, a ala dos artistas e o Dorceu teve que aceitá-la, pois o Xerxelino tinha parte na herança da Tereza do Céu.

      Deolindo parou de falar no colégio para perguntar se eu sabia quem foi a Tereza do Céu, a milagreira, uma das sobreviventes da Felicidade...

    −Já conheço a história das três Terezas − eu disse.

      Ele se ajeitou na cadeira e continuou:

   −Mesmo depois que  entrou na Noverbs, Xerxelino continuou indo de vez em quando ao colégio. Dorceu não o suportava...  Reclamava da atenção que ele dava aos meninos com tendências artísticas. Preju-dicavam a disciplina... Estragavam os planos dele...

. −E deu no que deu − acrescentei − Os arteiros acabaram influen- ciando os outros e ferraram a rígida disciplina do Dorceu.




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   −Isso mesmo  − disse o homem e continuou, abaixando a voz por-que o Simenes aproximou-se para perguntar se desejávamos mais algu- ma coisa:

    −O senhor não está sabendo, mas existe ou existiu,  porque o Xerxe- lino parece que morreu, o senhor não está sabendo, sabe, mas existiu outra grave desavença entre eles...

    −Qual? − perguntei.

      Mas Deolindo não me respondeu logo, ficou me olhando espantado:

    −O senhor é o mesmo homem que esteve lá em casa em Newxáguas?

    −Sou.

    −Sabe, seu rosto está  diferente... Que estranho...

      Fiz que não ouvia sua observação, insisti:

    −Me diga a outra coisa que aconteceu entre o Dorceu e o Xerxelino.

     −Pois é, o Xerxelino veio um dia aqui quando o Dorceu estava com a doceira lá nos fundos e filmou os dois...  Aqui em Xáguas tem muito disso, sabe, bisbilhotar as intimidades pelas frestas... Cara, vou lhe contar, foi um esparramo quando ele divulgou aquilo no blog.

    −Ele pôs o vídeo no Blog?

    −Sem dúvidas, o Dorceu a esparramar vidros e mais vidros de com- pota sobre a doceira nua e depois lambendo tudo.

    − Muita gente viu, imagino.

    −Até os meninos do colégio. Isso os deixou ainda mais agitados.  Sabe, depois quando souberam dos tiros no comício do Xerxelino a coisa explodiu...

    −O Dorceu deve ter ficado muito puto da vida com tudo isso, muito mesmo... − conclui.

      Deolindo pediu licença e levantou-se. Atravessou a rua e foi olhar o carro do Dorceu. Quando voltou disse:

    −Sabe seu Tec, o carro está um bagaço... Essa cidade está um pande-mônio, sabe outra coisa que está intrigando?

    −O quê?

    −Se o Xerxelino morreu ainda ninguém viu o cadáver dele.




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      Ficamos em silêncio um olhando para a cara do outro. Minha atenção voltou-se toda para o meu interlocutor:

 

   

    

    −Você não deveria estar em Newxáguas trabalhando na fábrica da Tereza Cristina?

    −Sabe, estou aqui por que foi ela que me mandou vir, ela quer saber o que está acontecendo...

      Lembrei-me do quadro que vi na casa dele.

   −O quadro da Tâmara Lempicka, ainda está com você Deolindo?

   −Quadro, que quadro?




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   −Me explica porque aquele quadro da Tamara Lempicka que pertence ao acervo de Newxáguas estava em sua casa...

   −Não sei de nada sobre esse quadro...

      Disfarçou e mudou de assunto, gaguejava e gotas de suor aparece-ram na sua testa:

   −Não é só o seu Dorceu que está danado da vida com o que está acontecendo, a prefeita de Newxáguas também... Dona Tereza Cristina também esta possessa, indignada por ter sido chamada na delegacia...

    −Parece que o que está deixando ela mais brava foi  o desapare- cimento do quadro  − falei olhando bem dentro dos olhos dele − do quadro autêntico pintado pela Tâmara Lempicka que eu vi na sua casa...

      Ao ouviras minhas palavras Deolindo se mostrou transtornado,  le-vantou-se abruptamente e afastou-se...

  

      Essa agora, falei comigo mesmo, vejam só, o pacato cidadão de Newxáguas...  O quadro estava na casa dele e ele está negando na maior cara de pau... Foi ele que furtou o quadro talvez a mando do Xerxelino, só pode ser isso...

      Procurei o Simenes para pagar o refresco e o encontrei meio escon-dido atrás do balcão. Estava com o rosto mergulhado no guardanapo, chorando. Soluçava. Deixei três moedas no balcão e não falei nada, fui embora.

  

      Chegando ao hotel, no quarto, ao me preparar para o almoço, lembrei-me do diário do Xerxelino. Queria saber a última coisa que ele tinha escrito antes de morrer. Deparei-me com esse relato:

 

Hoje foi um dia de regozijo para mim, a mesma satisfação que eu sinto ao derrubar uma árvore senti ao libertar os gatos da cientista.   Tudo deu certo como planejei, consegui entrar lá e abrir as gaiolas. Estranho esse amor que sinto pelos gatos, nem sei explicar o que é isso. Estraguei décadas de pesquisa da condenada. Ela saberá que fui eu, as câmeras me filmaram.




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      Antes dessa confidência havia outra em que ele relatava com minúcias a espreita que fizera nos aposentos da doceira e o prazer orgásmico que teve ao publicar tudo no seu Blog “Fogo Ardente”. Terminada a leitura, conclui que fizera bem em apanhar o diário na casa de Xerxelino. Agora sabia com certeza o que ocorrera na casa da avó da Tereza, e quem foi o causador do desespero da velha cientista. Sabia também a hecatombe que um Xerxelino pode causar na vida de um Dorceu.

      Acabei de me arrumar e olhei no espelho pela décima vez. Defi-nitivamente, a minha cara estava mudando. Deve ser coisa da minha mente raciocinei, não tem gente que vê assombrações? Rostos de pessoas mortas? Minha mente está falhando, só pode ser isso.

 

  

     

      No restaurante, servi-me de peixe e verduras e me sentei à mesa. Como sempre Rosalindo trouxe-me vinho.

      Olhei em torno, era como observar um aquário. Os velhinhos turistas flutuavam abocanhando aqui e ali nacos de comida e soltavam palavras esquálidas que viravam bolhas... O pastor aproximou-se sor- rindo e se sentou a minha mesa.     




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    −Grande Tec,  rei do xadrez, sabe que tudo em você, até seu nome é parecido com o do vice-govern....?

    −O senhor já me disse isso, respondi. Aceita um copo de vinho?

    −Desde que recebi o chamado não deixo o álcool chegar perto de mim... Não tenho visto o ilustre enxadrista por aqui no Hotel, por onde anda?

      Fechei os olhos e minhas mãos tremeram quando lhe dirigi a palavra:  −Pastor, eu estou apaixonado por uma moça aqui da cidade,  uma garota de Xáguas... Ela é bem mais nova do que eu...

   −O que é isso Tec Lado, você é jovem também, aliás quando o vi pela primeira vez parecia mais velho...Parecia mais velho... parecia mais vê...

Repetia automaticamente e depois estancou. Seu olhar ficou confuso. Por alguns segundos entrou em transe, seu cérebro não conseguiu codi-ficar o que estava vendo. Acordou e voltou no tempo:

   −Xálguas, Tec? Já fui lá duas vezes no ônibus com a turma comprar doces em calda e souvenires, você estava junto não estava?

   −Não, eu não fui nos “tours”. Estou lhe dizendo que estou apaixo-nado por uma garota aqui de Xáguas...

   −Ficou no quarto descansando hein Tec, refrescando a cuca, não é?  Eu e minha mulher vamos com a mala cheia de doces, fazem-no bem aqui e é barato você não vai levar?

      Não adiantava insistir, nossa conversa não se conectava. Ofereci novamente o vinho, mas ele recusou afoitamente.

   −Não Tec... Desde que recebi o chamado, não bebi mais nada.  Já lhe contei não é? Que recebi um chamado...

   −Sim, contou, doou tudo, como faz para viver?

   −As doações, Tec... As doações. Sabe como funciona não? O sujeito tem aquela inveja de quem tem mais do que ele, mais dinheiro, mais tudo... A inveja o corroí, é doída. Então o que o pastor faz? Apresenta-se em um palco, acima desse sujeito. Apresenta-se seguro, bem falante, envolto em música. Depois de criar o clima inebriante, de repente, o pastor pede.  Pede bastante, senão não tem efeito. Então ele dá. E quando faz isso ele sente um alívio, um refrigério... É assim Tec, compreendeu?  É como se um  garanhão  atolado  em  lindas  mulheres




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pedisse para passar a mão na sua... Mas, vamos mudar de assunto, isso é coisa só minha...  Você já conhece a cidade de Xáguas? Eu a conheço só vista do ônibus. Da próxima vez que eu vier aqui pretendo andar por lá, conhecê-la, a gente só fica aqui no hotel, na piscina ou então no ônibus, você já não está enjoado das águas ferventes? Estão ficando infernais, não acha?

  

      Continuamos a conversa, mas desta vez foi meu olhar que foi fican-do cada vez mais vidrado. O pastor e o restaurante desapareceram e meu pensamento imergiu em Tereza. Alguém poderia me ajudar a con-ciliar o desejo que eu sentia pela garota com turbulência que a rodeava?         

      Levantei-me quando o pastor Jonas foi se servir de mais doce em calda e me dirigi ao saguão do hotel. De passagem, entrevi na portaria de serviço o vulto de um motoqueiro.

      Aproximei-me e reconheci o Aníbal, o moto-táxista colega de Tere-za. Cumprimentei-o e perguntei o que estava fazendo ali. Respondeu que aguardava uma corrida. Sentei-me a seu lado e sob o efeito do vinho no qual tinha excedido, crivei-o de perguntas as quais ele respon-deu pacientemente.

      Nascera em Xáguas, seus pais moravam lá na época, mas traba-lhavam na fábrica de brindes para políticos em Newxáguas. Quando criança ficou algum tempo no internato do Dorceu. Na primeira opor-tunidade fugiu. Logo depois seus pais mudaram-se para Metrópolys e ele foi junto. Formou-se em uma faculdade ligada às práticas ambien-talistas e estava há pouco tempo em Xáguas.  Quando perguntei onde ele morava, contou que vivia sozinho em uma barraca no meio da mata.

     −Só eu e os bichos − disse sorrindo.     

    −Qual a impressão que tem de Xáguas depois que voltou?  − perguntei.

    −Eu, Tereza, Shirley e Rosalindo, nós estamos mais ou menos na mesma situação − explicou − tentamos entender a estranheza do lugar...

       Mudou de repente de assunto, assustado:




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    −O senhor é a mesma pessoa para quem fiz uma corrida até Xáguas na quinta feira? O mesmo que foi na reunião no apartamento de Tereza?

    −Sou, Tec Lado, porque ?

    −Esquisito, está diferente...

      Fazendo-me indiferente, continuei a perguntar:

    −Aquela obrigatoriedade de freqüentar o cinema em Newxáguas, o que você acha?

    −Talvez melhor que freqüentar templos − respondeu com uma risa- da.

   −Você ouviu falar no furto da obra de arte na galeria da prefeita?

   −Todo mundo só fala nisso e na morte do Xerxelino.  Dizem que foi ele que surrupiou o quadro um pouco antes de morrer... 

      Deu um tapa do capacete que estava em seu colo:

   −Dona Tereza Cristina amava demais o quadro, imaginava-se a pró- pria Lempicka  − acrescentou exaltado.

      Fiquei alguns minutos em silencio pensando em como abordar o assunto, mas depois resolvi perguntar a queima-roupa:

   −Porque vocês quatro, turminha de Tereza, andaram carregando armas?

      Empalideceu e revirou nervosamente o capacete. Ficou mudo.

      Emendei outra pergunta:

   −Quem de vocês estava no comício quando Xerxelino foi assa- ssinado?

   −Nós quatro − respondeu.

      Dizendo isso se afastou até a moto. Deixou-me pasmo. Só faltava esse absurdo, ambientalistas sensíveis carregando armas na cena do crime...  Suspeitos com certeza, pois Xerxelino, um psicótico destruidor de florestas deve ter acendido um ódio mortal naquelas criaturas. Mas esse ódio mortal não foi ateado só neles... Imaginei Tereza Cristina encapuzada, também no local do crime...  Colérica, pois a obra de arte que mais amava tinha sido roubada pelo malucão...




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      Levantei-me e fui até a entrada do hotel. O tempo fechara subi-tamente e o céu troava ferozmente. Igual a raiva de Dorceu, continuei a pensar. Que ímpetos assassinos lhe assomaram depois que Xerxelino expôs publicamente sua língua libidinosa acariciando a doceira?

      Outro trovão estourou bem perto fazendo um gato disparar pela rua. Lembrei-me da cientista. Não seria dela o furor mais intenso? Uma vida inteira de trabalho febril, décadas dedicada à pesquisa destruídas num átimo?

      

      Gritos dissiparam minhas reflexões:

    −Senhor! Senhor!

      Atrás do balcão alguém me chamava. Aproximei-me e vi que era o mesmo rapaz que me recepcionou no primeiro dia em cheguei ao Hotel Grã Xáguas. Lembrava-me bem que fora com ele que reclamei furioso quando me informou que a vida noturna de Xálguas se resumia a... serestas.

   −O senhor é hospede? − ele perguntou.

   −Claro, respondi, não me reconhece?

   −É... que está diferente, posso ver sua carteira de identidade?

      Achei estranhíssimo aquele pedido, falei:

   −Deveria me conhecer, estou a uma semana hospedado nesse hotel tivemos até uma discussão...

   −Entenda meu senhor, eu estive de licença, estou voltando hoje e não estou lhe reconhecendo, é muito parecido com o outro  mas não é ele...

 

   −Diferente como? Olhe aqui, sou Tec Lado! − Mostrei-lhe a identi- dade.

      Olhou para meu rosto e para a foto várias vezes:

   −Esse da foto é  diferente.

   −É claro que é diferente, imbecil! Esta foto foi tirada há dois anos.

   −Não − respondeu inflexível − O senhor está mais jovem agora,  a fo to da carteira é de uma pessoa bem mais velha.




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      A situação que eu relutava em aceitar se fez clara. Alguma coisa esdrúxula estava acontecendo com meu corpo...Fiquei calado, en-quanto o rapaz cochichou com o colega:

   −Mais um maluco...

      Foi ao telefone. Ao mesmo tempo em que discava falou:

   −O médico virá examiná-lo, espere aqui, por favor.

      Procuro um termo para exprimir o estado em que fiquei naqueles momentos em que esperei o médico e não o encontro... Talvez uma palavra sirva de maneira sofrível, cataléptico. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, estacionou frente ao Hotel um carro branco e dele desceu um homem todo vestido de branco.

     Encaminhamo-nos, os dois, ao escritório do gerente. Ficamos a sós e ele me examinou longamente. Olhou detidamente para meu rosto:

   −Tem outro documento?

      Mostrei-lhe a carteirinha do clube de xadrez tirada há quatro anos.

      O medico passou a mão em seus cabelos prateados. Com expressão solene, sentenciou:

   −Outro caso. É raro, mas acontece. O senhor é outro caso de reju-venescimento aqui nas termas.

   −Isso é piada, ridículo, não acredito! − foi isso que eu disse em altos brados e continuei gritando:

   −Porra!  Que besteira está dizendo! É impossível!

      Como resposta o doutor tirou um espelhinho da maleta de couro. Sem dúvida a cara refletida era a minha, uma cara que eu já tinha visto muitas vezes, no passado ou... nos últimos dias... mas naquele instante já não sabia de mais nada, minha percepção se retalhou como que explo- dida. Zonzo, escabreado, ouvia a voz do médico que soava longínqua:

   −Sabemos pouco sobre esse fenômeno.  Até agora, na história de Xáguas, são só dois casos, o seu e mais um outro... Essas águas têm efeitos imprevisíveis...  Mas, nunca é para o mal, pode crer, nunca é para o mal...

      Fez uma pausa enquanto guardava seus apetrechos na maleta branca:




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    −Só eu e o doutor Og Gudião sabemos dessa coisa e nós dois  temos uma só certeza. Devemos guardar sigilo. Sigilo absoluto. Imagine se o mundo ficar sabendo e esse lugar for invadido. Invadido por multidões histéricas a esperar por resultados improváveis, raríssimos como o seu...

     Eu olhava para ele atoleimado, mal escutando o que dizia:

  −Fique quieto − repetia − o recepcionista não está entendendo,  pensa que você é louco, outra pessoa...  Difícil mesmo vai ser você se explicar quando voltar para casa...

      Levantou-se, ajeitou seu alvo jaleco e me cumprimentou:

   −Até a próxima meu amigo... Não obstante, meus parabéns! 

      O médico afastou-se, entrou no seu carro branco e se foi.

      

      Provavelmente eu iria ficar assombrado para sempre ali na salinha do gerente do hotel se não escutasse os estampidos ensurdecedores que vinham do saguão do Hotel. Corri até lá e me deparei com Tereza e sua moto. Ela tinha varado o portão, subido as escadinhas e entrado no saguão, tudo isso montada na Harley! 

   −Vamos − ela disse − faz tempo que não nos vemos, estou com  saudades.

      Subi na moto e mais agarrado ao seu corpo do que nunca deixamos o Hotel Grã-Xáguas para traz, envolto na fumaça do escapamento misturada aos vapores que vinham das profundezas.

   

      O que faria uma pessoa sensata, logo depois de ficar sabendo que tinha rejuvenescido?  Qualquer coisa menos andar disparado em uma motocicleta sob uma chuva torrencial nos caminhos do fim do mundo... Pedi a Tereza que me levasse até ao centro da cidade, no lugar onde o Xerxelino foi assassinado..

   −Para que? − ela perguntou.

   −Para ver um gato respondi brincando...

      Mas o gato ainda estava lá. Assim que me viu começou a miar e veio junto a nós. Tereza se espantou ao ver que era um dos gatos fugidos da avó.




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      Sentamo-nos no tablado e ficamos eu e ela, nos olhando por algum tempo. Perguntei se notava alguma diferença em mim.

   −É claro − respondeu − é muito engraçado.

      Ria e repetia:

   −É muito engraçado...

      Seus gritos e gargalhadas se espalhavam no galpão vazio.

   −É você ou não é... Que bonitinho... Que engraçado...

      As risadas não paravam. Quando cessaram, eu disse:

   −Estive conversando com o Aníbal hoje, me contou que você, Shir- ley, Rosalindo e ele estavam aqui no dia do crime...

   −Estivemos sim, você não sabia?

   −Claro que não, por que você não me contou?

   −Estávamos ali. Olhe ali, bem ali − ela apontou para o lado esquerdo da platéia.

     Fiz outra pergunta, agora muito emocionado:

   −E vocês estavam armados?

     

      Não houve tempo para ela responder, um vozeirão avançou vindo da rua:

   −Caralho! − exclamei − Esse cara nunca larga do meu pé!  

      Ele foi se aproximando e se postou a minha frente. Começou a berrar:

   −Senhor Tec Lado, o médico já confirmou tudo o que eu já estava percebendo, eu já desconfiava, agora é oficial...

      Se agachou para me olhar melhor. Encarou-me durante um bom tempo. Depois continuou a berrar:

   −Essa foi a maior sacanagem que você aprontou... A maior saca-nagem... Ficou mais novo pra pegar a Tereza... Não foi isso xadre-zista?... Jogo sujo não é?... Muito esperto...

   − Que absurdo − respondi − sei lá como isso aconteceu, como posso ser responsável por um fenômeno desse...

   −Sabe sim, é responsável sim, você acha que esse vaporzinho veio lá das entranhas da terra exclusivamente para você, alterou suas estruturas, fez isso só pra você, mais ninguém?  É a paixão, é a vontade, é o desejo


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que faz isso acontecer, é muita sacanagem... Fique sabendo que agora estou querendo que você vá embora... Quero ver como vai se arranjar lá na sua terra com essa cara nova...

      Sentou-se ao nosso lado e começou a cutucar o gato. Afastei o ani-mal das suas mãos. Falei:

   −O médico me disse que só ele e um tal de Og Gudião sabem desse fenômeno...

   −E quem você pensa que é o Og Gudião?  Está na presença dele... Sou eu!

   −Só agora fiquei sabendo seu nome...

   −Pois agora ouviu, meu nome é Delegado Og Gudião, prefeito de Xáguas e mais outros encargos... Quer saber mais?...

   −Não, mas uma coisa que me intriga é a autoridade não procurar sa- ber quem fotografou o assassinato do Xerxelino...  Identificar quem é a pessoa que fotografou, ela pode ter visto quem atirou...

   −Não estou sabendo Tec Lado, a única pista que tenho são as duas fotos, a que você parece segurar uma arma e a outra em que aparece a prefeita de Newxáguas com sua raposinha... Elas foram achadas por aqui, no chão.

   −E não procurou saber quem fotografou? − perguntei.

   −Está querendo insinuar o quê cara? − berrou mais uma vez − E não muda de assunto não, não se esqueça do seu corpinho novo, tem que guardar segredo disso que aconteceu com você, senão está ferrado.

   −O que estou tentando lhe dizer alguém deveria atentar para o lugar donde a foto foi tirada e indagar quem estava nesse espaço que... deve ser aqui. Levantei-me e me dirigi para o lado esquerdo da platéia, mais ou menos o mesmo lugar que Tereza disse que estava com os compa-nheiros...

  −Tá acusando quem? Tec Lado...

.  −Não estou acusando ninguém, digo que a foto só pode ter sido feita daqui, na primeira fila do lado esquerdo. A platéia é plana e é disposta em semicírculo em torno do tablado...O Xerxelino, cambaleando, projetou-se para o corredor, no centro, onde eu estava quando me aproximava do palco. Quem fotografou o agonizante, estava de pé e


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alcançou Tereza Cristina em segundo plano na extremidade direita da platéia...   

    −Está bem, galego, e daí, onde você quer chegar?

   

−Nem atentei ao que ele disse, estava olhando fixamente para Tereza, perguntei:

   −Tereza, foi um de vocês que fotografou?

Ela me respondeu com aquele olhar que nem sei mais descrever... Que me provocou um acesso de tosse que não parava mais. Enquanto eu me debatia com os espasmos o delegado falou:

   −Tereza, você vai comigo, deixa esse maluco aí, não estou enten- dendo o que ele quer dizer mas, se quiser acusar alguém, vai ter que provar...

      Ela fez que não queria ir, mas ele a empurrou suavemente.




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      Ficamos lá, eu e o gato. Ele a ronronar e eu a ruminar mil con-jecturas, naquele lugar que ainda tinha a atmosfera forte das tragédias.

      Pelo menos eu agora tinha um esboço da cena do crime, o pessoal da Tereza na extremidade esquerda da platéia, a prefeita encapuzada na outra extremidade.  O Xerxelino no centro, mortalmente ferido.

      A foto, era evidente, fora tirada por um dos ambientalistas ou por alguém que estava ao lado deles.

      Perguntei ao gato

   −Quem será que atirou no Xerxelino?.

      Por mais adiantados que estivessem os experimentos da doutora Tereza Maria, uma das três Terezas, lendárias sobreviventes da bomba que destruiu a Felizcidade, era evidente que o animal não podia res-ponder. Entretanto o bichano parecia cuidar-se bem, baratas, ratos e goteiras não deviam faltar por ali.

      Pensei nas incoerências do homem da lei que agora eu sabia que se chamava Og. Que nome... Eu também não podia criticar muito... Tec Lado era tão esquisito como Og Gudião... Homem tinhoso...  Impos-sível ele não saber que os ambientalistas estavam na cena do crime.

      Fechei os olhos a rememorar a ocasião.

“Tiros. Em seguida, pânico. Correria... Xerxelino cambaleante em minha direção. O sangue jorrando do peito... a gritaria. O flash”.

      Tanta gente, ninguém viu quem fotografou, quem atirou?

 

      O barulho da chuva no telhado de zinco cessara, sai para a rua. Lembrei-me da sorveteria ali por perto. Entrei, sentei à mesa, o gerente do lugar aproximou-se. Não reconheceu em mim o homem que tinha comprado a revelia os três sorvetes.

   −Moço, vai experimentar nosso sorvete especial, sorvete ao forno?

      Impossível ninguém saber o que se passou no comício... Em cida- des pequenas todo mundo comenta, todo mundo fica sabendo das coisas... Com esses pensamentos resolvi fazer um pequeno sacrifício para poder conseguir informações, aceitei tomar o horroroso sorvete ao forno, especial. Quando me trouxe o pedido indaguei se sabia do assassinato do político.  Respondeu-me que não sabia, desconversou...




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      Deixei o sorvete pela metade e pedi um picolé. Relutou um pouco, trouxe um de buriti.

     Voltei a perguntar se sabia de alguma coisa.

   −Aqui na região ninguém sabe nada não. Ninguém viu nada.

   −Como? Havia mais de cem pessoas no comício, no dia do crime!

   −Olha moço, aqui na região tudo pertence ao espólio das três Tere- zas, até essa sorveteria. Todos os habitantes têm vínculos com coisas relacionadas aos descendentes delas. É como se fosse uma grande re-partição. Já viu um funcionário denunciar outro? Ou denunciar o che- fe?  Impossível.

      Concordei, ele se afastou.

      Depois de desembrulhar cuidadosamente o picolé e dar a primeira deliciosa lambida olhei distraidamente para os cartazetes colados nos la-drilhos coloridos da parede.  Entre eles uma foto chamou minha aten-ção. Uma foto Polaroid de uma obra de arte!

   −Tamara de Lempicka! Corri ao balcão e perguntei:

   −D’onde apareceu essa foto?

   −A menina que trabalha aqui, a minha balconista, achou essa foto. Hoje ela faltou... Pois é, ela disse que estava no comício do Xerxelino quando houve a confusão. Encontrou no chão uma máquina Polaroid, a foto estava junto. Dizendo isso ele abriu uma gaveta e tirou uma sacola toda suja, pisoteada. Na sacola havia a câmera e uma caixa com o pacote de negativos. Contei-os, faltavam três.

      Deduzi que um seria o da foto em que eu aparecia ao lado do agonizante. Outro o da foto do quadro da Lempicka que eu estava a ver grudado na parede. Como faltava um negativo, a minha cabeça logo começou a imaginar a possibilidade de existir uma terceira fotografia, justamente a que revelasse quem era o assassino.

      Olhei para a rua. O sol da tarde, que mal enxugara a chuva, amea-çava se retirar. Atentei novamente para a parede e vi, perto da foto da Lempicka, um calendário. Nele estava estampada bem grande a palavra terça feira. Amanhã seria o último dia do meu programa de viagem. Na quarta de manhã seguiria para o aeroporto com a minha sacola, entraria


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na fila e depois no avião. Ponto final. O sonho estava terminado. Será que seria assim?

      Aproveitei um momento em que o homem foi para os fundos da sorveteria e arranquei a foto da parede e a guardei no bolso. Depois o chamei e paguei a conta.

  

      Penúltimo dia. Uma angustia apertava-me o peito acompanhada de uma necessidade premente de ficar junto de Tereza.

      Lembrei-me que ela tinha um celular. Fui ao orelhão da pracinha e liguei para ela:

   −Tereza, amanhã  vou embora, preciso ver você de qualquer maneira.

   −Você não vai poder ir embora amanhã − ela disse − não vai poder ir por causa dos bichos.

   −Que bichos?

   −O avião que levaria os turistas amanhã está inteirinho tomado pelos besouros. Aqueles besouros coloridos iguais ao que o Aníbal nos mos-trou na reunião lá em minha casa. Bilhões deles.

   −Não acredito.

   −Vou levá-lo até lá para você ver.

      Já era noite quando chegamos ao insólito aeroporto. Um prédio imenso, desmesurado para a cidade de Xáguas. Ao entrar depara-se com um enorme saguão oval, com um box de formato semi-esférico situado em seu centro. Destina-se à venda de doces em calda. Acima do box, sustentado por fios invisíveis que desciam do teto, um letreiro em néon parecia flutuar no espaço. O lugar estava deserto naquela hora da noite. Através dos portões envidraçados avistamos o solitário avião. Estava longe, no fim da pista, um pouco iluminado pelo luar.

     A luz frouxa de uma lanterna movimentava-se em torno dele.

   −É o Aníbal − disse Tereza −

   −O que ele está fazendo lá?

   −Acho que ele se predispôs a defender a vida dos besouros...    Desconfio que está disposto a arriscar a própria vida se for preciso...  Foi ele quem descobriu a espécie... é rara, em extinção... Imagino que ele acha que tem o dever de protegê-los...




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   −Se for assim, deve ter ficado louco, ninguém vai deixar o avião ficar desse jeito − eu disse.

   −Já mandaram buscar em Metrópolys as bombas de inseticida −  ela completou − é o desmatamento que provoca essas bizarrices...

   −A culpa é do Xerxelino − concluí.

      Tentamos descobrir um jeito de entrar na pista, fizemos várias tentativas, mas não conseguimos. Gritamos seu nome, nenhum sinal de resposta... Estávamos nas grades que cercam a pista quando ouvimos uma voz longínqua também chamando o Aníbal.  Chegamos mais perto e topamos com o Rosalindo.

   −Gente!... O Aníbal vai se estrepar com essa brincadeira!

   −Vai mesmo Rosalindo, precisamos salvá-lo − disse Tereza.

      Sentamo-nos os três em um banco e ficamos comentando a situação. Pelo jeito, não havia muito que fazer ali. O acesso à pista estava impedido e não havia chance de nos comunicarmos com ele.

Tereza estava muito preocupada, principalmente porque sabia que Aníbal era alérgico a certos venenos...

     

      No meio da conversa resolvi mudar de assunto. Perguntei se sabiam do furto do quadro prefeita de Newxáguas. Mostrei a fotografia que encontrei na parede da sorveteria. Contei a eles a ocasião em que tinha visto a obra de arte na casa do Deolindo. Ao ouvir o meu relato Rosa-lindo ficou inquieto, esfregava as mãos e mordia os lábios. Quando ter- minei, ele falou:

    −Eu sei onde está esse quadro.

    Onde? −  perguntei.

    −Na casa do Xerxelino − disse o agora trêmulo Rosalindo.

     

      A gorda motocicleta vermelha de Tereza tinha potencia de sobra para levar nós três em desabrida velocidade até a casa do Xerxelino. Quando lá chegamos, ao entrar na sala íntima do político, senti outra vez os estranhos eflúvios que vinham dos odores que rodopiavam na penumbra.  Aquela grande serra pendurada no teto provocava arre-pios... Tentamos melhorar a iluminação, mas a lâmpada principal estava


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queimada, só havia outra, mais fraca. Depois de alguma encenação Rosalindo falou:

    −Está ali atrás − disse ele apontando para o painel onde estavam as fotos da Cláudia Ohana nua.

      Afastamos o tapume e lá estava, deslumbrante, autêntico, o quadro pintado pela Tâmara Lempicka.

    −Como esse quadro veio parar aqui?perguntei.

       Rosalindo contou que Xerxelino através de muita manha conven-ceu o Deolindo a furtar o quadro para ele. Logo depois que se consu-mou o surrupio, Xerxelino morreu. Sem saber o que fazer, Deolindo e Rosa sua mulher, que estavam com a obra de arte na casa deles, trouxeram-na para cá.

    −E como conseguiram entrar, a chave?

      Ninguém respondeu

      Agora o que se vai fazer?... Isso aí é valiosíssimo, não tem preço!

   −Vou devolvê-la − disse Rosalindo − Para mim é importante devolvê-la, eles são meus pais, Rosa e Deolindo são meus pais..

    −Rosa é a senhora que me ofereceu as mentirinhas! − falei surpreso      −Disseram-me que não tinham filhos...

   −Têm vergonha de mim porque sou gaydisse o garçom cabis- baixo.

      Tereza o abraçou e amorosamente se prontificou a emprestar a moto para ele ir até Newxáguas deixar o quadro.

      Mais uma vez, ficamos a sós. A proximidade da causa da minha paixão e a atmosfera libidinosa do lugar fez-me arder.  Arder muito mais apaixonadamente, porque eu agora estava transmudado pelas ema- nações das profundezas da terra.

     Como conseqüência, não mentirei se disser que chafurdamos em alegres sacanagens.

      Mais tarde achamos uma pequena geladeira. A toca do Xerxelino guardava surpresas, havia champanhe, queijinhos finos e rosbifes.

      Depois da refeição, Tereza rompeu o silencio:




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   −Você não vai poder ir embora nunca. O que vai fazer em São Paulo com essa outra cara? Dizendo isso começou a rir. Seu riso me contami-nou, desatamos em gargalhadas que não acabavam mais.

  

      Todo o homem que já se apaixonou sabe que há um momento em que elas precisam ir para casa. Seja lá que aventuras estiverem vivendo com você, esse momento é inexorável.  E assim aconteceu. Logo que Rosalindo voltou com a moto ela se foi.

      

      Naquele dia, naquela terça feira, eu já estava perdido no espaço e no tempo. Não sabia bem o que fazer, para onde ir. Sob intenso luar me pus a caminhar em direção ao hotel. Entretanto não seria naquela oca-sião que as emoções que se sucediam e me atropelavam em Xáguas deixariam de acontecer.

      O bar do Simenes estava no meio do caminho e foi lá que encontrei o grande Dorceu escarrapachado numas das mesas da calçada. Assim que me viu, insistiu para que me sentasse junto dele. Achegou-se e quase encostou seu rosto no meu. Como sempre sua fala não tinha começo nem fim:

    −Tec, a doceira já está falando em casamento, está falando em largar o Simenes, já está com enjoamentos... Está sabendo não é Tec? Todo mundo já sabe das lambidas... Viu o que fizeram com a minha Ferrari especial? Meu amado carro azul? ...Daqui dá pra ver...

     Consegui interrompê-lo:

   −Conte-me. O que aconteceu?

   −Com prazer eu matava o crápula, o Xerxelino, embora ele fosse meu sobrinho, esse cara conspurcou a áurea das três Terezas. Um crápula, uma vergonha... Ele estragou tudo...

      Havia uma grande jarra de licor de pequi na mesa. Encheu um copo e deu uma talagada. Continuou:

   −Meus meninos...Tec, meus meninos, o Xerxelino incentivou aquela turminha de artistas a se separarem dos outros... Foi tudo contra minha vontade...  Avacalharam tudo...  Tínhamos um grande projeto...




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      Daquele momento em diante ele abaixou a voz e relatou o que me pareceu o mais absurdo, exótico plano já imaginado por um ser huma-no:

      Usando os procedimentos descobertos nos cérebros dos gatos pela cientista Tereza Maria, ele incrementaria a inteligência dos meninos de seu internato.

      Depois de treiná-los e discipliná-los, ele espalharia centenas, milha-res de gênios pelo país, pelo mundo. O objetivo final era acabar com a pobreza, com a miséria!

      −Acabar com a pobreza entendeu?... Essa pobreza que se instala quando os homens inteligentes são abafados pela inveja, pelas seitas ou então quando vão embora, migram... Eu abasteceria o mundo de inteli-gentes... Tec eu inundaria o mundo de gênios!

      Seus olhos se esbugalharam, mais ainda quando ele encheu outro copo de licor e o sorveu de uma só vez.

      Argumentei:

   −Você não vai viver tanto tempo para ver esses meninos se tornarem homens e entrarem em ação...

   −Como não?

      Seus olhos saiam das órbitas, roçavam meu rosto:

   −Como não? O que o médico falou para você? Não falou que você era o segundo?...  Tec, eu também recebi os fluidos, não é só você que está de cara nova, eu também já fui mais velho... Tec, eu ganhei muitos anos de vida e vou ganhar mais cada vez que me banhar nas águas borbulhantes...

      Fomos interrompidos pelo estrondo das mesas e cadeiras derru-badas pelo grande Land Rover amarelo do Delegado.

      Og Gudião, a grande autoridade de Xáguas, apeou e veio em nossa direção. Encarou o Dorceu:

   −Estou sabendo que você está se aconchegando com a doceira...    Precisamos decidir quem vai ficar com ela, se é você ou eu... E eu já resolvi que vai ser eu!




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      Gesto inopinado tirou uma grande faca da cintura e enfiou no peito do homem de batina!  Foi a última vez que eu vi os grandes olhos do Dorceu se mexerem nas órbitas.

      Naquele bar, nos ermos de beira de estrada, se fez um grande silên-cio que só interrompido com entrada do Simenes em cena.   Aproxi-mou-se murmurando palavras desconexas. Quando chegou perto de Og Gudião este lhe agarrou o braço e falou baixinho:

   −Ximenes pega a faca, você é o marido traído, foi você quem  matou o Dorceu. Faça o que eu mando, não vai lhe acontecer nada...

      Voltou-se para mim:

   −Galego, você é só testemunha, foi o Simenes, você viu bem. Dessa vez, Tec Lado, você não é o assassino.

      Em seguida sentou-se, cruzou as pernas e se pôs a teclar o celular como se nada tivesse acontecido. Feita a ligação começou a gritar no fone:

   −Vão mandar o inseticida ou não? Os turistas precisam ir embora amanhã, o pacote turístico acabou, os turistas vão pirar se o avião não ficar pronto...  Seus merdas, vocês são uns incompetentes...

      Interrompeu a ligação quando viu a doceira olhando apavorada a sangueira em torno do morto.

   −Meu bem, olha o que seu marido fez pra defender sua honra...

      Olhou para mim:

   −Galego, vai embora daqui, vai pro hotel que eu cuido disso.

      Quando saí daquele inferno olhei para céu e pensei: O que mais preciso agora é uma testemunha que prove que tudo isso é um sonho, que eu nunca estive em Xáguas.

     

      Continuei a olhar para o céu, pois um objeto com luzes a piscar se aproximava.  Objeto que era, incontestavelmente, o helicóptero de Te-reza Cristina. Aterrissou na estrada bem na minha frente.

      Fizeram sinais para que eu entrasse, pois a prefeita de Newxáguas queria falar comigo. Conduziram-me até onde as águas borbulhavam em   ligação  direta com o centro  da  Terra.    Uma  cadeira   na    borda   




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me esperava. Ela estava no centro da piscina que eu já conhecia, só o rosto para fora da água. Sua voz ecoou nas paredes de mármore:

    −Já soube o que aconteceu com você...  vai me explicar direitinho como foi. Preciso recuperar minha juventude, entendeu!  Fui uma mu-lher bonita... Em Ipanema não havia nenhuma mais gostosa do que eu... Tenho que voltar a ser linda, custe o que custar.

      Estapeou a água com força várias vezes:

    −Uma injustiça! Foi uma injustiça! Você e o Dorceu são homens, não precisavam, eu precisava. Eu quero, entendeu! Eu quero! O Dorceu não soube me dizer como foi, exijo que você me diga!... Eu quero minha juventude novamente!

      No tempo em que a prefeita parou com os gritos para tomar fôlego falei pausadamente:

   −Dorceu está morto. Foi assassinado no bar do Simenes há meia hora atrás.

     Quando ela tornou a falar mal enxerguei seu rosto. As águas ao seu redor fervilhavam intensamente fazendo estourar bolhas que as respin-gavam para todo lado.

   −Mentira! Impossível! − gritou − Dorceu é imortal!

   −O Delegado Og deu-lhe uma facada, está morto −  retruquei.

      Suas lágrimas misturaram-se às que vinham das fornalhas do centro da Terra:

   −Foi o Xerxelino que fez tudo desandar, nossos planos, nossos lindos sonhos, o sonho das três Terezas... O Dorceu era imortal, ia realizá-los... Maldito Xerxelino, como gostaria de tê-lo matado...

   −Não foi você que o matou? −perguntei − você estava disfarçada no comício

   −Não, alguém atirou antes de mim.

      Durante algum tempo estivemos em silêncio. O borbulhar ao seu redor suavizou-se quando aos poucos sua expressão mudou como a querer me seduzir:

   −Diga-me exatamente o que fez para ... Como você está belo, que pele... Eu fico na água quase o dia inteiro e não me acontece nada, por favor, eu lhe peço, diga-me como conseguiu isso?




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     Contei-lhe então as circunstâncias em que tinha me banhado desde a minha chegada em Xáguas, omitindo é claro o episódio que envolvia o Bentley.

     Quando terminei a mulher explodiu:

   −É a paixão! O enxadrista desovou tudo o que reprimiu na vida... Foi a paixão desvairada... Foi isso! Paixão desmedida atiçada pelos vapores! O Dorceu também tinha uma paixão assim pela doceira. Eu também quero uma paixão assim. Você precisa me ensinar...

      Não pude conter um sorriso irônico e talvez tenha sido o meu sor-riso que a fez sair daquele desvairo e se recompor. Voltou a ser formal e autoritária quando pediu que me retirasse.

      Quando consegui chegar à rua através daqueles corredores labi-rínticos, tive uma surpresa. Os funcionários da prefeita esperavam-me e conduziram-me ao helicóptero. Este me deixou perto do Grã Xáguas.

      No hotel, como não podia passar pela portaria, tive que pular um muro para chegar ao meu quarto. Providencialmente eu estava com a chave. Tarde da noite, mergulhei em um sono abissal.

 

Quarta feira

 

      De manhã, logo que acordei, fui olhar meu rosto demoradamente no espelho. Pela primeira vez aceitava a realidade. Eu era agora outra pessoa... Outra que conhecera há muito tempo... Eu mesmo mais jovem! 

      Ao me dirigir para o refeitório para o café da manhã não vi nin-guém, o hotel estava deserto. Perambulando por ali achei o Rosalindo em um canto. Sem uniforme, abatido. Perguntei pelos hóspedes.

   −Foram cedinho para o aeroporto, acabou a estadia dessa turma do pacote turístico, não está sabendo? Alias é a sua turma... Hoje é quarta...

   −Eles não foram informados dos bichos que invadiram o avião?

   −Foram avisados que há problemas com o vôo, mas sabe como são os turistas, estão apreensivos, têm medo de perder o retorno.




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   −Mas, e os outros funcionários do hotel?

    −Aproveitaram a folga e se foram, só eu fiquei de plantão... Sente-se aí Tec, vou lhe servir o café.

      Antes de ir para a cozinha sorriu e disse:

    −Já  viu sua cara?... Aqui em Xáguas acontece cada uma...

      Voltou a falar enquanto servia café e bolinhos:

    −Estou muito apreensivo com o Aníbal. Está sozinho lá no avião e não arreda pé... Está correndo perigo...  é alérgico a inseticidas.

      Bebi um gole do pavoroso café, café de hotel...  Mudei de assunto:

   −Você devolveu o quadro da Lempicka?

   −Devolvi, foi moleza....

      Perguntei incisivo:

   −Rosalindo, quem tirou as fotos no comício, quem estava com a má- quina?  Há uma terceira foto, onde ela está?

    −Quem tirou as fotos foi a menina, ela deve saber se há mais alguma.

    −Que menina?

    −A menina, balconista da sorveteria...

      Com os ventiladores desligados o calor no restaurante estava insu-portável. Dei um soco na mesa fazendo a manteigueira voar longe.   Gritei:

   −Porra! Rosalindo! Assim não dá! Você vai ou não vai me contar o que aconteceu naquele maldito comício... Que menina é essa que apareceu na história?

    −Minha prima, a balconista da sorveteria...

      Gesto reflexo ele ajoelhou-se e tentou limpar a lambuzaria. Quando se levantou e ia me dar uma resposta o restaurante foi invadido por vo-zes aflitas.

      Era incrível como a morte do Xerxelino insistia em permanecer obscura. Dezenas de pessoas estavam a poucos metros da vítima, entre elas, pessoas amigas, minha namorada, eu mesmo.  Entretanto o aconte-cimento insistia em continuar nebuloso como que envolvido na atmos-fera fumarenta de Xáguas...




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      As vozes denunciaram a chegada de Tereza e mais outra moça, a Shirley. Esta quando me viu soltou um gritinho:

    −Nossa, o que é isso... O senhor está diferente... É o Tec? O mesmo que ficou comigo lá na delegacia?

      Tereza estava nervosa, quase chorando:

   −Tec Lado, precisamos tirar o Aníbal do Boeing, vão jogar bombas de inseticida lá dentro, ele vai morrer, é alérgico!

      Pouco me importava. Se caísse uma bomba em Xálguas eu ia ficar até alegre; mas não podia ver Tereza daquele jeito. Mesmo assim não re-sisti ao impulso de fazer uma brincadeira:

   −Besourinhos coloridos não invadem um avião sem um motivo.. Deve ser a comida que servem no avião...

      Evidente que ninguém achou graça. Nem eu.

      Não me lembro qual de nós teve a idéia de consultar a vó de Tereza.  Afinal ela não era uma catedrática nas ciências ligadas à natureza?  Quem mais do que ela poderia oferecer uma solução para o drama do Aníbal?

   −Quem sabe ela dá um jeito − concordou Tereza − eu e Tec vamos lá na minha avó e vocês vão até o aeroporto tentar entrar no avião.

      

      O leitor desavisado pensará estar a ler o roteiro de um filme do cinema mudo, daqueles em há correria o tempo todo. O mais atento perceberá que o meu relato se mantém o mais fiel possível ao que se passou em Xáguas naquelas minhas férias:

      Lá estava eu novamente na estrada chicoteado pelos perfumes da minha chauffeuse.

      

      Ao entrarmos na sala da velha senhora, outra vez, a música que soava no ambiente causou-me arrepios. Como ela agüentava ouvir Bartock o tempo todo?  Nos aproximamos, contemplamo-la debruçada no teclado, cercada pelo enorme computador.

      Quando nos viu, antes que disséssemos qualquer coisa levantou-se e começou a rodopiar como uma ave ferida:




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   −Não adianta, não conseguirei continuar o experimento, maldito Xer- xelino! Estragou tudo!

      Nesse tempo em que a avó falava, Tereza tinha tirado macacão e estava com um short curtinho ao meu lado. Minha vontade era agarrá-la, minha atenção estava penosamente dividida...

      A cientista rodopiou mais algumas vezes no espaço de seu escri-tório. Era evidente seu desespero. Encarou-nos com seus grandes olhos verdes:

   −Nós, os naturistas do acampamento de Felizcidade tínhamos gran- des ideais... Eu era muito pequena, mas já entendia muita coisa. Eram grandes ideais... Criar uma vida perfeita, sabem o que é isso?... Uma vida perfeita para todos os humanos...  Apanhou um CD roon que estava na escrivaninha e brandia-o no ar:

   −Eu encontrei um caminho para realizar aqueles ideais...Trabalhei minha vida inteira sem um minuto de descanso nesse projeto, entenderam? Ampliar a inteligência humana até limites inimagináveis entenderam? Inundar o mundo de inteligentes, entenderam?

      Agora sua voz era cavernosa e se tornava mais ainda misturada à musica de Bartock:

    −Íamos alcançar a felicidade, o maldito Xerxelino estragou tudo, ele acabou com tudo!

      À medida que ela continuava a falar, a repetir, invadia-me uma irritação. Um profundo mal-estar  me levou a interrompê-la aos gritos:

   −Há meninos com essas coisas enfiadas na cabeça?

   −Meninos não há −  respondeu −  não se horrorize rapaz, não pensávamos controlar cérebros mas desenvolvê-los, não queríamos impor ideais, comportamentos, essas coisas. Simplesmente soltaríamos nossos produtos super-dotados no mundo. A partir daí a riqueza se alastraria... A felicidade... Não como uma pluma e sim como um vírus...

   −Mas doutora... A senhora é uma mulher sábia, não percebe que tudo isso é uma loucura irrealizável, é uma utopia idiota, mesmo que não fosse, sempre há imprevistos...

   −Imprevistos... O nosso imprevisto foi o Xerxelino, maldito Xerxelino!




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      Naquele instante Tereza entrou na conversa.  Choramingando con-tou a situação do Aníbal, implorou à cientista uma saída para salvá-lo.   Mas a doutora estava desvairada:

   −Bobinha! Estou muito velha para entender de feromônios!

      A resposta abrupta deixou Tereza desconcertada o que a fez correr para fora da sala aos prantos...

      A única sobrevivente ainda viva da Felizcidade continuava agita-díssima...  Brandia o CD no ar como se fosse uma espada:

   −Todo o meu conhecimento acumulado em décadas de pesquisa está resumido aqui...  Está aqui, em mais nenhum outro lugar... Vou apagá-lo agora. Vou apag...

      Eu já estava com o saco cheio daquilo tudo, não agüentava mais presenciar aquele melodrama. Pouco me importava o que ela ia fazer... Sai da sala e fui para perto de Tereza... Foi como em uma festa, quando você abandona uma conversa enfadonha e vai lamber um pedaço de bolo.

      Já estávamos no maior agarramento quando escutamos um tre-mendo estouro na sala. Corremos e vimos à doutora caída numa poça de sangue. Demoramos a entender o que acontecera.

     O CD explodiu no drive do computador e um estilhaço rompeu a jugular da mulher.

 

      Novamente outra cena de sangue! Que sina me arrastava a teste-munhar os acontecimentos fatídicos que despencavam sobre os descen-dentes da três Terezas?

   −É muito azar, muita coincidência!

      Murmurava isso sem parar, abraçado a Tereza. Seu corpo trêmulo de emoção queimava-me por inteiro.

      

      Comunicamos o acidente ao Delegado que chegou rápido. Veio no carro branco do médico. Os dois fizeram algumas perguntas e ficaram um longo tempo a examinar a vítima.

      Por fim, Og Gudião veio ao meu encontro e falou baixinho:




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    −Ô enxadrista, larga a Tereza e some daqui, vai embora, some da   minha frente que nós vamos cuidar de tudo... Providenciaremos uma grande homenagem a essa cientista...

      Sua ansiedade em me ver fora da cena era tanta que até chamou um táxi!

      O automóvel, igual aos outros poucos que rodavam em Xáguas, desfazia-se em ruídos e fedores quando cheguei ao Aeroporto. Já passava do meio-dia e o calor no saguão estava insuportável.

      Logo ao entrar avistei o pessoal do meu pacote turístico que formava uma longa fila frente à porta que dava acesso à pista. Andei até ao vistoso box em forma de semi-esfera no centro do átrio e encos- tei-me no balcão. A balconista logo se achegou oferecendo-me doces em calda. Puxei conversa, ela comentou:

   −Está vendo os turistas? Não querem sair da fila nem pra comprar pelo menos uma balinha...  Alguns comem das guarnições que trouxeram, estou achando que vão até passar fome... 

      Fiquei observando a fila. Figuras suarentas, algumas sentadas em malas e sacolas. As mulheres abanavam-se vigorosamente entre um e outro lamento.

      Pensei em voz alta:

   −Por que será que só as mulheres usam leques?

      A moça dos doces escutou e respondeu qualquer coisa que nem ouvi. Sem dúvida, era um comentário malicioso.

      Não ouvi a resposta que ela me deu porque outra coisa chamou minha atenção. Havia uma movimentação diferente ao nosso redor. Homens uniformizados instalavam um cordão isolando a fila dos via- jantes. Aproximei-me dos portões envidraçados e vi um carro andando na pista em direção a aeronave.     

      Duas moças bastante maquiadas e uniformizadas passaram por mim. Sorriam e conversavam entre si fazendo anotações em pranchetas. Alcancei-as e perguntei o que acontecia.   

    −Estão removendo o avião que está com problemas. É para liberar a pista. Logo vai chegar a aeronave da quinta-feira que traz o próximo pacote turístico.




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creso

 

    −Mas... e esse pessoal que está na fila? − perguntei − Eles embar- carão nesse  avião?

    −De jeito nenhum... Vão ter que esperar o avião problemático ser liberado − respondeu uma delas − O avião que virá não vai levar ninguém, prosseguirá viagem para o norte.    

      Olhei outra vez para a fila. O calor torvo abatia cada vez mais aquelas pessoas. Alguns cochilavam. Um odor desagradável misturado a moscas começava a se fazer sentir. Entrevi circulando entre eles uma menina com uma caixa a tiracolo. Observei melhor e vi que ela vendia sorvetes. Depois que ela percorreu toda a fila fiz um sinal pedindo-lhe um picolé.  Ainda tinha um, de araticum. Perguntei:

    −Eu conheço você, você não é a balconista da sorveteria lá da cidade, prima do Rosalindo?

    −Sou, como o senhor sabe?

    −Seu primo me falou que você estava com uma máquina fotográfica no comício do Xerxelino.




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   −Não sei nada  disso − ela respondeu.

   −Deve saber sim, seu patrão me contou que você apareceu lá na sorveteria com uma máquina quebrada e com esta foto.

     Mostrei-lhe a foto do quadro da Tereza Lempicka.

   −Essa não foi eu não, foi seu Deolindo que tirou do quadro na casa dele...

    −Mas as outras?  Rosalindo falou que foi você que bateu...

      A menina devia ter uns treze anos mais ou menos. Tinha olhos espertos e cabelo ondulado. Apoiava um pé na caixa de isopor vazia.  Antes de responder, olhou para a bolsinha que segurava com força contra o peito.

   −Meu primo pediu para eu fotografar aquela palhaçada deles, a máquina é do seu Deolindo,  pai dele, uma velharia!

   −Existe mais uma foto, não existe?...  Uma foto da palhaçada...

      Ela olhou aflita outra vez para bolsinha. Rápido tirei a bolsa da mão dela, virei-lhe as costas e abri. Dentro havia uma foto toda amassada.    Fiquei estupefato. Retratava quatro moços vestidos na cor verde empu-nhando quatro revólveres reluzentes. A imagem fixou o momento preciso em que saia fumaça dos canos das armas!

   −É essa a palhaçada? − perguntei

     Quando terminei a frase ela puxou a foto e saiu correndo. Fiquei com metade rasgada na minha mão. A metade que só mostrava da cintura para baixo dos ambientalistas. Nela apareciam duas calças masculinas verdes e duas mini-saias também verdes. As pernas de Tere- za eram realmente lindas.

      

      Fiquei ali plantado, cara de bobo, com o pedaço de papel rasgado na mão. Como um gato que erra o pulo, disfarcei e voltei ao balcão dos doces. Falei para a vendedora:

   −Sabe que eu deveria estar naquela fila?

   −Você também vai embarcar? − perguntou.

   −Não sei...

      Ela me olhou interrogativamente.




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   −Pra falar verdade, eu nem sei o que estou fazendo aqui, ou melhor sei, estou aqui porque a mulher por quem estou apaixonado mandou que eu viesse salvar o amigo dela...

      A mulher fez um esgar assustado, deu de ombros e desviou o olhar.

   −Onde fica a sala do gerente desse lugar?

      Ela me indicou uma das portinhas em torno do imenso saguão. Fui até lá e perguntei pelo gerente.

   −Está ao telefone − respondeu a secretária − vai demorar.

    −Eu espero, não tem problema.

    −Não adianta, ele está tratando de um assunto importante com o pessoal de Metrópolys, quando é assim demora muito.

      Fiquei ainda durante algum tempo na sala de espera, mas depois percebi pela cara da moça que a minha presença estava incomodando.

      Voltei ao saguão, me dirigia outra vez ao box quando escutei:

    −Rapaz.. Rapaz!

      Custei a perceber que era a mim que alguém chamava. Virei-me e vi o pastor Jonas. Estava na fila e acenava para que me aproximasse.

      Perguntou:

    −Você deve ser o filho do Tec? Como é parecido... Por onde anda seu pai, ele sumiu...

      Fiquei mudo, pois não sabia e não podia responder àquelas per -guntas.   Ele continuou:

    −Veja que desagradável, Tec... Posso chamá-lo assim?... Parece que houve alguma coisa com o avião...  Algo relacionado com bichos...Mas há males que servem para o bem... Ficar desde cedinho amargando nessa fila serviu para refletir, tive uma grande idéia.

    −É, qual foi?

    −Estive pensando e cheguei a conclusão que tudo o que fazemos e pensamos fica gravado. Podemos gravar imagens e sons num pedacinho de plástico porque não imaginar que a natureza tem um mecanismo semelhante? Haverá um lugar, não sei aonde nem quando, em que poderemos acessar os momentos felizes de nossa vida e revivê-los quando quisermos. Como a manusear um dial! O que acha? Não é uma


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idéia incrível? Vou disseminar isso, vou ser um sucesso, vou arrasar, não concorda?

      Parou de falar e pôs a mão no peito como se estivesse sentindo uma dor...

 

      O consenso para mim era que eu tinha que comer alguma coisa, pois já se fazia o meio da tarde. Estava faminto... Por ali só havia a semi-esfera que vendia doces e as lojinhas de quinquilharias...

       Retornei à semi-esfera e me fartei com dois potes de doces em calda.  Enquanto comia, escutei o ronco de um avião pousando.  De -pois de algum tempo os passageiros do novo pacote turístico passavam por mim. Um deles parou e perguntou:

    −Como é?...  É legal aqui?  É verdade que as águas borbulham?

    −Como no inferno − respondi.

      Voltei outra vez para perto da fila, me despedir do pastor Jonas.  Perguntei:

   −Sabe que o Dorceu foi assassinado? Sabe da morte da cientista? Sabe quem matou Xerxelino?

       Olhou-me espantado:

    −O que é isso Tec, está pensando em mortes, tem que pensar na vida moço...

    −Jonas, sabe que tem um homem dentro do avião bichado?

    −Um homem no avião... Furou a fila...

      Falou em voz alta, provocou um rumorejar entre o pessoal que esta-va perto.

      Alguém uniformizado aproximou-se a ordenar:

   −Moço, ou fica fora ou além do cordão de segurança, aqui não pode.

      Quando abracei o pastor, despedindo-me, tive um pressentimento ruim; em seguida juntei-me aos turistas recém chegados e entrei no ônibus que os levaria ao hotel Quando este lotou iniciaram uma chamada para conferência. Passei despercebido, agachado no fundão.

      Quando cheguei ao hotel Grã Xáguas a primeira coisa que vi foram minhas sacolas, inclusive a que continha o tabuleiro com as peças do


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xadrez. Estavam na portaria, no chão, perto da saída. Apanhei-as e fui até a calçada. Sentei na sarjeta a refletir.

      Se nada tivesse acontecido eu deveria estar agora naquela fila do aeroporto, irritadíssimo com o atraso do vôo. Provavelmente nem fica-ria sabendo qual o incidente que o causara... Examinei minhas mãos com cuidado, a pele dos meus braços... Estavam diferentes, aquilo era real... Eu não era mais eu!

      Dirigi minha atenção às minhas sandálias, meus pés estavam sujos...  precisava tomar um banho... mas, tenho que tomar cuidado com a água desse lugar...molhando-me outra vez posso até retornar à adolescência...

      Uma voz atrás de mim assoprou minhas reflexões:

   −Agora que não é mais hóspede nem velho, posso chamá-lo de você...

     Era o Rosalindo que falava. Sentou-se ao meu lado na calçada e entregou-me um pacote. Dentro dele havia um sanduíche de carne assa-da e uma garrafa de vinho.

  −Oferta da casa − emendou.

     Sabia que eu estivera no Aeroporto, estava ansioso para saber notícias do avião bichado, da situação do Aníbal.

   −Nem com o gerente eu consegui falar − expliquei − até a fila dos passageiros foi abjurada.

      Comentamos a invasão dos besourinhos que com certeza era conse-qüência do desmatamento

   −Maldito Xerxelino!...  − exclamou

   −Por falar em Xerxelino − eu disse − Veja isso:

      Peguei a foto rasgada e mostrei-lhe:

   −Agora vocês não podem mais tergiversar... Que significa isso? Todo mundo atirou no Xerxelino?

   −Foi uma manifestação de protesto que bolamos − falou trêmulo, visivelmente emocionado − nos vestimos de verde e... os tiros eram de festim...

   −É, muito bacana −eu disse − mas ele morreu, como se explica isso?

   −Não sei Tec, não sei... era para ser um evento muito legal, minha prima fotografou...




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   −Com a Polaroid...

   −É... a Polaroid do meu pai...ele me emprestou...

   −Mas seu pai e sua mãe renegam você, como foi isso?

   −Só na frente das pessoas...

      Dizendo isso ele levantou-se e correu para dentro do hotel. Abri a mala que estava ao meu lado, peguei o diário do Xerxelino e os per -tences do menino da cratera e coloquei-os numa sacola. Em seguida me mandei para a estrada. As restantes coisas da mala e também os peões bispos e tabuleiro ficaram lá, espalhados na calçada, afinal não mais me diziam respeito...

   

      Indubitavelmente eu era um paradoxo ambulante na caminhada que fiz até a cidade. Quase nada mais em mim se assemelhava ao senhor que a toda hora fora confundido com o vice-governador não sei da onde. Ao passar pelo pequeno bar do Simenes só consegui vê-lo como um cenário mambembe, indigno das emoções que lá transbordaram.

      Cenário que estava manchado de um amarelo violento, de um Sol que relutava em se esconder em um crepúsculo parecia nunca se acabar.

      À medida que me aproximava da cidade fui notando cada vez mais uma agitação estranha. Surpreendeu-me a efervescência do povoléu, mais ainda com os rasantes que o helicóptero de Newxáguas fazia sobre a cidade. Apressei-me em perguntar a um rapaz fardado o que estava acontecendo:

   −São os funerais − ele disse −  os funerais do seu Dorceu e da doutora Tereza Maria.

   −Mas a cientista morreu hoje de manhã! − exclamei.

   −Anteciparam as solenidades por causa do pessoal importante que chegou  no avião dos turistas − ele disse − também por causa do calor, está demais...

      Subi numa mureta e fiquei observando o cortejo. Os luxuosos esquifes do Dorceu e da doutora Tereza Maria, seguidos por grandes e lustrosos automóveis negros, destoavam na esquálida cidade de Xáguas.




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      Em um dos carrões que passavam entrevi a Tereza ao lado do dele-gado Og Gudião. Também me surpreendeu o séqüito dos meninos do internato vestidos de preto.

      Alguém que estava ao meu lado assistindo o cortejo comentou:

   −Veio gente importante de fora, chegaram no avião que trouxe os turistas...

      Olhei para ele. Era um homem simples, chapéu, mãos calejadas. Sua face era serena e firme. Diferente da minha que devia refletir um estado de espírito assombrado:

      −Meu senhor − declamei − a vida é um baile a fantasia, esses que estão aí, formais, compenetrados, pertencem ao bloco dos tartufos... Os turistas que há essa hora já devem estar se refestelando nas águas ferventes são do bloco dos flauteiros... Agora, eu, aqueles dois mortos que estão indo ali e outros, que se apaixonam, transfiguram-se, sabe de que bloco nós somos? 

      Coloquei as minhas duas mãos nos ombros dele:

   −Do blocos dos...

      Não terminei a frase. Ele se assustou:

   −O que é isso moço?

      Empurrou-me. Cai em uma moita cheia de espinhos. Difícil des-crever a dor que senti quando os espinhos me furavam a pele. Depois de me desvencilhar, vi que sangrava em vários lugares do corpo. Deitei-me na grama e esperei a dor passar. Aos poucos a pequena multidão rareou e a praça ficou deserta.

     

      Chamou-me a atenção, no largo, uma casa estilo art-deco cuja brancura brilhava sob os últimos raios do sol daquela quarta-feira feira. Estacionado em frente dela estava um carro branco. Presumi que devia ser a casa do médico e era dele que eu estava precisando naquele momento. Toquei a campainha e foi o doutor mesmo que me atendeu:

   −Tec Lado, fenômeno raro das termas, entre!  O que está fazendo aqui?

      Subi as escadinhas da casa.   

 




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      −Rapaz, você está todo machucado, o que aconteceu? Isso não pode ficar assim... Vou dar um jeito nisso. Venha aqui, entre no meu consultório.

      As mãos do doutor eram alvas e delicadas. Pacientemente retirou cada espinho do meu corpo e fez os curativos. Enquanto os fazia fiquei olhando para um grande frasco de vidro que estava no chão, em um canto. Dentro dele havia um feto conservado em formol. Um feto deformado, com uma cabeça enorme. No resto do mobiliário quase tudo era excessivamente branco.

      Terminada medicação ele falou:

    −Removi todos os espinhos e desinfetei as feridas. Agora você vai ficar bem, mas não se esqueça, ninguém pode ficar sabendo do seu rejuvenescimento, as conseqüências seriam trágicas, imprevisíveis...

      Sentou-se na escrivaninha, retirou um pequeno pião branco de uma das gavetas e se pôs a rodá-lo com o polegar e indicador. Falou:

   −Como é que você vai se arranjar lá na sua terra, é São Paulo, não é? Como é que você vai se arranjar assim, desse jeito, com outra cara?

      Ante meu silêncio, ele continuou:

   −O que você sabe fazer? É enxadrista, se não me engano, não é?

   −Sou enxadrista profissional...

   −Aqui você não vai poder ganhar a vida com isso − falou com um sorriso sardônico − talvez um trabalho manual, qualquer coisa assim...

      Aproveitei o silêncio que se seguiu e perguntei:

   −Doutor, examinou o Xerxelino depois do assassinato, saberia dizer quantos tiros ele levou?

   −Venha aqui, vou lhe mostrar − respondeu.

      Entramos em um ambiente com um cheiro muito forte. No centro da sala, lá estava, enfiado em uma banheira cheia de formol, o cadáver do Xerxelino.

      O homem de branco arregaçou a manga. Sem luvas mesmo pegou o homem morto pelos cabelos e o levantou até o peito do cadáver ficar fora do líquido:

   −O tiro acertou bem aqui, certeiro, no coração.

      Impressionante ver o Xerxelino, olhos arregalados, pétreos:




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   −Estão loucos? Deixar o corpo aqui, desse jeito?

   −Calma, Tec Lado, esse assassinato trouxe uma complicação muito grande para o Gudião,  Xerxelino era muito conhecido em Metrópolys...

      A mão branca molhada de formol pousou no meu ombro:

   −Enquanto não se resolve o que fazer,  Xerxelino fica aqui. 

      Com a mesma mão cofiou os grandes bigodes brancos e continuou a falar:

   −A única pessoa que viu ele morrer foi você... Na confusão todo mundo correu... Só você viu quando ele deu o último suspiro, não foi?

   −Foi...

   −Pois é, há muitos boatos, a coisa ficou confusa...

     

      Sai da casa nauseado, andei um pouco e vomitei. Estava muito mal, com muita sede, precisava urgentemente de água...

   −Outras águas não temos!

      Foi isso que o homem do bar respondeu quando pedi um copo de água que não fosse de Xáguas.

      Pedi então uma garrafa de vinho. Depois de algum tempo e mais vinho eu já estava bem zonzo. Lembro-me de haver gritado várias vezes:

   −Quem matou o Xerxelino!...Quem matou o Xerx...

      Desmaiei emborcado na mesa.

      Quem me acordou foi Tereza. Vestia um traje preto com saias curtas e pela primeira vez a vi com saltos. Providenciou uma bebida que não tinha álcool. Também comi umas coxinhas... Reanimado, fiquei a resmungar:

   −Foi um fuzilamento, Tereza, foi um fuzilamento!

   −O que você está dizendo?

   −O Xerxelino. Vocês o fuzilaram!

   −Ninguém quis matar ninguém − falou acariciando meu rosto − Era tudo uma performance.... Os tiros eram de festim, nós quatro vestidos de verde atiramos ao mesmo tempo. Foi tudo combinado, depois abriríamos uma faixa “Morra Xerxelino - Viva a floresta”. A prima do Rosalindo ia fotografar tudo. Bem bolado não acha?




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   −Tereza, Tereza! Você não está me escutando! Foi um fuzilamento, Xerxelino está morto, um buraco enorme no peito!

   −Tec, você está todo machucado, o que houve? Está sujo! Quem fez isso com você?

   −Tereza, por favor me escuta... Na manifestação que vocês fizeram, um dos revólveres tinha uma bala de verdade. Só pode ser isso!  Xerxelino foi morto com uma só bala!

      Ela estava sentada bem juntinha a mim... Colocou meu rosto entre seus seios:

   −Acalme-se Tec, você tomou muito vinho...

      Durante algum tempo me senti uma criança amparada pela mãe em total abandono. Tereza esperou pacientemente que eu serenasse. Espe-rou até eu me aprumar e olhar para fora através das janelas do bar e dar-me conta de que já se fazia noite. Que dia aquele! Presenciara uma morte, funerais, um cadáver boiando numa banheira de formol, uma fila de gente abandonada no aeroporto. O que mais poderia acontecer?

       Quando viu que eu já estava melhor, Tereza me contou que estivera a tarde toda nos funerais da avó. Todavia, enquanto participava das solenidades pensara o tempo todo na situação do Aníbal no avião. Continuava a insistir que eu tinha que ajudá-la a encontrar uma solução...

   −O Delegado recebeu as bombas de inseticida? − perguntei.

   −Parece que já recebeu, até há pouco cuidava das homenagens, mas agora foi  para o aeroporto. Vão jogar as bombas, Tec! Aníbal é alérgico, pode até morrer... Precisamos ajudá-lo!

    

      Deixamos o bar em direção ao aeroporto como duas figuras fantasmagóricas na escuridão da estrada. Uma bruxa motoqueira e um espantalho agarrado a ela.

      Logo ao entrar no saguão nos deparamos com o Delegado Og fazendo uma preleção aos viajantes. Furtivamente, ficamos atrás da semi-esfera a ouvi-lo:

   −Meus queridos, em nome de Xáguas  pedimos mil desculpas por esse pequeno contratempo, mil providências já foram tomadas.  Dispo-


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remos colchonetes e logo mais será servido um lanchinho. Amanhã será um novo dia!  Obrigado. 

      Depois do discurso o Delegado Gudião entrou na sala do gerente do aeroporto. Enquanto ele estava lá, puxamos uma prosa com a balco-nista do box redondo:

   −Morreu um homem aí na fila hoje − disse ela com expressão dra- mática − se sentiu mal o velhinho, abanaram, levei água com açúcar mas não adiantou... Bateu as botas...

   −Quem foi que morreu? − perguntei.

   −Não sei, dizem que ele falava e repetia, “recebi um chamado... recebi um chamado, doei tudo o que eu tinha”...

      Calou-se quando viu Og Gudião sair da sala do gerente. Ele e mais o médico dirigiram-se para a saída. Entre os homens que os acom-panhavam, dois carregavam uma maca com um corpo coberto. Pelas sandálias reconheci o pastor.

      Após ele sair, eu e Tereza fomos às janelas envidraçadas tentar en-xergar a aeronave. Agora o avião estava longe, mergulhado na escuri-dão. Esforçávamos para ver alguma coisa quando fomos surpreendidos pela presença do Rosalindo. Ele e Shirley também estavam lá, preocu-pados, fazendo mil perguntas a respeito da situação do Aníbal.  Depois de muita confabulação decidiram, eles e Tereza, irem até o avião. Iriam contornando a pista através do mato.

      Esperei-os durante mais de uma hora. Durante esse tempo arranjei para mim um dos lanchinhos que o delegado mandou distribuir.

      Voltaram desanimados, por não terem conseguido falar com o companheiro. Depois de muitos lamentos, Shirley e Rosalindo foram-se embora na pequena motocicleta do garçom.

     O saguão estava deserto àquela hora da noite. Via-se somente a fila dos turistas com as pessoas dormitando amontoadas sobre malas e sacolas.  Fomos para fora e ficamos perto do banco dos taxistas. A poucos metros de nós começava a mancha escura da mata que contor-nava a pista.    

   −Quando o sol nascer  irão dedetizar, Tec... Até lá temos que encontrar uma saída para o Aníbal!




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      De saltos muito altos ela ficava da minha altura, sua boca quase roçava na minha, sua aflição cortava como uma lâmina.

   −Tereza não entendo de besouros!

      A mata selvagem começando ali a poucos metros, nossa proxi-midade e isolamento, começaram a despertar desejos. Tudo o mais foi esquecido. Lembrei-me do colchonete que seria destinado ao pastor e fui buscá-lo. Deitamo-nos ao relento na calçada do aeroporto.

      Sei que dormi um pouco, pois sonhei que o pastor voejava em torno de mim como uma libélula e recitava:

                 

                  Quem souber o sentido da vida

                  Guarde silêncio ou será desmentido

                  Tamanha ousadia estragará o bailado

                  Das fantasias a que tudo prossegue...

 

                  Quem souber o sentido da v...

 

Quinta feira

     

      Amanhecemos assustados com as vozes de dois homens farda-dos que nos olhavam curiosos. Apresentaram–se como piloto e co-piloto do avião bichado. Perguntaram:

   −Vocês também são passageiros do vôo X2x9?

   −Ele é − respondeu Tereza.

   −Não adianta nada ficar aqui, o avião não vai sair tão cedo. Falta fazer uma limpeza e revisão completa.

   −E os bichos? − Perguntei.

   −Foram eliminados. Havia um homem dentro do avião, morreu com um choque anafilático.

      Mais uma vez, vimos passar uma maca.  Agora com o corpo do Aníbal. Trocamos olhares estarrecidos enquanto os aviadores se


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afastavam com andar cadenciado, ostentando seus uniformes impe-cáveis.

   −Nunca vi coisa mais bisonha! − exclamei − Não houve protestos, manchetes em jornais, nada. Sacrifício inútil!

   −Foi só pelo amor aos bichinhos − ela disse − só isso, mais nada, você não entende!

    −Não há o que entender... Gente sensata não se apaixona por besourinhos... Pelo menos até a ponto de sacrificar sua própria vida...

   −Nós vamos divulgar isso − ela falou com veemência.

   −Quem vai ficar acreditar? Logo deverá haver uma versão oficial, como por exemplo, “passageiro clandestino morre durante a desin-fecção da aeronave no aeroporto de Xáguas”. Depois disso o assunto simplesmente morre...

      Tereza estava descalça segurando os sapatos com grandes saltos nas mãos. Suas pernas estavam arranhadas devido à caminhada que fizera no matagal.  Mais evidentes quando ela rodopiou a saia curta ao proferir entusiasmada e ao mesmo tempo lacrimejante:

   −A barraca!... A barraca no meio da mata onde o Aníbal morava. Lá devem estar os estudos que ele fez do inseto. Talvez a gente encontre provas da grandeza de seu sacrifício!

       Entramos no saguão ficamos a olhar a fila. O instinto de sobre-vivência já sobrepujara quaisquer outros e os passageiros auxiliavam-se entre si. Vimos quando um deles foi buscar na semi-esfera vários potes de doces e os distribui aos mais famintos... Dois passaram carregando um carrinho com garrafas de água.

      Perguntei à Tereza:

   −Você não vai ficar com a consciência pesada sabendo que seu colega morreu quando você estava transando comigo?

      Mulheres jamais respondem esse tipo de pergunta. Puxei-a pelo bra-ço em direção a sua moto.

   −Leve-me à sua casa − pedi − preciso de um banho e estou com muita sede... 

      Peguei minha sacola que estava jogada num canto:

   −Tereza, vamos para sua casa!




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   −Não dá − ela respondeu.

   −Por que?

   −Meu pai agora está pegando pesado, não vai deixar...

   −Quem é seu pai?

   −O Delegado Og Gudião, não percebeu ainda?

      Sempre irei recordar a ocasião em que mais me senti imbecil na vida. Fiquei sem respirar e cai de bruços no colchonete. Aconteceu co-mo nos relatos de pessoas que estiveram perto da morte: O filme das minhas férias em Xáguas desandou no meu cérebro. Desde o primeiro dia, com todos os detalhes.

      Quando consegui tomar fôlego, projetei-o outra vez no interior dos miolos. O roteiro sem pé nem cabeça começou a se arrumar.

      O pai. O Delegado Og, naturalmente. O próprio pai preocupado com a filha andando por aí com um cinqüentão. O paizão escondendo a molecagem da filha no comício do Xerxe. A grande autoridade fingindo que não sabia de nada. Todo mundo fingindo que não viu nada. Por que ninguém viu quatro pessoas com revolveres na mão, atirando?   Agora ficava claro!  Ninguém viu porque a filha  do grande chefão estava na história!

       Depois a grande jogada...  O paizão arranjando um suspeito para apagar a enrascada da filha ...E quem foi o escolhido? O idiota aqui. Eu era a pessoa perfeita para servir de bode expiatório... Eu... Eu...  Um turista circulando desgarrado e ainda por cima ligado a Noverbs. A Noverbs...  do Xerxelino...

      Ainda estava deitado e Tereza agora estava calçada e me cutucava com o bico pontiagudo do sapato preto:

   −Não percebeu? Ele é meu pai. Muito prazer, Tec Lado, agora sabe, sou Tereza Gudião.

      Continuou me chutando enquanto eu tampava meus ouvidos para não escutá-la.




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      Num dos chutes, ela exagerou. Acertou as minhas costelas e doeu. Peguei suas pernas e a derrubei sobre o colchonete. Apertei-a junto a mim.

   −Onde vai me levar agora? −Perguntei.

   −Para onde eu quiser − ela respondeu.

     

      Dessa vez, fomos devagar pela estrada, estávamos sonolentos. Quase dormia aconchegado nas costas da minha namorada.  Tínhamos decidido que eu iria para a casa do Xerxelino. Era o melhor lugar para eu ficar, pois o Gudião por alguma razão jamais aparecia por lá.




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      Assim que ela se afastou ronronado com sua máquina vermelha, fui procurar uma caixa com garrafas de água que eu sabia existir por lá.  A geladeira da caverna do político, com suas guloseimas, também foi providencial.

      Mais tarde sentei-me no sofá e peguei a sacola que ainda estava comigo. Abri a latinha com os guardados do menino que achei na cratera. Lá estavam: as peças dos joguinhos, o alfabeto pornográfico, a carta. O programa de cinema datado de 1946, mesmo ano em que caiu a bomba que destruiu a Felizcidade.

       Não sabia definir exatamente a razão, mas as circunstâncias em que achei a latinha, seu conteúdo, eram fascinantes para mim.

      Mas eu estava muito sonolento. Desviei meu olhar para a foto da Claudia Ohana e hipnotizado, cochilei durante alguns minutos. Quando acordei abri o diário do Xerxelino. Muita coisa eu já tinha lido. O cara era mesmo um maluco total. Cada hectare devastado ele comemorava com expressões de triunfo. Mais à frente encontrei um trecho inte-ressante:

 

“Ontem eu visitei o blog da moça, da Shirley. Em vez de encontrar o que ela sempre escreve, confidências, as bobagens de sempre, me deparei com uma história a meu respeito. É muito estranho, mas eu não consigo me lembrar do que se tratava a tal história. Quando terminei a leitura me deu um sono profundo, dormi direto até hoje de manhã. Ficou um escuro na minha mente e quando acordei, voltei a acessar o blog. O título estava lá: “A verdadeira história de Xerxelino”. Todavia quando comecei a ler, o texto borrou, foi muito esquisito. Quanto mais eu o aumentava, mais ele borrava. Não consegui ler... e nem me interessa mais. O gostoso mesmo foi deixar um comentário daqueles que ela bem deve gozar ao ler com a mão lá naquele lugar.

 

      Li mais uma vez e depois mais uma vez... Era muito intrigante aque-le texto que achei no diário... Com violenta curiosidade corri aos tro-peções em direção ao computador, torcendo para encontrar o tal blog da moça... Fucei nos favoritos, não foi difícil acessá-lo.




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      O blog que se intitulava Blog da Floreshirley, 20 a 25 anos, Xáguas. Ela escreveu pela última vez dois dias antes da morte do Xerxelino. No post a moça dizia que ia contar um segredo importante a respeito de um cidadão de Xáguas. Colocou um título: “A verdadeira história de X”

      Resumo aqui, da melhor maneira possível, o que li no Blog.

 

      “Há 47 anos existia na região um andarilho com a acunha de Pé de Lata. Andava sempre errante, chacoalhando uma latinha. Dizem que dentro da lata havia brinquedos e pornografia. Reza a lenda que o anda-rilho pegava mulheres à força, mas elas acabavam gostando dele”.

“Assim aconteceu com Céuma, filha da milagreira Tereza do Céu, Tereza do Céu,...  que todo mundo sabe, foi uma das três sobreviventes da Felizcidade. Então como eu disse, Ceuma foi assediada pelo Pé de Lata e teve um filho com ele. O andarilho sumia por meses, até anos, mas sempre que voltava usufruía a Céuma”.

“Certa vez, quando o menino já tinha 10 anos, Pé de Lata ao transar com Céuma fez alguma coisa que a sufocou. Abafaram o caso dizendo que a asfixia foi devida ao excesso de plantas na casa fechada. O me-nino estava presente na cena. Viu tudo e ficou meio pancada. Esse menino é hoje o X , um maluco que vinga a morte da mãe derrubando árvores!”

 

      Impressionante o significado daquela latinha e seu conteúdo. Sem dúvida, uma peça significativa na história de Xáguas. Além disso, um objeto que marcou meu encontro com Tereza nas margens da cratera da bomba que destruiu o acampamento dos naturistas, Felizcidade.

      Abri a geladeira e peguei uma garrafa de champagne. Quando a rolha espocou parecia comemorar o descobrimento do trauma do Xerxelino. Servi-me de uma taça e logo depois de mais outra.

      O texto do Blog da Shirley fez minha imaginação alçar vôo como que impulsionada por um foguete. Idealizei, em carne e osso, o Pé de Lata sendo assassinado e empurrado para dentro da cratera. Despen-cando, deixando cair a latinha entre as pedras, no mesmo lugar onde a


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encontrei. Na cena que estava sendo projetada nos meus miolos, o assassino era o Dorceu... vingando a morte da irmã, Ceuma.

      Enchi mais uma taça de champagne e a bebi de um só trago. Ali estava uma tragédia esquecida no passado da qual restou a espiral gra-vada com a morte orgásmica da mãe. Espiral que se alojou como um verme na cabeça do menino. Traumas terríveis, capazes de gerar um psicopata.

      Bebi mais um trago no gargalo da garrafa... Minha imaginação foi mais longe:

      Talvez Pé de Lata também fosse um sobrevivente da Felizcidade. Por que não?... Um menino órfão, a perambular pela região, carregando as únicas coisas que conseguiu salvar da bomba... Órfão e andarilho, com destino diferente das três Terezas...

      Terminei as conjecturas esvaziando a garrafa... Joguei-me no sofá e gritei:

   −Só eu sei o conteúdo da latinha do Pé de Lata!

      À noite mal dormida aliada aos goles da bebida, fizeram a minha sonolência voltar mais forte. Com isso a foto da Cláudia Ohana que estava na minha frente foi se apagando. Dessa vez dormi um bom tempo. 

      Quando acordei voltei ao computador e acessei outros pôsteres da Shirley. Era claro que havia um diálogo rancoroso entre ela e o político. Pelo jeito, Xerxelino, anonimamente, inundava o blog da moça loira com comentários asquerosos.

      Shirley, outra pessoa cheia de motivos para matar o Xerxelino.

 

      Desliguei o computador e fui mijar na pequena toalete do covil.  Enquanto mijava reparei numa frase escrita na parede com letras gran-des, caprichadas: “Odeio espelho”.  Reconheci a letra do Xerxelino...

      Quando terminei de mijar, me olhei no espelho e me assustei. Mais uma vez minha mente se embaralhava... Devia ficar feliz, pular de ale-gria?  Sentimentos confusos...

      Como uma fuga, minha atenção voltou a se concentrar no assassinato do Xerxelino. Para mim, naquela ocasião, a solução do


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mistério representava uma libertação, uma saída. O Gudião me esqueceria e eu e Tereza viveríamos felizes para sempre em um lugar paradisíaco...

 

      O sol queimava tudo o que estava na sua mira quando fui para a rua no final da manhã daquela quinta feira.

      Decidi que meu próximo passo era conseguir a parte de cima da foto.  Se pudesse examiná-la melhor talvez descobrisse a pessoa que deu o disparo verdadeiro. Um tiro provoca um forte recuo, era só verificar quem, entre os quatro que atiraram estava afetado. Andei dois quar-teirões e entrei na sorveteria. Estava deserta.

      Esperei um pouco e de repente vi a cara da menina no meio dos pingentes da cortina. Deu uma risada e sumiu. Soquei o balcão, cha-mando-a. Ela reapareceu disfarçando um sorriso.

   −Onde está o pedaço da foto que ficou com você?

   −A foto é minha, você é que tem que me devolver a outra parte!  Correu para os fundos.

     Andei por detrás do balcão e peguei um picolé de guabiroba.  Enquanto lambia a delícia, esquadrinhei a sorveteria.

      Entre cartazetes, fixada na parede com um pedaço de durex, lá estava, a outra parte da fotografia rasgada. Hesitei em me aproximar da foto com medo que ela mostrasse Tereza sendo projetada para traz, fato que a revelaria assassina. Entretanto quando vi a fotografia soltei um grito de raiva. Junto com meu grito ecoou uma gargalhada vinda dos fundos da sorveteria. Era a menina que troçava da minha raiva.

      A foto estava toda rabiscada. Bigodes, cabeleiras, óculos e borrões fizeram-na virar uma maçaroca irreconhecível.

     

   −Traz para mim uma garrafa de água e os picolés, rápido!

      O delegado Og Gudião entrava na sorveteria de paletó e gravata, suando em bicas. . Sentou-se e me chamou para perto de si:

   −Finalmente consegui me livrar do pessoal que veio de fora, foi um sacrifício, você não imagina, os salamaleques e coisa e tal...




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      Eu tinha arrancado a foto da parede e estava com ela na mão. Ele a viu e disse:

   −Já estou sabendo dessa coisa ai, o que você está querendo com isso?

   −Essa foto mostra ou mostrava que os ambientalistas estavam no comício e deram tiros no mesmo momento em que Xerxelino foi atin- gido

   −Disse bem,  não mostra nada.

      Esperei a menina colocar uma bandeja com os picolés na mesa. Curiosamente eles estavam dispostos cuidadosamente em ordem alfa-bética: araticum, bacuri, brejauba, buriti, cagaita, curriola, guabiroba, jatobá, murici, mutamba, pequi.

   −Mas os moços confirmam que estiveram no comício e que estavam com revólveres...

   −Olha aqui, galego − ele já devorava o segundo  picolé e quase o encostou na minha cara − está vendo eu aqui de paletó e gravata? Formal. O que vale é o formal, entendeu? O que vale são papéis, carim-bos...  Provas claras e nítidas. Mesmo que essa foto estivesse perfeita o que provaria? Qual deles atirou? Que um deles tinha uma bala de verdade? Provaria? Porque não confessa logo que foi você?

      O cinismo escorria da cara do sujeito como a baba do sorvete. Nem a lembrança da faca entrando no peito do Dorceu me conteve:

   −Seu filho de uma puta, o que eu preciso fazer é ir ao orelhão ali na pracinha e chamar a polícia de Metrópolys... Eles precisam saber o que está acontecendo aqui... A morte do Aníbal, aquela fila absurda no aeroporto...

      Og Gudião já estava no terceiro picolé. Tirou o paletó, mostrando a camisa encharcada, deu um soco na mesa:

   −Tente tirar alguém da fila do aeroporto, eles só saem mortos. Até estou ajudando demais, não viu os colchonetes e lanchinhos?

   −Mas já morreu um na fila... O pastor...  O Aníbal, aquilo foi um crime...

   −Alguém sabia que aquele imbecil estava dentro do avião? Aqui na região está tudo na lei, meu amigo, as pessoas de fora vêm aqui e ficam maravilhadas com Newxáguas, com as obras de arte que temos lá, o


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cinema, o helicóptero, a grandiosa fábrica de artigos para propaganda política...

      O grandalhão estava cada vez mais exaltado, consumia já o décimo picolé, mutamba:

   −Ficam embasbacados quando ficam sabendo que há uma importante pesquisa sendo feita pela nossa cientista...

   −Mas ela morreu, a pesquisa se perdeu...

      Fez que não ouviu, continuou:

   −Que venham, que venham provar os nossos deliciosos doces em calda,, sorvetes, nosso artesanato, as milagrosas águas... Diga-me, quem não adora essas águas lambidas pela estrela moribunda no fundão da nossa Terra?

   −Mas...

     Gesticulava como se falasse para uma multidão:

   −É preciso também mencionar o glorioso e tradicional internato do Dorceu...

   −Você matou o Dorceu! − Gritei.

   −Foi o Simenes que matou em defesa da honra...

      Debruçou-se e falou baixinho no meu ouvido:

   −Você acha que eu ia dividir a doceira com ele?

      Mudou o tom de voz:

   −Formal! O que interessa é o formal. Tem uma confissão do Simenes assinada lá na delegacia... O Simenes defendeu a honra dele e fez muito bem, ninguém vai condená-lo...

   −Mas os ambientalistas de verde atirando lá no comício, todo mundo viu, eles mesmos confirmam....

      −Ambientalistas? Foi isso que você perguntou?... Os meninos no comício?... Não tem nada...

      Com um peteleco jogou a foto no chão:

    −Não tem nada, denúncia, fotografia, nada, é só você que está  falando isso, ambientalistas dando tiros, é muita imaginação sua galego!

   −Acontece muita coisa esquisita nessa cidade! −  disse me abaixando para pegar a foto no chão. 

   −O menina, traz um espelho aqui para o enxadrista se olhar!




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      Ela veio rápida, com um espelhinho.

   −Olha aqui seu, olha bem quem é esquisito, nem você deve saber quem você é!

      Dei um tapa, o espelho voou longe:

   −Não... Não pode ser assim...

   −Pode sim, galego, caia na real,  estou  achando que foi você quem matou o infeliz, eu só preciso da sua confissão, o que vai valer é a sua letra no documento e a sua cara naquela foto da pollaroid, isso é que vai ser o formal, você não interessa mais, já não tem a mesma cara. Você não existe!

   −Que absurdo, o criminoso aqui é você!.

   −Não entende? Com a confissão e a foto daquele cinqüentão que não existe mais eu encerro o caso do Xerxelino. Simples e rasteiro!... Com você mesmo que eu nem sei quem é, que é um homem sem identidade, não vai acontecer nada... Pode até se tornar um cidadão de bem aqui em Xálguas.

   −Mas...

   −E fique sabendo que ninguém vai acreditar nessa  sua transmutação, metamorfose, sabe-se lá o que é isso... Para prová-la vão querer vê-lo mergulhado nas águas, ver você regredir até ficar um ridículo bebesinho e depois... Um espermatozóide!

      De repente ficamos calados, um olhando fixamente para o outro.  Seu sorriso expressava bem o sentimento de vitória do qual estava possuído.

     Um vento começou a soprar vindo da rua, fazendo voar dezenas de guardanapos de papel que o homem havia usado para enxugar o suor.    Em seguida desabou um aguaceiro.     

      Uma pessoa com um grande capuz e capa marrom, ofegante e respingando, entrou na sorveteria.

      Quando se descobriu, vimos Tereza Cristina, a prefeita de Newxáguas. Sem o seu aparato me pareceu uma mulher comum, desar-rumada pelo tempo vivido. O delegado puxou uma cadeira:

   −Olha quem está aí, sente-se junto a nós.

      Ela ficou em silêncio enquanto se recompunha, depois falou:




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   −Maldita chuva, caiu bem na hora que desci do carro!

      Fez uma pausa e prosseguiu:

  

 

 

 

   −Não aquentava mais esse pessoal de fora, é um saco ficar  papari- cando... Mas morro de  prazer ao vê-los babarem diante de minhas obras de arte...

      Virou-se para o Delegado:

   −Jamais vou perdoá-lo por me chamar para a depoimento na dele- gacia, que grande merda aquela...

     −E eu jamais entenderei o que você fazia encapuzada no comício do Xerxelino.

   −O que tem isso demais... Ainda continua me considerando suspeita?

   −Acho que quem foi capaz de fazer aquela matança misteriosa de ca- chorros no Rio, é capaz de qualquer coisa...

      Ela retrucou, irada:




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   −Se fossem homens, dezenas deles, nas janelas e portões de suas casas, que gritassem várias vezes por dia, todo dia, e ainda por cima defecassem nas calçadas, aposto que ninguém ia achar estranho que alguém os enforcasse.

   −Essa conversa está muito besta, dona Tereza, já reparou quem está aqui do nosso lado?

   −Já reparei, é o Tec Lado, não vai tomar nada com a gente?

      Em seguida ela fez um gesto para a menina. Esta mais do que de-pressa trouxe um copo e uma garrafa de gim. Serviu uma dose e colo-cou um picolé dentro do copo.

   −Querem experimentar? Recomendo.

      Havia uma coisa que me intrigava muito naquela história dos fune-rais... Como aquela gente que eles diziam ser importante chegou tão depressa a Xáguas...  No mesmo dia da morte da cientista... Recusei a bebida e perguntei:

   −Quem é esse pessoal importante que está na cidade?

      Og Gudião que também recusou a bebida, respondeu:

   −Esse pessoal já estava convidado para uma homenagem que iríamos fazer para a doutora no dia de seu aniversário... Já estava marcada há muito tempo.   São gente das universidades, alguns até estrangeiros, tem político também...

      Tereza Cristina girou o picolé na bebida, bebeu um gole e inter-rompeu:

   −Era um evento importante para nós, o Xerxelino estragou tudo...

   −Foi uma peste − emendou o delegado − nem Shakespeare imagi- naria tal seqüência de desgraças...

      Enquanto eles falavam parecia-me ver o Xerxelino dentro da ba-nheira de formol, perguntei:

   −E o Xerxelino, quando vai ser o enterro dele?

      Os dois me olharam raivosos:

   −A morte do Xerxelino não podia acontecer agora, entendeu? Ele vivo, atrapalhava tudo, morto, mais ainda!...  Olhe uma coisa, galego, oficialmente, para o mundo lá fora, ele nem morreu ainda, tá sabendo? Aliás, só você está sabendo, foi o único que viu ele morrer.




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   −Como? Só eu... Tinha um monte de gente lá, você falou que ele morreu, todos falam!

   −Na hora o povão correu, tiramos logo o homem de lá, fala-se muito, fala-se que ele foi morto... Fala-se!

      O picolé derreteu inteiro no gim da prefeita. Como a bebida ficou pastosa ela deitou mais gim no copo.  Aquilo tudo não podia ser ver-dade, era uma comédia, só podia ser. Eu não ia continuar participando daquela ópera bufa, o assunto não me interessava mais... Perguntei para a prefeita:

   −Como conseguiu esse  gim aqui em Xáguas?

   −Você é muito abusado, hein Tec Lado...  − ela respondeu − Já viu sua aparência? Está todo furado, roupa suja, parece um mendigo!

      O delegado se imiscuiu:

   −Ele não é mais o Tec Lado  minha linda prefeita, Tec Lado é um cinqüentão, parecido com o vice-governador, você não se  lembra?

Tereza Cristina continuou:

   −Se você é o Tec Lado deveria estar na fila, no aeroporto, lá que é o seu lugar... Pode ser que até já estejam embarcando...

      E os dois caíram na gargalhada, a menina atrás do balcão também se contorcia de tanto rir...

     

      O avião, o avião podia estar partindo... Um desespero me assaltou, tudo o mais se esvaiu... De repente só uma coisa interessava, ir embora, sair daquela maranha.

      Saí em disparada pelas ruas de Xáguas. Era verdade o que eles disseram, meu lugar era na fila, na fila, na fila...

      Como numa miragem vi um carro igualsinho ao do Stanislaw.  Estava numa  das  poucas  transversais  da  rua  principal. O velho carro




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bege parecia me esperar com a chave pronta para a partida. Desabalei-me para o aeroporto.

      Assim que entrei no saguão tive um choque. Estava tudo deserto. No lugar da fila, restos de embalagens, muita sujeira... Uma sacola esquecida, solitária... Uma única alma, a balconista da loja de doces firme no seu posto na semi-esfera. Perguntei:

   −Eles já foram?

   −Meio dia em ponto, conforme foi anunciado. Se demorassem mais com esse vôo X2x9, morria mais gente, você não imagina como estava essa fila... Ainda bem que doutor Gudião ajudou...  Senão...

   −Que horas anunciaram a partida?

   −As dez, onde você estava?

   −Dormindo.

   −E você ia embarcar desse jeito? Nunca vi ninguém viajar de avião assim, com a roupa toda rasgada e suja, acho que não iam deixar não...   

   −Que horas são agora?

   −São quatorze horas e treze −  respondeu e em seguida fez uma observação, curiosa:

   −Você não usa celular nem relógio?

   −Como sabe?

   −Eu reparo nessas coisas... Desde a outra vez em que você esteve aqui...

      Por uns instantes meu olhar ficou perdido nos colchonetes empi-lhados em um canto do saguão, depois me voltei para a moça:

   −Você já ouviu falar no Xerxelino?

   −Dizem que ele é importante lá em Metrópolys, ultimamente está sempre por aqui, é candidato a não sei o quê, têm umas faixas, comícios....

   −Está sabendo que ele foi assassinado?

   −Dizem que houve tiros no último comício dele, falam que atiraram nele, mas não sei não, não houve enterro... Parece que ninguém sabe direito o que aconteceu...

   −Eu sei onde ele está... − eu disse − está tomando banho numa ba- nheira...




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   −Eu não lhe entendo moço, se quer algum doce é melhor pedir logo....

 

      E agora, o que fazer? Afastei-me da semi-esfera. Fora do saguão, me sentei no banco dos taxistas. O sol batia violentamente no meu rosto. Fazia-me ver o orelhão que estava na minha frente como uma silhueta negra.

      Telefonar para o advogado... Foi a mensagem que recebi das pro-fundezas do meu cérebro!

     Quem atendeu foi a secretária:

   −Ele não está, já chegou da China mas viajou novamente, foi para Xáguas a negócios...Quem está falando?

   −Tec Lado, estou falando de um orelhão, aqui de Xáguas...

   −O doutor Nélio foi aí para ver o que está acontecendo...

Desliguei. O advogado Nélio estava em Xáguas! Devia ter chegado com a leva de turistas e participantes do funeral!

      Tinha que falar com ele o mais depressa possível. Ainda restava um pouco de gasolina no carro bege, me mandei para o hotel Grã Xáguas...

      A cara do recepcionista a quem perguntei pelo hóspede Nélio Fillo não era das mais agradáveis de se ver quando ele me respondeu:

   −Não se encontra.

   −Sabe onde ele foi?

   −Saiu com o doutor Og Gudião... Queira se afastar, por favor...

      Não deixou dúvidas de que minha presença incomodava...

      Quando ia saindo quase esbarrei no Rosalindo, terminava seu turno de trabalho.

     Ofereci-lhe uma carona...

   −Onde arranjou esse carro?...− se espantou −  O que está fazendo aqui, não devia ter ido embora junto com o seu pacote?

   −Achei essa geringonça por aí, vou deixá-la no mesmo lugar...  Rosa-lindo, você reparou bem a minha situação, acha sinceramente que eu poderia embarcar?

   −Parece que não mesmo e agora, o que vai fazer?

   −Preciso falar com meu advogado, ele está aqui em Xáguas...




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      Depois de largar o automóvel fomos até a pracinha e sentamo-nos em um banco.

   −Não vai ser fácil achar esse advogado − eu disse − O Gudião deve estar andando com ele por aí.

   −Ele virá aqui na praça − disse Rosalindo − certamente vão lhe mos- trar o busto da cientista.

      Só então vi o bronze da vó de Tereza, recém colocado, bem atrás do banco onde estávamos.

 

      Mais do que tudo, a disponibilidade do Rosalindo ali do meu lado me pareceu a grande oportunidade para esclarecer uma porção de coisas. Para começar, perguntei a ele quem tinha bolado a idéia da manifestação no comício do Xerxelino.

   −Foi a Shirley − ele contou − foi idéia dela, acho que viu  alguma coi- sa semelhante em um blog, na Internet...  Seu entusiasmo nos convenceu, mandamos fazer as roupas verdes em uma costureira aqui da cidade.

   −Sua colaboração foi a Pollaroid, não é verdade?  Seu pai, Deolindo emprestou a máquina e depois você pediu àquela pestinha da sua prima, fotografar, não foi?

   −Sim, a pollaroid estava em cima da mesa da sala porque meu pai acabara de bater uma foto do quadro da Lempicka... Ele fotografou o quadro depois de roubá-lo... Antes de levá-lo para a casa do Xerxelino...

      Senti uma espetada na perna, procurei ver o que era, ainda havia um espinho na minha bermuda. Retirei-o com cuidado antes de continuar a perguntar:

   −Onde arranjaram aquelas quatro grandes armas cromadas, idênticas?

   −Foi Tereza, pegou os revólveres na delegacia, são do pai dela ou da polícia de Xáguas, mesma coisa...

   −Ah! Então foi isso... Quem matou o Xerxelino?

     Ele arregalou os olhos e ficou com o olhar parado:

   −Não foi nenhum de nós, tenha certeza, era tudo bala de festim...

   −E essas balas de festim, de onde vieram?




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      Não houve tempo para a resposta. Um carrão preto parou perto de nós e dele desceram dois homens. Um deles era Og Gudião. O outro, um homem vestindo terno de linho branco, gravata, aparentando uns 30 e poucos anos. Apesar do terrível calor, ostentava uma aparência im-pecável, parecia saído do banho naquele momento. Uma bela estampa, sem dúvida, o advogado Nélio Fillo. Caminhavam em direção a estátua. Ao se aproximarem levantei-me e falei alto:

   −Doutor Nélio, como vai?  Sou eu, Tec Lado.

      A reação dele foi de espanto e repulsa, igual a quando somos abor-dados subitamente por um mendigo. Passado o susto, perguntou:

   −Tec Lado? O que você sabe sobre o Tec Lado?

      Quando fui responder a voz não saiu.  Informações contraditórias chocaram-se dentro de meu cérebro.  Ato seguinte o delegado o afas-tou de mim falando e fazendo gestos para que ele atentasse para o busto.

      Rosalindo interveio:

   −Sua cara... Sua cara não é mais a mesma, Tec...

      Tentei me aproximar outra vez do advogado:

   −Doutor Nélio, por favor, me ouça, sou Tec Lado, preciso muito da sua ajuda!

      Daí em diante o que se ouviu foram os gritos do delegado Og:

   −Ô!...  Soldado! Afasta esse infeliz daqui!... Está perturbando a visita!

      Um homem fardado me agarrou pelo pescoço e me puxou para fora jardim. Mais um outro se juntou a ele e os dois foram me enxotando para fora da praça. No empurra-empurra, minha camisa rasgou-se por inteiro nas costas. O último empurrão me jogou sentado na calçada, em frente à sorveteria. Quando pude erguer os olhos, o automóvel com os dois, já se afastava.

      Rosalindo, que acompanhava de perto o acontecido me ajudou a levantar depois que os guardas se afastaram. A menina da sorveteria, prima do Rosalindo, também se achegou querendo saber o que estava acontecendo. Rosalindo contou-lhe, ela exclamou:

   −O doutor Gudião e esse homem estiveram aqui a pouco! Vieram tomar sorvete...




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  −Ouviu a conversa deles?  − perguntei.

  −Ouvi, o homem bonito falou varias vezes numa tal de  Noverbs... Queria saber notícias do Xerxelino...

   −Não falaram no Tec Lado?

   −Sim, falaram muito esse nome Tec Lado... Também queria saber dele...

      A menina tentava nos detalhar o que tinha ouvido na conversa quando fomos interrompidos pelo gerente da sorveteria que chegava. Com medo ela correu para trás do balcão.  Eu e Rosalindo saímos para a rua.

      Andamos um quarteirão, ocasião em tentei explicar ao rapaz a minha situação, que por ser patrocinado eu tinha uma ligação contra-tual muito rígida com a Noverbs. O advogado Nélio era designado pela empresa para cuidar da minha vida profissional e porque não, da particular. Fora ele quem programou minhas férias em Xáguas a qual coincidiu com sua ausência do País. Depois que voltou da China, preocupado com o campeonato mundial de Xadrez, devia ter tentado falar comigo ao telefone. Não conseguiu porque eu nunca estava no hotel. Como também não dei as caras na data de chegada do vôo X2x9, viera ver o que estava acontecendo. Também devia estar procurando o Xerxelino. Embora licenciado para fazer sua campanha política, Xerxelino devia fazer falta à Noverbs Resumindo a situação, eu e Xerxelino estávamos desaparecidos...

 

      Obsessiva, uma preocupação se sobrepunha a todas as outras... Os tiros... Os tiros... Voltei ao assunto com o Rosalindo:

   −Rosalindo, as balas, quem armou os revólveres? Quem estava com as balas?

   −Não sei  − disse ele − vi o  Aníbal com uma caixa na mão, talvez Tereza ou Shirley saibam responder melhor essa pergunta.

   −Percebeu o que eu quero que você me explique? Rosalindo!  A pessoa que lidou com os projéteis... Rosalindo!...  A pessoa que lidou com os projéteis! Quem foi?

      Ele respondeu com veemência:




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   −Nenhum de nós quatro queria  assassinar o Xerxelino, era só uma manifestação,  pode ter certeza!

      Dizendo isso ele se afastou, nunca mais o vi...

 

     

      Não era difícil localizar o predinho de Tereza naquela pequena cidade, só erguer os olhos, girar a cabeça, lá estava ele. Quando caminhei em sua direção carregava sentimentos tão contraditórios que faziam meu corpo doer. Pode a paixão, as emoções inerentes à paixão, conviverem simultaneamente com o horror?

      Um porteiro pachorrento me atendeu:

   −Dona Tereza Gudião não está morando mais aqui. Foi morar com o pai dela. Talvez ela ainda volte hoje para buscar umas coisas...

      Sentei-me na sarjeta em frente ao prédio e fiquei a esperar. Nem me lembro quanto tempo fiquei ali, algumas horas talvez...

     

      Noite adentro decidi não mais esperá-la, calculei que o advogado já deveria estar no hotel. Voltei à pracinha e fui até o orelhão. Liguei para o celular do Nélio. Ele atendeu:

   −Tec Lado, é você mesmo? Estou a sua procura, onde está, porque não deu notícias?

      Mal conseguia me expressar:

   −Nélio, preciso muito falar com você, precisa me ouvir...

   −Claro, Tec Lado, eu é que quero lhe ouvir, onde está?

   −Me escute Nélio, aconteceu uma coisa estranha comigo, estou com o rosto diferente, foram as águas....

   −O que você está dizendo, não estou entendendo...

      Nem ia entender pensei, talvez se nos encontrássemos...  Apre-sentaria provas... Raciocine direito pensei... Impossível me apresentar com outra cara... Raciocine direito...  Talvez o caso do Xerxelino...

      Depois de algum silêncio, voltei a falar:

   −Nélio, o Xerxelino foi assassinado no comício, levou um tiro no peito, o corpo dele está em uma banheira de formol na casa do médico!

   −Tec Lado, o que está dizendo? Onde você está? Vou até aí.




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      Escolhi o banco do largo mais mal iluminado para esperá-lo. Ainda havia movimento por ali, a maioria casais de velhinhos saboreando pi-colés e pipoca, sempre perto do ônibus, cautelosos para não se atrasa-rem para a volta ao hotel.

      Não demorou muito um daqueles táxis desconjuntados de Xáguas parou perto donde eu estava. A bela figura do Nélio Fillo, sempre de paletó e gravata, apareceu na pracinha. Chamei-o gritando alto e ele veio ao meu encontro. Sentou-se ao meu lado. Escondi como pude meu rosto e tentei explicar a ele tudo o que estava acontecendo. Mas à medida que eu falava, mais e mais tomei consciência de como seria impossível fazê-lo acreditar...

      Na verdade o que fiz foi assustá-lo. Ele se levantou:

   −Quem é você?  É maluco? Você não é o Tec Lado... Onde ele está?    Vou chamar a polícia!

      Como o último contato que tivera com os guardas do Gudião não fora dos mais agradáveis, tratei de esgueirar-me dali. 

  

      Perambulei por algum tempo pelas ruas de Xáguas até que acabasse o movimento na praça e voltei ao orelhão. Liguei para o celular de Tereza. Caixa postal.

   −Tereza! Preciso de você, venha me encontrar na pracinha. Mil beijos. Tec.

      Agora só tinha um lugar para ir, a casa do Xerxelino.

      Uma chave grande presa a uma plaqueta colorida. De um lado esta-va escrito “Visite Xáguas”. No outro, “Vote em Xerxelino...” Deveria abrir, como das outras vezes a porta da casa, mas daquela vez não abriu.

      Voltei a vagar pelas ruas de Xáguas. Onde seria a casa do Delegado Og?  Devia estar nos arredores da praça, quem sabe perto da casa do médico...

      Depois de procurar vi o casarão amarelo que se distinguia das ou-tras casas, uma construção antiga com um grande terraço e uma fileira de janelas laterais. Uma delas estava acesa, resolvi arriscar, joguei uma pedra.

      Tereza apareceu na janela.




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   −Tec,  não posso sair para falar com você... Aonde vai dormir?

   −Trocaram a fechadura da porta do  Xerxelino − respondi− preciso muito falar com você...

   −Porque você não dorme na barraca do Aníbal,  é um bom lugar on- de ficar... Fica atrás da pista do aeroporto, perto da casa da minha vó, há uma trilha... Desculpa-me Tec, mas agora preciso entrar.

 

      Já era madrugada quando localizei a barraca. Encontrei fósforos e acendi um lampião. Havia cama, garrafas com água e alguma comida.             Centenas de livros sobre coisas da natureza e grande quantidade insetos capturados. Depois de esquadrinhar aquilo tudo e fazer uma refeição com o que havia, deitei-me. Já com os olhos semicerrados reparei em uma caixa ao lado da cama. Ao abri-la, vi vários projéteis. Examinando-os bem, constatei que havia dois tipos, uns que eram de festim e outros não.

      Aquilo era o fim? Quem estava com os projéteis era o Aníbal,  foi ele que designou quem ia matar? Não era o fim. Como em uma partida de Xadrez ainda não era o xeque mate...     

      Virei-me para o outro lado e mergulhei em sono profundo.

 

Sexta feira

 

      Acordei com o som da mata em torno da barraca e com a presença de um sonho tão intenso que me custou separá-lo da realidade. No sonho eu estava cheio de ternura por Tereza e acariciava seus cabelos. Ao fazê-lo sentia três pinos em sua cabeça, iguais aos dos gatos. Ficava horrorizado, mas ela continuava com um sorriso terno. Examinava melhor os metais via em cada um deles uma letra; A, B, C.

      O sonho se fazia extremamente nítido. Quando eu apertava o pino A, ela chorava triste.

      No B, ela falava compulsivamente mais ou menos assim: “Tec, tornaram-me muito inteligente... Sei tudo sobre qualquer coisa, o que


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você quer saber? A lei que unifica as forças da natureza? É assim, escute...”.

      Ela falava, falava, explicava, mas eu escutava tudo embaralhado.

      No sonho, em seguida, eu apertava o pino C. Incontinente, começamos a nos beijar. Transamos furiosamente.

      Quando acordei ainda estava gemendo. Fiquei um bom tempo ainda deitado, em estase, ouvindo o chilrear da passarinhada. Depois me vieram caraminholas...  E se ela tivesse dito realmente, no sonho, a lei fundamental, o que eu deveria fazer? Convocar uma reunião com os cientistas da Usp e expor o que eu sabia? Seria possível conseguir isso? Publicar na Internet? Imediatamente alguém se apossaria. No momento em que eu revelasse o saber mais almejado...  Alguém o tomaria de mim?

 

      Perto da barraca havia um riacho com águas alegres e geladas... Senti que podia banhar-me sem perigo. Foi um alívio até o momento em começaram aparecer os besourinhos coloridos. Rodeavam-me e foram se tornando uma nuvem impertinente.

      Durante toda a manhã tentei me livrar dos insetos que ficavam es-batendo-se contra meu corpo, a entrar pelas minhas narinas e ouvidos.  Atrapalhavam, quase me impossibilitando os movimentos.

      No decorrer do dia sua quantidade foi aumentando muito, o que me levou a procurar por ali alguma coisa que os afastasse. Em uma sacola deixada pelo Aníbal, encontrei vários frascos com repelentes de dife-rentes marcas. Havia também outras substâncias químicas em forma de spray e pomadas.  Mas nada daquilo tudo adiantou. A nuvem de be-souros coloridos tornou-se densa e pesada quase me impedindo de an-dar. Joguei-me n’água várias vezes, nada adiantava. À tarde o sofrimento ficou insuportável e meu ímpeto era correr, sair dali e buscar abrigo em algum lugar. 

      Foi nesses momentos que me lembrei do Aníbal... Provavelmente a mesma coisa acontecera com ele... Devia ter se refugiado no avião para se livrar dos malditos besouros...  Deve ter sido aprisionado pelos bichos no interior do avião... Essa não!... A morte do Aníbal não foi um


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sacrifício em benefício da natureza!  Então não fora um sacrifício! Que engano tragicômico!

       Num entreato do desespero ocorreu-me uma idéia. Corri até a caixa onde estavam os projéteis e retirei a pólvora que havia neles. Foi uma inspiração! Verifiquei que o cheiro afastava os insetos. Esfreguei o pó em meu corpo. Com o restante fiz um montículo na porta da barraca e pus fogo. Deu resultado! Por um bom tempo eu ia ficar livre dos bi- chos.

     

     

      Entretanto, as balas dos revólveres cromados, talvez os últimos ele-mentos que poderiam ajudar no esclarecimento do assassinato do Xer-xelino estavam destruídos...

      No final daquela sexta-feira em que passei o dia lutando contra os insetos, estava acabado, me sentindo doente. Deitei-me e peguei ao


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acaso um dos livros do Aníbal.  Li que os primeiros seres vivos, em determinado momento de suas vidas dividiam-se em dois. Não havia morte, essa só passou a existir com o sexo...  Morte e sexo...Sexo e morte...  Sentia-me péssimo!  Adormeci profundamente.




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A carta

 

      Acordei no dia seguinte muito mal, febril, com dores no corpo. Perdi a noção do tempo, tive delírios e longos períodos de incons-ciência. 

      Até uma manhã em que o zíper da barraca se abriu e um jorro de luz do sol bateu no meu rosto.  Delineada por ele estava uma figura ma-gérrima e alta:

   −Tec! Coitado! Em que estado você está!

      Shirley ajoelhou-se a meu lado e segurou minha mão:

    −O que houve? Você esteve doente, está um trapo!

       Eu não tinha mais febre, mas muito fraco, mal podia falar. Estava com muita fome. Shirley esquentou alguma comida e ficou do meu lado enquanto fui recobrando a lucidez. À tarde eu já podia conversar:

   −Shirley, que dia é hoje? Há quantos dias estou aqui?

      Fizemos os cálculos, estávamos numa quarta feira, ficara cinco dias desvalido.

    −Tereza! Onde está Tereza, porque não veio aqui?

      Shirley desviou o olhar, abriu sua bolsa, pegou uma balinha e me ofereceu outra. Sentada em uma banqueta, suas pernas brancas esten-didas pareciam ocupar toda a barraca. Voltou-se novamente para a bolsa e tirou um envelope:

   −Tenho uma carta para você:

      Procurei firmar minhas mãos trêmulas para lê-la:

 

      Meu caro Tec Lado, Tereza contou-me tudo. Que coisa incrível aconteceu com você, cara, inacreditável se não fosse jurado pela Tereza, essa deslumbrante criatura.

      Sem mais delongas vou lhe contar logo. Eu, seu advogado Nélio Fillo e Tereza vamos nos casar. Isso mesmo! Foi tudo resolvido às


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pressas, o pai dela nos tem dado todo apoio, ele foi muito legal. Você não imagina a minha felicidade, faria qualquer coisa para prolongar por esse mundo afora os passeios na harley vermelha que tenho feito em Xáguas... Tudo começou com um passeio de moto que fizemos, ela me convidou para irmos a um laguinho de águas quentes... Uma delícia...    Casamo-nos e vamos para a Austrália, não me pergunte por que, ela decidiu Austrália e não se fala mais nisso... Mas não é só isso, vou lhe contar a maior... Ganhei uma Ferrari de presente! Uma Ferrari, cara! Está amassada, mas em São Paulo a deixo zerinho outra vez. Já pensou? Eu com essa pinta toda dentro de um carro daqueles? Esses caipiras são podres de ricos, já temos até uma cobertura esperando, acho que vou morar em Roma, Paris, sei lá, o que vier está bom...

      Agora falemos de negócios, Tec Lado. Eu e o Doutor Gudião estudamos muito seu caso e decidimos que o melhor é você ficar no anonimato mesmo. Seu caso é muito complicado, ninguém vai acre-ditar.

      O Doutor Delegado vai pegar toda a papelada do episódio do Xer-xelino, a papelada que tem você como autor do homicídio e guardar num cofre. Seria para o caso de haver uma revolução, mudança de governo, entende não é? Fica lá guardado, por vias das dúvidas, se por acaso vierem fuçar por aqui. Fora isso fica tudo limpo, você resta vivo e desimpedido. Não vai querer mais não é? Já ganhou juventude, desfru-tou esses dias com Tereza... Que cinqüentão no mundo teve essa sorte? Por falar nisso ela gostou muito de você, embora tenha feito algumas críticas... “Ele parece que só pensa em sexo... tinha um medo absurdo do meu pai... bebe muito...” e outras coisinhas, mas deixa pra lá, já passou.

      Quanto ao campeonato de xadrez, sua participação foi cancelada, não houve problemas, na imprensa nem saiu nada, você sabe... Depois que surgiu o computador o xadrez está fora da mídia, deixa quieto, vamos, nós dois, mandar a Noverbs à merda.

      Não sei qual o rumo que vai dar a sua vida, espero que se saia bem, é o desejo sincero do seu advogado. Não tivemos tempo de ir aí, por isso estou enviando esta carta que a Shirley se ofereceu gentilmente para


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entregar-lhe.  Um abração, amigo, Tereza também manda um beijinho.

 

PS: O Xerxelino vai junto com a gente para a Austrália, vai ser cremado lá, já está tudo arranjado.

     

     

      Quem estiver atento a esse relato deverá imaginar o que senti ao ler a carta.  Logo depois fui à cidade e tentei falar com Tereza, mas ela já havia partido. Foi no avião que leva o pacote turístico das quartas feiras. Fiquei ainda alguns dias na barraca do Aníbal, depois fui morar com a Shirley em Xáguas. Fiquei lá um bom tempo, até transamos. Ela é uma ótima pessoa embora fique todo o tempo no computador, às vezes até dorme em cima do teclado... Tinha também o desagradável hábito de ficar chupando os meus mamilos na transa...

     

      Por fim, vou lhes contar uma coisa na qual vocês nem vão acreditar.  Consegui sair de Xáguas. Estou morando no meu apartamento na praça Oswaldo Cruz em São Paulo. É aqui que estou escrevendo esses pôs-teres para o meu blog “Mil Sacanagens”. Achei esse nome super ade-quado para as coisas que aconteceram em Xáguas. Sei que ninguém vai acreditar, mas pensei bem e concluí que tenho que deixar registrado de alguma maneira o que se passou comigo por lá. Deixei crescer barba e bigode e uso óculos escuros. Dou minhas caminhadas pela Avenida Paulista e no mais das vezes faço meus lanches no Ponto Chic.

      Não jogo mais xadrez.

      Outro dia Shirley mandou um e-mail contando que Tereza está mo-rando em São Paulo, nos jardins. Hoje amanheci com a idéia maluca de ir à Daslu na esperança de encontrá-la por lá.

      É obvio, nunca mais voltei a Xáguas.




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       Essa história foi publicada no blog

 

de junho de 2005 a março de 2006.

Sob incentivo de Lúcia, Pecus Bílis, Anna e Laura

 

 

 

Escrita e ilustrada por Tec Lado 

 

 

 




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                                        Março de 2006




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